Um brasileiro na Califórnia

Por Sergio Vidal, para o Portal do Growroom

Recebemos recentemente uma mensagem de um brasileiro morando na Califórnia que, após um acidente ocorrido em 2004, passou a ter problemas de saúde que o fizeram recorrer à Cannabis como medicamento. Aproveitando-se da regulamentação avançada sobre a matéria no Estado onde mora, nosso interlocutor tem conseguido não apenas melhorar as dores e aliviar os problemas de saúde, como tem podido conhecer uma realidade que a maioria dos brasileiros nem sabe da existência, ou então patina na supercialidade, citando-a como exemplo, sem de fato conhecê-la.

Para ajudar a esclarecer melhor a respeito da realidade californiana sobre a regulamentação da maconha, a partir de hoje, publicaremos uma série de artigos sobre a realidade californiana a respeito da maconha. Para inaugurar esse espaço, nada melhor do que uma entrevista com o grande inspirador desse debate aqui no blog. Com vocês, um Brasileiro na Califórnia.

Sergio Vidal
Desde quando você mora na Califórnia?

Brasileiro na Califórnia:
Moro há cerca de dois anos e meio.

S.V.
Atualmente como é a legislação em relação ao uso medicinal da Cannabis na Califórnia?

BC: Na esfera da lei Federal, o uso e cultivo da Cannabis ainda é crime, porém, desde 1996, diversos Estados vêem aprovando leis regulamentando o uso medicinal para adultos. Hoje, treze Estados permitem o uso e cultivo mediante recomendação médica e outros seis Estados estão discutindo a questão e aguardando votação. Além disso, podemos destacar o fato de que logo que assumiu a Presidência, Obama afirmou que o dinheiro do Governo não seria mais usado para financiar repressão em casos onde a lei estadual permite o uso. Com isso houve uma grande diminuição no numero de prisões e a aplicação de penas tem sido mais branda. Estamos otimistas para mudanca nas leis e quem sabe uma possivel legalizacao em 2010.

S.V.
Qual a enfermidade que você trata com a Cannabis?

BC: Apos um traumatismo craniano ocorrido em 2004, passei a ter alta sensibilidade em alguns pontos da cabeca resultando em muitas dores, ansiedade e problemas para dormir.

S.V.
Você utilizou outros tipos de tratamentos antes? Quais? Que resultados você obteve?

BC: Além de toda medicação convencional para o tratamento do traumatismo craniano, passei a tomar Dormonid para insônia e remédios comuns para as dores de cabeca e obtive os resultados esperados, com uma certa melhoria nesses sintomas.

S.V.
Quando começou a utilizar a Cannabis para fins medicinais?

BC: Logo que me mudei para Califórnia, tive conhecimento do uso terapêutico da planta para tratar casos como o meu, e fiquei sabendo da facilidade de acesso ao medicamento.

S.V.
O que o motivou a esse uso?

BC: Após ter ouvido em uma rádio algumas propagandas sobre a Oaksterdam University, começei a pesquisar vídeos na Internet sobre a historia da cannabis e sua utilização para fins terapêuticos, e me inscrevi num curso na Universidade. Após treze semanas estava formado, capacitado, entre outras coisas, a como fazer uso medicinal da maconha e me beneficiar de suas potencialidades, para fazer a substituição dos remédios que utilizava e deixar de sofrer com os efeitos colaterais.

S.V.
Como foi o processo para iniciar esse uso medicinal? Quais os procedimentos legais para ter essa autorização?

BC: Basta ser residente na Califórnia, ou seja, portar uma identificacao ou carteira de motorista do Estado e uma recomendação médica. Com isso você pode entrar em qualquer dispensarie e obter sua medicina de todas as formas possíveis – flores, resina, cápsulas, extrato, dentre outros.

S.V.
Como funciona os Cannabis Social Clubs na Califórnia? Você poderia nos relatar um pouco de sua experiência como membro de um desses Clubs?

BC: O Cannabis Social Club está apenas em Oakland, cidade ao norte da Califórnia, onde foi aprovada a “Measure Z”, lei que permite o uso adulto, o que cria a brecha legal para a oficialização dos Clubs. Como moro no sul da California, ainda não tive contato e infelizmente não tenho como falar mais a respeito.

S.V.
Como você avalia os resultados do seu uso da Cannabis para fins medicinais?

BC: Obtenho resultados semelhantes aos de muitos remedios, por um preço muito menor e sem os efeitos colaterais indesejáveis. Tenho um amigo que sofre de eplepcia e substituiu sete remédios diferentes que precisava consumir diariamente por cannabis, e me relatou que sua qualidade de vida aumentou muito. Aqui nos E.U.A é cada vez mais senso comum que a Cannabis é uma alternativa segura e muito eficiente para vários quadros enfermos, podendo ajudar a humanidade em diversas situações.

S.V.
Há um acompanhamento médico? Qual avaliação dos profissionais da área de saúde sobre o uso medicinal da Cannabis?

BC: Sim. A recomendação médica para uso é válida por apenas um ano. Depois disso, o paciente precisa renovar o documento, passando pela mesma avaliação. Trata-se de uma consulta clínica comum, onde o médico, após um exame geral, faz inúmeras perguntas a respeito da necessidade do uso e faz recomendações de como, quando e onde deve se medicar, tudo exatamente como manda a lei. Muitas vezes, por saberem que a Cannabis causa muito menos mal que as penas para os usuários, os médicos emitem o documento a partir de critérios bastante flexíveis.

S.V.
Atualmente, há na Califórnia um número considerável de pacientes autorizados a usar Cannabis medicinalmente?

BC: Não se sabe ao certo a quantidade exata de pacientes regulamentados, pois estes são dados pertencente aos médicos, que devem, portanto, respeitar o direito ao sigilo médico, e não são divulgados. Mas, segundo publicação recente do jornal L.A. Times, estima-se que, somente na Califórnia, o mercado de cannabis medicinal movimente por volta de US 14 Bilhoes de dólares ao ano.

S.V.
Como está atualmente a discussão sobre o uso medicinal da Cannabis no cenário local?

BC: Com a descriminalizacao da cannabis, vários estudos têm sido feitos, principalmente na luta contra o câncer, com resultados bastante favoráveis. A cada dia aumenta o numero de estabelecimentos de venda e serviços relacionados à distribuição da planta.

S.V.
Você gostaria de deixar uma mensagem para os brasileiros que sofrem com suas doenças e que poderiam se beneficiar com o uso da cannabis, mas que não o fazem por medo de serem considerados criminosos?

BC: Eu gostaria de lembrar a eles que tudo na história é uma questão de perseverança e luta. Sei que é difícil para muitos que já têm que lidar com suas doenças ou questões de saúde ainda se dedicarem à bandeiras políticas, mas precisam minimamente escreverem para seus parlamentares, dialogarem francamente com seus médicos e buscarem apoio de entidades que lutam por mudanças na Lei, como a Ananda, o Growroom. Acho que o Brasil já está mais do que na hora de pensar na legalização, principalmente quando se trata de legalizar a cannabis para fins medicinais. São vidas humanas que estão sendo perdidos ou vividas com sofrimento desnecessário. Isso tem que acabar, e os brasileiros merecem um tratamento melhor, mais humano.