Quando a punição é por não fazer vítimas

Por Bas, Cassady e Sano

SARAMANDAIA – Muitos cultivadores de maconha, quando se excedem em suas produções, e, principalmente, se isso acontece em épocas de desemprego ou aumento das dívidas, acabam encarando um difícil dilema: se não gera violência direta ou indireta a terceiros; se existem substâncias e produtos infinitamente mais nocivos à saúde à venda nos botecos; se não atinge a liberdade individual de outros; e, enfim, se não prejudica nem o próprio usuário, por que será que eu vou me fuder se eu plantar bagulho e quiser vender o que eu colher?

“Nunca fiz mal a ninguém, mas pela proibição, posso ser mais um refém na mão de um promotor”.*

O grower preso nesta segunda-feira (26) em uma chácara em Campinas, no interior de São Paulo, inocentemente, pensou que um bilhete escrito a mão pudesse protegê-lo de qualquer ignorância de terceiros. Ele escreveu o “certo”, mas infelizmente não era a resposta da pergunta feita acima. A resposta certa é porque ainda vivemos mergulhados numa sociedade de ignorâncias. De leis que, embora sejam novas, são retrógradas, são vigentes em uma atmosfera delirante que permite (e considera como certo) associar uma bunda feminina a uma garrafa de vodca, e condena aqueles que tentam trafegar na esburacada via “do lado certo da vida errada”. Mas a pergunta pode ter uma resposta bem mais simples: “manda quem pode e obedece quem tem juízo”, ou “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”.

“Se for me por atrás da grade, eu vou me aliar a quem?
Ao sistema falido, a qualquer partido político de crime.
Qualquer um é tudo igual. Eles só querem o bem de quem está a seu lado”

Não foi encontrada nenhuma arma. Nenhum nome de facção criminosa pichado nas lonas refletoras ou nas paredes das casas. Não havia vítimas enterradas, ou zombies semiesfomeados fazendo fila na porta de entrada. Encontraram apenas um bocado de plantas verdes e um homem de grafia e palavras humildes, mas tão pertinentes, tão verdadeiras, que ofenderam as verdades descritas em nossa Constituição Federal. Seu verdadeiro pecado foi ter talvez contado pro amigo do amigo, e deixado expostas ao Sol algumas dezenas de suas variedades canábicas. “Deu mole”, diria insolentemente um malandrinho de plantão. E com toda a razão.

E, sem entrar em muitos detalhes, para não desviar o assunto, mas pelas fotos das reportagens percebe-se que é um cultivo profissional, de alguém atencioso, e, por que não?, estudioso. Um bom grower vive em tutoriais e diários de cultivo, lê livros sobre história e modelos de plantio, e sempre está baixando vídeos sobre técnicas e utilização de produtos. Soa como algo acadêmico, mas, realmente é isso sim. Plantar maconha é uma ciência, por mais “chocante” esta informação possa soar ao meu vizinho acima, que cisma em bater no chão (meu teto) ao sentir uma brisa alheia. Barulho por nada, como acontece enquanto escrevo este texto, mas são outros quinhentos.

Então voltemos a mais uma conclusão: numa visão vanguardista, a manchete de jornal então poderia ser “acadêmico da cannabis é detido ilegalmente em Campinas?” Sim, mas, infelizmente, não foi isso que lemos hoje nos sites. Mais triste ainda é constatarmos que não leremos algo nem próximo a isso em curto prazo. “Mais mais” triste ainda é saber que, mesmo se ele fosse apenas um usuário, e não confessasse tráfico, ele seria indiciado da mesma forma como traficante por causa da nossa defasagem constitucional.

Grower não é traficante. E traficante que planta, sem promover violência ou provocar vítimas, precisa ser interpretado de uma forma diferente aos “berrados” e encapuzados violentos. A batalha é longa, e precisamos de fôlego. E também precisamos ficar atentos. É importante fazermos sempre o que consideramos certos, mas sempre observando o que diz aquele malandro de plantão: Nunca dê mole. E keep growing!

* Trechos da carta escrita pelo grower, e encontrada pela polícia. 

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» Notícia do G1 sobre a prisão