A ponta mais fraca

Por: Cassady

É de extrema covardia prender um epilético somente por plantar maconha em casa. Mas isso não importa para os proibicionistas  – eles querem “exemplos de consequências”.

É fato notório que, no topo da pirâmide de prioridades dos proibicionistas, está o tráfico de entorpecentes no país. E também é de conhecimento público a localização dos pontos de vendas e distribuição de drogas, em comunidades carentes comandadas por grupos de criminosos armados, que promovem à bala uma série de chacinas para manter ($) uma rede corrupção que envolve, entre outros, os próprios “proibicionistas”, como políticos e policiais.

Mas também já é sabido que a guerra às drogas fracassou, pois estes pontos de venda de drogas são infinitos e a rede de corrupção já enraizada em nossa sociedade não permite qualquer ação eficiente para detê-la.

No entanto, para os proibicionistas, manter esta guerra vale ouro. Não jogaram a toalha. Algo semelhante com o que aconteceu na guerra do Vietnã, quando os EUA, já totalmente derrotados, continuavam a mandar tropas para o outro lado do mundo para serem aniquiladas pelos soldados de olhos puxados.

Os proibicionistas querem, antes de tudo, “exemplos”. Exemplos de consequências, do que podem acontecer àqueles que não concordam em sustentar esta rede viciosa de subornos, disparos e vítimas.

Nesta linha de pensamento, um jovem, portador de epilepsia, foi preso na manhã desta quinta-feira (5) na Região Serrana do Rio de Janeiro, sob a alegação de tráfico de drogas. Dentro da residência do suspeito foram encontradas dezenas de pés de cannabis. Mesmo com a alegação de que plantava para uso medicinal, ele foi algemado e encaminhado para uma detenção, onde aguardará julgamento.

Durante a ação que resultou em sua prisão, não foi registrado qualquer tipo de resistência. Também não foi apreendida qualquer arma de fogo. O suspeito não tinha passagem pela polícia. Na ocasião da prisão, ele foi defendido veementemente pelos seus pais, que alegaram novamente que as plantas eram para consumo próprio. Mas a Polícia Federal, ante às toneladas de prensado que trafegam livremente pelas rodovias brasileiras até chegarem às favelas; ante a um rombo de R$ 88 bilhões nos cofres da Petrobras (fruto de um descaso total de investigações com a estatal); e ante aos milhares de crimes eleitorais que permitiram a eleição “da mesma corja de sempre” nas últimas eleições, preferiu criar um “exemplo” com a prisão de um epilético, desarmado, que plantava para consumo próprio.

Podemos classificar esta atitude da Polícia Federal como “COVARDE”. Pois procurou o lado mais fraco da corda do universo das drogas para mostrar serviço, e a cortou covardemente. Covardemente. Sim, porque, se tivesse culhão, estava fiscalizando as fronteiras na vera. Se quisesse realmente, estava prendendo os políticos que são financiados pelo tráfico. Ou melhor, se tivesse realmente coragem de enfrentar os fatos, estaria prendendo os comandantes das próprias corporações que participam dos “esquemas”.

O jovem suspeito, se estivesse no Colorado (EUA), por exemplo, poderia ter ganho até um prêmio por cultivo, pois é bastante difícil cultivar a quantidade dentro de uma residência. Aqui, vai dividir cela com chefes de tráfico, assaltantes e assassinos.

E, convenhamos, se vendia para alguém, qual o mal que fazia para a sociedade? Ele não impôs nenhuma lei em seu bairro, não criou nenhuma lei do silêncio entre seus vizinhos, não corrompeu nenhum agente público com subornos, e, muito menos, não obrigou ninguém a comprar e consumir a erva.

O Brasil tem uma polícia e uma política hipócrita. Suas leis são defasadas. Por isso, não podemos mais alimentar este ciclo de ignorâncias e idiossincrasias que permeiam nossas relações com as autoridades. Maconha nunca matou ninguém. Maconha não é crack. Maconha é remédio. Essas verdades precisam ser difundidas urgentemente na sociedade.

PRECISAMOS URGENTEMENTE DE UMA MUDANÇA DE PARADIGMA. E SEM COVARDIAS.

Lamentamos muito a atitude da PF nesta operação “Do Leme ao Pontal”. Prender pessoas dignas não deve ser um meio para se criar exemplos. Infelizmente, a verdadeira Justiça não consta nos mandatos de busca e de prisão dos policiais, e sim na utopia daqueles que lutam diariamente contra o medievalismo que marca as ações das autoridades públicas brasileiras.