Músicas sobre maconha para ouvir fumando na quarentena

Quando o assunto é a combinação entre som e maconha, o papo vai longe. A influência da Cannabis é fundamental em diversos gêneros da música pop, principalmente dos anos 60 para cá. Mas essa relação começa na década de 30, quando a erva cai no gosto dos jazzistas de Nova Orleans, nos Estados Unidos. Chapada, a galera do jazz tocava de forma mais cadenciada, abrindo criativas possibilidades de improviso.

Apaixonado pela maconha, a lenda do trompete Louis Armstrong foi o primeiro músico da história se posicionar publicamente contra a proibição da maconha. E também um dos primeiros grandes casos de perseguição racista do governo dos Estados Unidos a músicos negros de jazz sob o pretexto do uso da maconha.

Já a primeira música foi sobre a venda da ganja, na figura do “Reffer Man”, tema da canção gravada em 1932 pelo cantor, maestro e dançarino Cab Calloway. No refrão, o jazzista reverenciava o responsável por abastecer a turma. “Oh, Have You Ever Met That Funny Reefer Man?” (“Oh, você já conheceu o divertido cara da erva?”). Nas letras, eram comuns gírias usadas pelos músicos para se referir à erva, como “reefer”, “jive” e “grass”.

O documentário “Baseado em Fatos Raciais” (2019), do qual falamos outro dia numa matéria com dicas de séries sobre maconha na Netflix, conta um pouco dessa relação entre a maconha e o jazz. O filme mostra, ainda, como a erva está intimamente ligada a outra manifestações da música negra, como o reggae e o rap. Vale a pena assistir.

A real é que dá para viajar muito na associação entre música e maconha. Duas grandes companheiras, super importantes para a saúde mental de tanta gente – como temos visto nestes duros tempos de isolamento social. Em breve, o Growroom vai preparar para vocês playlists com sons chapados, podcasts culturais e outros conteúdos voltados para quem curte queimar um brisar em ondas sonoras. Fiquem ligados!

Enquanto isso, deixamos para vocês dez músicas clássicas sobre maconha para ouvir fumando um em casa. Dá o play e “fogo na bomba”!

“When I Get Low, I Get High” (1936) – Ella Fitzgerald & Chick Webb

Ainda dentro do jazz, vamos falar de uma das maiores cantoras da história: a maconheira nata Ella Fitzgerald. A norte-americana gravou sua “reefer song” em 1936, junto ao baterista e bandleader Chick Webb, outro notório entusiasta da erva.

O título/refrão é pioneiro em registrar a principal gíria em inglês sobre “ficar chapado” (“get high”). Há mais de 80 anos, Ella já mostrava o óbvio, mas que muita gente ainda infelizmente insiste em negar: as mulheres sempre fumaram maconha.

“Kaya” (1971) – Bob Marley & The Wailers

Nos anos 70, com a explosão do reggae, Bob Marley revolucionou a música pop e sua relação com a maconha, transformando ainda a forma como os jamaicanos viam os adeptos do rastafarianismo. Depois de Bob, os rastas passaram a ser aceitos e a maconha foi deixando paulatinamente de ser tabu no meio artístico. Digamos que na linha do tempo da relação entre música e maconha há um Antes e Depois de Bob.

São muitas as canções em que o mestre aborda o tema, inclusive por conta da relação religiosa que os rastas guardam com a erva. Mas “Kaya” (maconha, na linguagem dos Rastafari) talvez seja a mais emblemática. Inclusive, para nós, brasileiros. Afinal, vale lembrar que a faixa ganhou uma versão de um dos grandes medalhões da nossa música, o baiano Gilberto Gil, outro artista totalmente influenciado pela Cannabis.

“Sweat Leaf” (1971) – Black Sabbath

O rock é outro gênero musical que anda lado a lado com a maconha. Mais precisamente, depois de Bob Dylan e dos Beatles. Usuário e defensor fervoroso da erva, Dylan foi o responsável por “aplicar” os então jovens músicos de Liverpool, nos idos de 60. A erva impulsionou a criatividade e ampliou o leque de possibilidade estéticas dos Beatles. John foi um grande entusiasta; Paul afirmou ter parado aos 70 anos, em entrevista à “Rolling Stone”, em 2015.

Um dos primeiros produtos “under influence” dos Beatles foi o clássico “Revolver”, de 1967. Uma das faixas do álbum é “Got To Get You Into My Life”, homenagem à erva disfarçada de canção romântica. Até pensei bastante se não colocava ela aqui na lista, mas escolhi uma mais icônica, de outra banda inglesa, diretamente influenciada pelo The Beatles: o Black Sabbath.

Com uma tosse seca que antecede o riff de guitarra, “Sweet Leaf” (“erva doce”) é uma declaração de amor quase explícita de Ozzy Osbourne à brenfa: “My life is free now, my life is clear / I love you sweet leaf though you can’t hear” (“Minha vida agora está livre, minha vida está clara / Eu te amo, erva doce, apesar de não poderes me ouvir”).

“Maria Joana” (1971) – Erasmo Carlos

No mesmo ano em que saía na Inglaterra “Master of Reality”, do Sabbath, Erasmo Carlos lançava no Brasil o clássico “Carlos, ERASMO…”.  O lance é que, em 1971, nosso país penava com a ditadura militar, justo em seus tempos mais sombrios, durante o governo do general Emílio Garrastazu Médici. A censura marcava em cima dos artistas considerados “subversivos”, que já se exilavam para manter-se vivos.

No meio disso tudo, Erasmo lança seu disco, cuja uma das faixas é “Maria Joana”. “Eu quero Maria Joana / Eu sei que na vida tudo passa / O amor vem como nuvem de fumaça”, diz a letra, que incrivelmente passou pela censura, que pensou que se tratava de uma canção romântica. Depois que o disco já havia sido lançado, eles sacaram a jogada de Erasmo e proibiram que a canção fosse tocada nas rádios. Aqui, Tremendão fala um pouco sobre a história de “Maria Joana”.

“Legalize It” (1976) – Peter Tosh

É possível fazer diversas matérias e playlists sobre reggae e maconha. Afinal, a relação estética, sonora e religiosa do estilo com a erva é intrínseca. Contudo, entre as diversas músicas de reggae que tratam da ganja talvez a mais emblemática seja “Legalize It” – até hoje, um dos maiores hinos da luta pela legalização da maconha. A canção projetou o reggae para a esfera do ativismo. A letra é um manifesto que desmistifica preconceitos envoltos no uso da erva e trata de seus benefícios medicinais.

Ali estava Peter Tosh, jovem rasta que já havia sido preso e espancado pela polícia, cantando pelo fim da guerra contra a planta. O jamaicano colocava publicamente sua arte à disposição da luta, usando o alcance do reggae para espalhar a palavra não só de Jah, mas da legalização. Tosh chegou até a participar de uma novela da “TV Globo”, quando veio ao Brsil, cantando uma música sobre maconha (surreal!).

“A Semente” (1986) – Bezerra da Silva

Todo brasileiro que se preze, até mesmo os caretas, sabe cantar o refrão de “Malandragem Dá Um Tempo”: “Vou apertar, mas não vou acender agora / Se segura malandro, pra fazer a cabeça tem hora”. Manual de sabedoria do bom malandro, o clássico de Bezerra da Silva é um dos sambas de maconheiro mais conhecido do nosso país. Talvez só perca para outro, que coloco aqui: “A Semente”.

“Meu vizinho jogou / Uma semente no seu quintal / De repente brotou /Um tremendo matagal”. É bem capaz que você, entusiasta da erva, também conheça esta maravilhosa e bem-humorada crônica da música brasileira. E o curioso é que Bezerra dizia que não fumava maconha! Afinal, ele musicava letras trazidas por moradores do morro, que falavam de suas realidades, como mostra o documentário “Onde a Coruja Dorme”.

“Hits From The Bong” (1993) – Cypress Hill 

No fim dos anos 80, o movimento hip-hop explode e coloca o rap no topo das atenções da música pop. E, de mãos dadas com o rap, vem a maconha. A ligação que hoje é quase indissociável começou com artistas como Snoop Dog, Method Man & Red Man e, claro, o Cypress Hill.

A banda de Los Angeles, que é uma das primeiras a misturar rock e rap, tonou-se praticamente a porta-voz da causa cannábica. Primeiro artista a ser fotografado para a capa da revista “High Times”, o frontman B-Real inaugurou uma nova forma de fazer ativismo: com afronta, mas usando o business a favor.  Hoje, o rimador, além de referência na luta pela legalização, é um grande empreendedor da Cannabis.

Como toda banda de maconheiro, são várias as músicas do Cypress que caberiam aqui. Mas a primeira que me veio à cabeça foi “Hits From The Bong”. Nada mais icônico que aquele barulhinho da água do bong que antecede o beat com o sample de “Son Of A Preacher Man” (Dusty Springfield). Dá uma vontade instantânea de bongar, né?

“Legalize Já” (1995) – Planet Hemp

Marcelo D2 já contou que Skunk, o idealizador do Planet Hemp, pirou na ideia de montar a banda depois de conhecer o Cypress Hill. Realmente, uma receita genial: misturar rap e rock, e falar sobre maconha. Uma pena que Skunk, que faleceu precocemente em 1994 não tenha visto o quanto deu certo. Afinal, o Planet Hemp veio a tornar-se uma das bandas mais marcantes da história da música popular brasileira.

Mais do que gravar bons discos e protagonizar shows explosivos, o grupo carioca colocou a maconha na roda do debate no meio artístico tupiniquim, que ainda tratava o assunto com muita hipocrisia. E, claro, sofreu retaliações por isso – como a prisão durante um show, em Brasília, em 1997. Se hoje geral canta sobre maconha numa boa é porque o Planet Hemp, sem dúvidas, foi quem abriu as portas.

E aqui vai o clássico dos clássicos, do “Usuário” (1997), disco de estreia dos caras: “Legalize já, legalize já / Porque uma erva natural não pode te prejudicar”.

“Fogo na Bomba” (1999) – De Menos Crime 

O rap nacional surgiu com letras de protesto, voltadas a denúncias contra mazelas sociais como a violência policial e o extermínio da juventude negra periférica. O terreno era bem sério, espinhoso, e não havia muito espaço para brincadeira. Uma realidade bem diferente dos grupos de rap gringos, que protestavam mas, diante de seus privilégios, também podiam cantar sobre festas e drogas. É por isso que “Fogo na Bomba”, dos paulistanos do De Menos Crime, é tão pioneira.

A música é uma das primeiras do gênero a tratar com leveza e naturalidade o hábito de fumar maconha entre a turma do rap, oxigenando um ambiente sisudo e pesado. O De Menos Crime não fazia “rap de massagem”; era protesto puro. Mas com “Fogo na Bomba” mostrou que era possível cantar a denúncia e também “ficar à pampa”. “Sem desarrumar. Um, dois / Passa a bola, ladrão quer fumar. Um, dois”.

“James Joint” (2016) – Rihanna 

A história da música evidencia a influência da erva na carreira de muitas cantoras. De Rita Lee a Ludmilla, de Courtney Love a Amy Winehouse, de Lauryn Hill a Dezarie, de Alanis Morissette a Miley Cirus – não faltam exemplos de mulheres que soltara a voz para declarar seu amor à erva. Uma das mais marcantes dos últimos tempos é Rihanna.

Nascida em Barbados, a estrela nunca escondeu seu entusiasmo pela Cannabis. Pelo contrário, Riri faz questão de aparecer fumando baseados em frente às câmeras, seja em seu Instagram, posando para ensaios ou flagrada por papparazzis. E para aquele tio reacionário babaca, que fala que maconheiro não vai dar certo na vida, avisa que a cantora foi a mulher mais rica da música em 2019, segundo a “Forbes”, com fortuna estimada em 600 milhões de dólares.

Aqui, selecionamos “James Joint”, uma das músicas mais explanadas da Rihanna. Além de ter “baseado” (“joint”) no título, a música já começa com uma porrada: “I’d rather be smoking weed / Whenever we breathe” (“Eu preferiria estar fumando maconha / Sempre que nós respiramos”).