Maconha tem antiinflamatório que ''não dá barato''

do portal iParaiba

Um componente da maconha pode funcionar como um poderoso agente antiinflamatório sem causar “barato” nas pessoas, dizem cientistas. A descoberta pode trazer um grande alívio aos que sofrem de artrite, cirrose e outras doenças. As drogas já existentes nem sempre são tão eficazes, podendo ainda provocar efeitos colaterais, desde úlceras estomacais ao aumento do risco de ataques cardíacos.

Os defensores da maconha há tempos afirmam que os ingredientes ativos da planta, conhecidos como canabinóides, são seguros e eficazes no tratamento de dores, náuseas e outros males. O principal canabinóide – delta-9-tetraidrocanabinol, ou THC – é conhecido por suas propriedades antiinflamatórias. Mas a substância também é responsável pelos efeitos psicotrópicos da planta.

Agora, pesquisadores dizem que outro canabinóide, chamado beta- cariofileno, ou (E)-BCP, ajuda no combate à inflamação sem afetar o cérebro. O (E)-BCP já faz parte da dieta de muitas pessoas, ressaltam os pesquisadores. Alimentos como pimenta-do-reino, orégano, manjericão, limão, canela, cenouras e aipo contêm alto teor desse componente.

Os óleos essenciais das plantas cannabis – cujas folhas e flores são usadas para obtenção da maconha – contêm até 35% de (E)-BCP. No entanto, mesmo após décadas de pesquisa com cannabis, os cientistas nunca tinham percebido que o componente possuía propriedades antiinflamatórias.

“Isso porque as pesquisas se focavam sempre nos canabinóides clássicos, (e não no (E)-BCP),” disse o autor líder do estudo, Jurg Gertsch, do Instituto Federal de Tecnologia da Suíça.

Só um receptor
Os canabinóides da maconha são conhecidos por afetarem primeiramente dois dos diversos receptores moleculares do corpo humano. O receptor CB1 é encontrado no cérebro e no sistema nervoso central, sendo responsável pelo “barato” que as pessoas sentem quando fumam um baseado. O outro receptor, chamado CB2, localiza-se nos tecidos do resto do corpo, desencadeando uma série de reações químicas que ajudam no combate à inflamação.

“Estamos interessados em explorar a natureza farmacológica do receptor CB2,” pois ele não tem efeitos colaterais psicotrópicos, explicou Gertsch por e-mail. “O estímulo do receptor CB2 pode ser uma estratégia teurapêutica na prevenção ou tratamento de doenças como a Doença de Crohn (inflamação do aparelho intestinal), cirrose hepática, artrose e aterosclerose”.

O THC ativa ambos os receptores, aliviando a inflamação, mas também causando o “barato” nos usuários. Já o (E)-BCP afeta somente o receptor CB2, segundo o estudo recente, contido nos registros da Academia Americana de Ciências.

Como parte da pesquisa, os cientistas desenvolveram uma raça de camundongos sem o receptor CB2. A equipe então submeteu os camundongos geneticamente modificados e os camundongos normais a uma dieta rica em (E)-BCP. Após a indução de uma inflamação química, os cientistas notaram que os camundongos normais obtiveram um efeito antiinflamatório, o que não ocorreu com os camundongos geneticamente modificados.

“Este experimento mostra que os efeitos antiinflamatórios são mediados pelo receptor CB2”, disse Gertsch.

Drogas como matéria prima?
Stephen Safe, diretor do Centro de Medicina Ambiental e Genética da Universidade do Texas A&M, disse estar impressionado com os resultados obtidos nos experimentos com células de camundongos e camundongos vivos. “A equipe fez um bom trabalho,” disse Safe, que não fez parte da pesquisa.

Ele também ressaltou que muitos outros estudos apontam que substâncias químicas lipossolúveis de plantas podem ativar diversos receptores do corpo. “Muitas dessas substâncias provêm de plantas que têm sido usadas na medicina tradicional,” ele disse. “Este é outro exemplo disso – só que um pouco mais sexy.”

Neste caso, ele ressaltou, a equipe de Gertsch identificou ativadores “mais politicamente corretos” do receptor CB2. “Será que eles poderiam ser desenvolvidos e modificados para a obtenção de drogas antiinflamatórias mais eficazes?” ele perguntou. “Talvez. O (E)-BCP poderia ser um novo modelo de composto para o desenvolvimento de medicamentos.”