Manga Rosa: a história da mítica genética de maconha ‘brasileira’

“Da Manga Rosa / Quero gosto e o sumo”. A julgar pelo resto da letra de “Morena Tropicana”, é possível que Alceu Valença estivesse mesmo referindo-se à famosa fruta brasileira. Mas não precisa ser assim tão maconheiro (a) para saber que o nome “Manga Rosa” também batiza uma lendária qualidade de erva. E que Alceu pode ter curtido bastante nos anos 70…

A origem da genética , que pode ser uma das primeiras desenvolvidas em solo brasileiro, é rodeada de mistérios. Mas fato é que a Manga Rosa existe, apesar de sabermos também que não há uma strain genuinamente brasileira. Isso porque é sabido que o costume de fumar maconha tem seus primeiros registros depois da colonização portuguesa, entre os anos 1500 e 1700. Foi neste período que a erva chegou a terra brasilis, provavelmente trazida pelos africanos sequestrados da África Ocidental para serem escravizados pelos portugueses.

Artigo do “Jornal O Globo”, publicado em 23 de agosto de 1930 – Foto: Acervo “O Globo”

A Manga Rosa e as origens da proibição

No livro “História da Maconha no Brasil”, o historiador Jean Marcel Carvalho França afirma que não é possível precisar quem trouxe a Cannabis para o País, mas que certamente foram os africanos quem a popularizaram. “A ‘autoria’ da introdução da Cannabis e do canabismo na América Portuguesa é, pois, incerta: os africanos, para cá trazidos como escravos a partir da metade do Século XVI, conheciam a planta e apreciavam seus efeitos inebriantes; mas muitos marinheiros portugueses, em particular aqueles frequentadores de carreiras da Índia, também era adeptos do canabismo e conheciam a cultura da Cannabis. Isso, contudo, importa pouco, já que foram sem dúvida os africanos e seus descendentes que consolidaram o hábito do canabismo na sociedade local”.

É inclusive com o intuito escravagista de reprimir o hábito dos africanos de consumir a “diamba”, “liamba”, “pito de pango” ou “fumo-de-angola” que  a Câmara Municipal do Rio de Janeiro estabelece a primeira lei proibicionista do Brasil, em 1830. “É proibida a vende e uso do pito de pango, bem como a conservação dele em casas públicas; os contraventores serão pessoas que dele usarem, em oito dias de cadeia“, diz o texto. A partir daí, várias cidades brasileiras copiaram a conduta e começou-se uma investida contra os escravos “diambistas”,  que se justificava pelo fato da erva os deixarem mais “preguiçosos”, “sorridentes” e  “teimosos”.

Sim, o começo da proibição da maconha no Brasil – bem como sua perpetuação – está totalmente ligado ao racismo. Alguém ainda não sabia disso?

Plantação no Polígono da Maconha – Foto: Polícia Federal/Agência Pública

O que se sabe sobre a Manga Rosa

Registros dão conta de que a Manga Rosa é uma das genéticas de maconha cultivadas de forma ilegal no Baixo e Submédio São Francisco, o chamado Polígono da Maconha. A região do Nordeste brasileiro compreende mais de 10 municípios dos estados do Pernambuco e da Bahia e existe desde os anos 1930, segundo registros do médico neurologista Jarbas Pernambucano.

Em 1950, o sociólogo norte-americano Donald Pierson, em trabalho encomendado pela Polícia Federal, constatou a existência de plantações ilícitas de maconha na região. Segundo Pierson, o Polígono – que até 2015 ainda seria responsável pela venda de 40% do mercado da maconha ilegal no Brasil –  chegou a ser o principal fornecedor de maconha no Brasil, nos anos 1990, “inclusive com as lendárias estirpes de sativas ‘Manga Rosa’, ‘Cabeça-de-Nego’ e ‘Cabrobró'”.

Como a história está envolta em proibição e apagamento, não é possível determinar a origem dessa genética. Muitos dizem tratar-se de uma cepa 100% sativa que desenvolveu-se de forma selvagem em solo brasileiro desde que foi trazida pelos escravos africanos. Outros usuários já defendem que essa, originária, seria a Cabeça-de-Nego, enquanto a Manga Rosa seria uma cruza com a Colombian Gold, clássica sativa selvagem, proveniente da região colombiana de Santa Marta.

Não bastasse toda a mística, uma outra curiosidade acerca da Manga Rosa é que ela seria uma das genéticas que deu origem à famosa White Widow.

Cultivo outdoor de Manga Rosa – Foto: Fórum Growroom

Características da Manga Rosa

Não é possível precisar as origens da Manga Rosa, mas dá para identificar seu aspecto, sabor e efeitos. Antes de tudo, é uma strain bastante doce e frutal – daí seu apelido carinhoso. Como uma genética 100% sativa, é bastante rica em THC e, se bem cultivada, pode ter um efeito poderoso. Contudo, a onda das flores é bastante eufórica, psicológica, ideal para conversar e ativar a mente. Nada que vai te nocautear, dar sono e te deixar jogado no sofá.

O aspecto da Manga Rosa é típico das sativas: plantas espichadas e altas, que podem passar dos 2 metros de altura, com folhas extremamente finas e serrilhadas. Os camarões costumam desenvolver pistilos alaranjados e não engordam muito. Para quem quer plantar maconha em casa, é uma strain indicada principalmente para o cultivo outdoor, já que tem um tempo de floração demorado, que varia de 3 a 4 meses.