Gil volta a falar de canábis e deixa nas entrelinhas que nunca parou de usar

SÃO PAULO – A história começou mais ou menos assim. “Ele disse: ‘abra o olho’ / caiu aquela gota de colírio / eu vi o espelho / (…) / eu perguntei como é que andava o mundo (…)”. Depois disso, Gilberto Gil ainda lançou quase 40 discos, mas aquele show no TUCA em 1974 ficou marcado. Era primeira vez que, mesmo nas entrelinhas, um artista do ‘meinstrim’ falava de maconha. E desde então Gil nunca mais parou de defender a causa, mesmo que de maneira velada.

De volta ao atual, Gilberto Gil continua antigo. Quer dizer, reafirmando que a canábis não é nada demais, não é o bicho de sete cabeças que a sociedade moralista pinta, e muito menos algo que deve ser combatido em uma guerra louca proibicionista. Nesta semana, o ex-ministro da Cultura do governo Lula falou à TV Folha sobre sua relação com a maconha, e como tem sido sua relação com a erva na sua vida produtiva. Freneticamente produtiva.

Sobre sua posição declarada
“Acho que aos 70 anos é difícil que alguém tenha condições de mudar radicalmente sua maneira de ver o mundo, de olhar o mundo.”

Sobre o uso da maconha e cositas más
“Maconha eu usei até os 50 anos de idade, quando decidi que deveria me afastar do hábito. Usei muito também, rapidamente, LSD e mescalina naquela época do psicodelismo.”

Maconha e a música
“Gostava de maconha principalmente por causa da música. Ela desencadeava uma liberdade auditiva. Eu costumo até brincar, dizer que tanto a bossa nova como o reggae, que tem aquela docura, que tem aquele jeito, aquela suavidade, etc, são genêros (musicais) que foram beneficiados pela maconha”

Confira ainda a entrevista completa, onde ele fala de outras coisas como futebol, governo Dillma…

Gilberto Gil, o eterno gênio da transformação, da palavras bem colocadas.

Sobre a música “Abra o Olho”, Gilberto Gil também já tinha explicado antes como foi o processo criativo da composição:

Sou eu pondo colírio nos olhos depois de ter fumado um cigarro de maconha, em Manaus. O hotel ficava fora da cidade, no meio do mato. Fui ao espelho, vi meus olhos vermelhos, pus colírio e fiz a música. Um diálogo de mim pra mim. O ‘ele’ é ‘o outro’, o outro eu, o do espelho. Um pingue-pongue-bumerangue: você joga pra atingir o que está lá, a seta volta e lhe atinge. Pelé e Zagallo dão o sentido de contradição e complementaridade yin-yang; um é África, o outro, Europa.”