Por que o meu filho é maconheiro? — Compreendendo e lidando com o uso da maconha

Um dos piores pesadelos para pais e responsáveis é a suspeita de que seu filho esteja usando drogas ilegais. Quando essa preocupação é confirmada, então, é ainda mais difícil saber o que fazer. Coloco de castigo? Chamo a polícia? Levo no médico? Mando para uma clínica de reabilitação? É importante manter a calma e, primeiramente, se informar. Esse artigo foca no uso da maconha por jovens e suas motivações. Compreendendo as razões para o uso da cannabis, fica mais fácil saber o que fazer.

A maioria de nós faz uso de alguma droga (chamamos aqui de droga, substâncias psicoativas), seja uma droga legal, álcool, cafeína ou uma droga proscrita. Crianças se acostumam logo cedo a usar medicamentos para se sentir melhor; e hoje em dia, medicamentos que alteram o estado mental têm sido frequentemente usados na pediatria, como a Ritalina e antidepressivos.

É comum o pensamento de que somente o uso de drogas ilegais é problemático, enquanto o uso de drogas legais é seguro. Para lidar com o uso de drogas por parte dos filhos, é aconselhável deixar de lado essas hipocrisias e lembrar de alguns fatos:

  1.  Quase todo mundo usa drogas e a busca por substâncias que alteram o estado mental faz parte da natureza humana (e de outros animais), tendo um papel relevante em sua história.
  2. Nem todo uso de drogas é problemático; e nem todos os problemas do usuário foram causados pelas drogas.
  3. O uso problemático de drogas (como o uso compulsivo e a dependência) não foi causado pela droga em si; esse tipo de comportamento costuma estar ligado a motivações mais profundas e pessoais.

O último ponto é complexo, e ainda que seja menos frequente no caso da cannabis, é importante que os pais fiquem atentos a essas motivações e procurem estratégias para enfraquece-las. Voltaremos nesse ponto mais adiante. A seguir, alguns tipos de usos e suas motivações.

Uso experimental

O cérebro de um adolescente está programado para que ele seja especialmente curioso em relação ao mundo e corra mais riscos do que um adulto. Nessa fase de aprendizado, o jovem que mais explora tem melhor desenvolvimento cerebral do que os colegas. Portanto, é comum o uso experimental de drogas na adolescência. Esse comportamento não indica uma anormalidade cerebral ou na personalidade, trata-se de algo natural. Esperar abstinência total dos filhos, portanto, não é muito realista.

Enquanto alguns experimentam apenas uma vez e param por aí, outros jovens podem gostar da sensação e voltar a utilizar a droga. O próprio tabu em torno das drogas ilegais se torna um atrativo para o adolescente e, como pais e educadores evitam entrar em detalhes e ter uma conversa honesta sobre drogas, há maior risco de o jovem utilizar a droga de maneira errada e acabar prejudicando a própria saúde.

Alguns pontos úteis para que os pais possam aconselhar os filhos em relação a experimentação com cannabis:

  • O cérebro ainda está em desenvolvimento até os 22 a 25 anos e o uso de substâncias psicoativas, inclusive a maconha, pode atrapalhar nesse desenvolvimento. Então, não faça uso da maconha;
  • Mas, se fizer, não o faça com estranhos, apenas com pessoas de confiança;
  • Algumas pessoas sentem-se tontas e sofrem uma queda na pressão sanguínea ao usar maconha. Procure um lugar confortável para sentar (como um sofá) antes de usar a erva, evite locais onde, caso desmaie, possa bater a cabeça (como o banheiro);
  • Algumas pessoas sofrem palpitação, aceleração do batimento cardíaco e pressão alta após o consumo de cannabis. Nesse caso, pare imediatamente de usar a droga e procure atendimento médico caso os sintomas persistam por mais do que alguns minutos;
  • Algumas pessoas sofrem sintomas como forte paranoia e ansiedade após o uso da cannabis. Caso sinta-se assim ou extremamente desconfortável, interrompa o uso e evite usar novamente;
  • É melhor que o uso experimental seja feito com uma pessoa que tenha mais experiência com a maconha, para que essa pessoa acalme o novato caso ele fique assustado com os efeitos da droga. Pode-se esperar efeitos como perda da noção do tempo, mudança na percepção de som e cores, alucinações leves, relaxamento e sono, euforia e sentidos aguçados;
  • Não dirija ou opere maquinaria após o uso da maconha;
  • A maconha costuma ser fumada, mas também pode ser ingerida. A maconha fumada é mais fácil de controlar a dosagem, pois os efeitos ocorrem logo após o trago e o usuário pode então controlar melhor a intensidade dos efeitos. No caso da maconha ingerida, o efeito demora mais para aparecer (de 30 minutos a duas horas) e pode vir com uma potência muito maior.
  • Não há overdose de maconha ou casos de morte associados ao seu uso; mas há casos de alergias e efeitos adversos. Consulte um médico se estiver preocupado consigo ou com um colega que também tenha usado a droga. Se alguém perder a consciência e não puder ser acordado, NÃO HESITE, LIGUE PARA O 190!

Uso recreativo

Mais de 165 milhões de pessoas no mundo usam a maconha (Burgierman, 2011). Considera-se que a maioria desses usuários faça uso recreativo da erva — apesar de um crescente número de especialistas defender a ideia de que todo uso é medicinal. Trata-se do uso da cannabis para relaxar ou se divertir. Assim como quem toma cerveja nos finais de semana, ou quem toma um café quando encontra os amigos, esse uso costuma ocorrer em torno de eventos sociais (mas não é limitado a essa ocasião). O uso recreativo pode se tornar compulsivo (diário) de tempos em tempos, mas não é necessariamente problemático — o uso problemático será explicado mais adiante em “dependência” e “grupos de risco”.

Os riscos do uso recreativo estão associados ao desenvolvimento cerebral do adolescente (conforme mencionado anteriormente), a danos pulmonares devido ao uso da maconha em conjunto com o tabaco, o uso da maconha em conjunto com outras drogas, problemas com a polícia e envolvimento com o crime, toxinas e adulterantes que podem estar presentes na cannabis.

Se descobrir que seu filho(a) faz uso regular da cannabis, mantenha a calma. Uma reação de pânico, punitiva ou de excessivo desapontamento pode afastar o jovem e tornar o seu uso de drogas ainda mais obscuro. Uma conversa sincera e madura pode elucidar as motivações para o uso da droga e até impressionar os pais; muitas vezes os filhos sabem mais sobre a droga do que os adultos. De qualquer forma, os conselhos para o uso experimental também servem para o usuário recreativo (apesar de que, nesse caso, o usuário experiente já deve ter consciência dessas questões). Aqui vão alguns conselhos para usuários regulares:

  • Não misture maconha e tabaco. Enquanto não há evidências de que a maconha cause câncer sozinha, ao ser utilizada em conjunto com o tabaco (mesmo que separadamente, em momentos diferentes) ela potencializa o risco de câncer pulmonar causado pelo cigarro.
  • Não prenda a fumaça tragada por muito tempo, a prática prejudica mais os pulmões sem aumentar o efeito da maconha.
  • Se possível, utilize um vaporizador.
  • Se possível, utilize a cannabis dentro de casa para não ter problemas com a polícia. Sim, pais e responsáveis, é preferível que o seu filho use drogas dentro de casa do que acabar sendo preso. Ainda mais se o seu filho for negro. Infelizmente, usuários negros são mais frequentemente presos e condenados por tráfico do que brancos.
  • Evite ao máximo andar com maconha no bolso, mochila, bolsa ou carro, mesmo em pequenas quantidades. Mais uma vez, esse ponto é especialmente importante para usuários negros. Não há um consenso estatístico para o Brasil, mas na Inglaterra, é oito vezes mais provável que um negro seja enquadrado.
  • Evite comprar a droga em lugares perigosos ou se envolver com o tráfico.
  • Evite maconha de proveniência duvidosa. Uma série de toxinas e adulterantes são encontrados no “prensado” do Paraguai. Amônia, fungos, mofo e pesticidas são apenas alguns exemplos.
  • Não consuma maconha em conjunto com o álcool, pois ela potencializa o seu efeito.
  • Não utilize a maconha em conjunto com medicamentos anticolinérgicos, barbitúricos, neurolépticos, simpatomiméticos (anfetamina e epinefrina) e Teofilina.
  • Não utilize a cannabis em conjunto com a cocaína, pois isso pode aumentar a taquicardia.

Uso medicinal

Mykayla iniciou o uso da cannabis aos 7 anos de idade para tratar leucemia.

O uso medicinal da cannabis pode ocorrer devido ao conhecimento prévio de que a erva pode aliviar a enfermidade em questão, ou de forma inconsciente, quando a motivação inicial é de experimentação ou recreativa, mas acaba aliviando alguma doença ou sintoma do usuário. Nesse caso, é importante haver um acompanhamento médico e uma ajuda para conhecer melhor o efeito dos canabinoides e seu teor em cepas diferentes de cannabis. Não é aconselhável o uso de maconha de proveniência duvidosa, já que adulterantes e toxinas podem piorar o quadro do paciente.

Esclerose múltipla, diabetes, epilepsia, Parkinson, efeitos colaterais da quimioterapia, enjoo, ansiedade, alguns tipos de câncer, AIDS, doença de Chron e fibromialgia são alguns exemplos de enfermidades que podem ser tratadas com cannabis.

É recomendável que menores de idade que fazem uso medicinal da cannabis não comentem sobre a prática com pessoas em geral, inclusive quando o jovem não é o usuário e sim os pais ou familiares. Há casos de crianças que comentaram na escola sobre o uso medicinal da mãe e o serviço social foi acionado, separando a família.

Para evitar problemas legais, é importante a obtenção de prescrição médica da cannabis e qualquer outra documentação, como a autorização de importação através da Anvisa e uma declaração do diagnóstico. Apesar das recentes autorizações do governo, sobretudo para crianças com doenças graves, muitos pacientes ainda têm problemas com a polícia.

Dependência

Pode ser difícil determinar quando o uso de uma substância se torna problemático. O manual Diagnóstico e Estatístico (apud Haney e Vandrey, 2010) oferece sete critérios para determinar se um usuário de qualquer substância sofre de dependência. Se o seu filho(a) apresentar ao menos 3 desses critérios dentro de um período de doze meses, há a possibilidade de dependência:

  1.  Desenvolver tolerância (necessidade de aumentar a dosagem para obter o efeito desejado);
  2. Sintomas de abstinência ocorrem quando o uso é interrompido (ou outras drogas são utilizadas para aliviar esses sintomas);
  3. A quantidade ou o tempo de uso ultrapassam a intenção do usuário;
  4. Usuário tem uma vontade persistente de consumir a droga, não consegue diminuir a quantidade consumida ou parar;
  5. Uma grande quantidade de tempo é gasta em atividades como o uso, obtenção e recuperação dos efeitos da droga;
  6. O uso da droga interfere em importantes atividades sociais, recreativas ou relacionadas ao trabalho.
  7. O uso da droga continua mesmo após o usuário notar que ela está causando ou piorando um problema de saúde.

Cerca de 9% dos usuários frequentes de cannabis se tornam viciados em algum momento de suas vidas (uma das porcentagens mais baixas em comparação a outras substâncias). Os sintomas de abstinência são leves, podendo o usuário apresentar: nervosismo ou agressividade, ansiedade, depressão, irritabilidade, inquietude, dificuldades para dormir, diminuição do apetite e perda de peso. Cerca de 30% dos usuários apresentam ao menos um desses sintomas ao interromper o uso. O período de abstinência pode durar até uma ou duas semanas.

A dependência em cannabis é melhor tratada com atendimento psicológico ou psiquiátrico ambulatorial e não com internação em clínica de reabilitação. Os usuários com tendência ao vício costumam sofrer de problemas psicológicos anteriores ao uso de drogas, como ansiedade e depressão. A dependência em drogas é mais comum em pessoas que sofreram algum tipo de trauma que não foi tratado de forma apropriada.

Uma aproximação — mas não de forma invasiva — faz-se necessária para compreender os reais motivos para a dependência dos filhos. É preciso evitar julgar e compreender que o jovem dependente precisa de um adulto para voltar a se sentir seguro e conseguir se livrar do vício.

A dependência só será tratada de forma eficaz se o que a causou inicialmente for tratado. Quando isso não acontece é comum o usuário trocar um vício por outro, migrando da cannabis para uma droga prescrita, por exemplo, como pode ocorrer em clínicas de reabilitação, por exemplo.

No caso de um usuário medicinal que se torna dependente, é preciso calcular entre os benefícios e os problemas que o usuário está enfrentando para decidir se o uso deve ou não ser continuado. Se a cannabis está prevenindo crises epilépticas, por exemplo, a dependência pode não ser um problema tão ruim quanto voltar a ter crises. Algumas pessoas aprendem a conviver com o uso frequente da cannabis sem que ele interfira demais em sua rotina.

Grupos de risco

Se enquadram nos grupos de risco pessoas que apresentam: pressão alta, sensibilidade excessiva aos efeitos da cannabis (apresentam paranoia, por exemplo), pessoas alérgicas (sintomas como vermelhidão podem ocorrer imediatamente ou horas após o uso, e nem sempre ocorrem nas primeiras vezes), pessoas com doenças cardíacas e pessoas com distúrbios psiquiátricos (como psicoses e depressão). Nesses casos, o uso da cannabis só deve ser feito com acompanhamento médico, pois há um risco maior para o usuário.

Referências e leituras complementares:

O Uso Medicinal da Canabis – Susan Witte

O Fim da Guerra – Denis Russo Burgierman
Teen Talk – A survival guide for parents
Drogas: Fizemos a guerra contra o inimigo errado
The Pot Book
All About Drugs and Young People – Julian Cohen
Kids and Cannabis – Malmo-Lavine