É hora de andar para frente

O Brasil está caducando. Basta qualquer olhadela rápida nos noticiários para constatar que tem muita coisa errada – inclusive e, em alguns casos principalmente, até o próprio noticiário. O Brasil até chega a andar para frente, mas curte mesmo é andar para trás. Como se, numa interpretação completamente equivocada do manguebeat de Chico Science, tivéssemos que nos inspirar no passo dos caranguejos das lamas do manguezal. Pelo contrário, ora bolas! A mente brilhante do músico e poeta pernambucano propunha exatamente o oposto: “um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar”. Insistem, porém, em descumprir tal precioso conselho – ou estão parados, ou andam para trás.

No debate sobre as drogas, o improvável chegou a acontecer em 2011. Conseguimos caminhar, mesmo com dificuldade, em direção a um modo mais racional e humano de entender a questão. Mas, ao mesmo tempo, os fatos mostraram que quando, porventura, damos um passo à frente, logo outros são dados para trás, numa espécie de penitência bizarra. Ao passo em que assistimos ao julgamento histórico do STF que finalmente atestou a legalidade das marchas da maconha, vimos a mesma Justiça, em diferentes estados brasileiros, execrar e infernizar famílias de pessoas de bem, ao colocarem na cadeia usuários e cultivadores, como no caso Sativa Lover e tantos outros. Pudemos ver também a liberdade religiosa ser ignorada após três sequenciais invasões à primeira igreja rastafari Niubingui Coptic de Sião do Brasil, depois que seu mantenedor e sacerdote Ras Geraldinho mostrou suas plantas e concedeu entrevista para uma edição histórica da revista Trip, inteiramente dedicada à maconha.

Vimos os filmes Cortina de Fumaça e Quebrando o Tabu serem lançados, repercutindo o tema de forma inédita e massiva, e ainda livros importantes engordarem as estantes da biblioteca canábica brasileira, como Fim da Guerra, do jornalista Denis Russo Burgierman, e Cannabis Medicinal – Introdução ao Cultivo Indoor, do antropólogo Sérgio Vidal. Vimos Mandacaru botando a cara e a blusa do Growroom na TV aberta, políticos, artistas e famosos se posicionarem a favor da legalização, sites canábicos e growshops se multiplicarem e, depois da repressão violenta à Marcha da Maconha em São Paulo e do julgamento do STF, as marchas da liberdade espalharem-se pelo país, com menos truculência e abuso de autoridade por parte da Polícia Militar.

Contudo, como em um passe de mágica macabro, assistimos o progresso descer ralo abaixo depois que a corporação interpretou, no fim do ano, seu segundo ato circense de ignorância e violência na capital paulista: o show da USP. Um episódio sofrível, com direito a mais porrada e autoritarismo, cobertura escandalosa e irresponsável da imprensa, distorções, falácias e preconceito, gozação em blogs babacas e redes sociais – e, claro, o retrocesso do debate.

O ano de 2012 chegou ainda no balanço da mesma onda. O STF novamente dá indícios de sua tendência progressista com relação ao entendimento sobre as penas para usuários de drogas, conferindo “repercussão geral” ao julgamento que decidirá se é constitucional ou não tipificar o uso de drogas como crime. A decisão futura terá de ser aplicada pelas instâncias inferiores em casos idênticos, exatamente como o que já aconteceu na Argentina e no Uruguai com relação tanto ao uso, quanto ao cultivo da erva. Basicamente uma legalização na gambiarra, subentendida somente por um dos três poderes.

Em contrapartida, assistimos com receio um início de ano com forte e familiar tendência fascista da polícia e dos governos. Vem à tona, novamente, o caso USP, que à época suscitou reações das mais desinformadas e reacionárias nas mesas de bar e na internet, ambiente em que, hoje, parece ser obrigatório emitir uma opinião ‘cabeça’ ou engraçadinha sobre tudo, na mesma hora em que a primeira notícia sai, independente de se ter ou não conhecimento do assunto. Quando a prisão agressiva de estudantes que fumavam maconha no campus aqueceu a revolta dos alunos do movimento estudantil, que resolveu ocupar a reitoria por motivos totalmente além-maconha, muita gente se perdeu e falou bobagem por aí.

O senso comum virou “nossa, a galera filhinha de papai tá pedindo pra fumar maconha na USP” e as piadinhas e comentários imbecis se espalharam como um vírus pela web. Agora, a PM mostra, finalmente, qual sua real função dentro do campus. Exibe a comprovação de que faz todo o sentido a reivindicação dos estudantes pelo fim da parceria entre a USP e a corporação. Dá um novo show, com um policial pançudo mostrando todo seu despreparo não só físico como principalmente moral e psicológico. Um vídeo-evidência de racismo e abuso de autoridade dentro da Polícia Militar. O oficial entrega de bandeja a vergonha alheia à turma que outrora bateu no peito que o bacana era “meter o cacete nos maconheiros”. Dessa vez, nem a grande imprensa conseguiu ignorar e o rapaz mostrou na televisão e nos jornais sua revolta, seus dreads e sua tão requisitada carteirinha de estudante. Claro; agora com muito menos repercussão e debates acalorados. Incrível prova de que quem tem, mesmo, a memória curta são os caretas de plantão.

Ainda em Sampa, outra atração sensacionalista da Globo, do governo e da PM, aos moldes da desocupação do Complexo do Alemão, tomou as televisões brasileiras, mostrando uma enxurrada de viciados em crack correndo da polícia “como ratos”, forma criminosa como a emissora se referiu aos dependentes que fugiam da ação policial na cracolândia de São Paulo. Uma operação completamente higienista, desumana e ineficaz, em que nem os próprios policiais se sentiram à vontade para cumprir. Um sem-número de desesperados, correndo pelas ruas da Luz, desviando de balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo, ocupando as praças e arredores da região e lutando por sua já despedaçada existência.

Se a primeira parte da operação assusta, olhos atentos, pois, à segunda fase, que propõe a internação compulsória de dependentes. Como bem afirmou o delegado da Polícia Civil do Rio e defensor da legalização, Orlando Zaconne, há casos em que o controle através da medicina pode ser bem mais cruel que pelo direito penal. Já vimos uma vibe nostálgica da ditadura rolando na segurança pública, por que não uma volta à banalização manicomial na saúde? O papo de uma descriminalização restrita, em que qualquer usuário é tratado como doente, se generalizado, pode abrir portas para punições mais danosas aos consumidores de drogas até que o próprio xadrez.

No remelexo dos acontecimentos positivos e negativos, deve ser dado o devido destaque ao aumento do número de simpatizantes pela legalização da maconha e à disseminação de informação crítica e de novos questionamentos. As pessoas, enfim, parecem despertar do letárgico comodismo. O ativismo canábico vive um momento importante, de impulso e de crescimento, e não pode, nem vai, deixar a peteca cair. Muito se falou que 2012 será o ano dos protestos e da contestação política – pois que assim seja.

Que as marchas, que já começam a ser marcadas, relembrem os avanços do ano passado e mostrem, com seriedade e inteligência, a urgência de uma nova lei de drogas. Que saiam todos às ruas, sem medo de mostrar a cara, de se afirmar usuário, de aparecer na televisão. Que levem as mães, os filhos, as esposas, os maridos, os amigos, o cachorro, o gato e o papagaio. Mostremos ao STF que prisão não é lugar para quem fuma ou planta sua própria planta. Que não pedimos mais tolerância, exigimos respeito. Que, agora, o tempo de andar para trás acabou.

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