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A Descriminalização Do “usuário” Vai Impedir A Explosão Das Prisões?

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A descriminalização do “usuário” vai impedir a explosão das prisões?

Não, pelo seguinte: continua o problema da distinção entre “usuário” e “traficante”. Em 2006 o legislador brasileiro tomou a decisão (Lei 11.343/06) de implantar uma política diferenciada para o “usuário de drogas”, quem porta drogas para uso pessoal. Teoricamente separou o “traficante” do “usuário”. Para o primeiro agravou as penas carcerárias; para o segundo eliminou a pena de prisão. Isso se chama despenalização (o fato continuou sendo crime, mas sem a pena de prisão).

Pretendia-se (discursivamente) evitar a explosão das prisões. Para isso a lei chegou a prever pena diminuída para “pequenos traficantes”. Mas não ofereceu critérios objetivos para se distinguir as três categorias: (a) “usuário”, “pequeno traficante” e “grande traficante”.

Considerando que os critérios distintivos entre “usuário”, “pequeno traficante” e “traficante contumaz” são subjetivos ou valorativos (natureza da droga, quantidade, local da prisão, condições do agente etc.), tudo ficou por conta da praxis (com grande margem de arbítrio ou de discricionariedade aos aplicadores da lei).

O propósito declarado (prisões somente quando necessárias) resultou frustrado. Houve aumento de 309% nessa população carcerária (de 2007 a 2014). Hoje 27% do sistema é de “traficantes”. São quase 180 mil presos (a um custo mensal per capita de R$ 2 mil). Bilhões são gastos com eles anualmente. Como bilhões de dólares gastaram os EUA com sua política repressiva (sem dar solução para o problema). Agora eles estão mudando (5 Estados já legalizaram a maconha; 21 para fins medicinais).

A teoria, na prática, como se vê, é outra coisa. As massas de todas as classes sociais demonizam todos os envolvidos com drogas. Seguem a política de demonização pregada pelos EUA desde as décadas de 60/70 (Nixon, em 1971, declarou “guerra às drogas”). Não se pode ignorar a força política das massas nas oclocracias (mesmo que porventura sustentem teses irracionais, algumas vezes). Dos aplicadores da lei, 60% dos juízes são a favor da criminalização (crime, em regra, com pena de prisão - Estadão 21/8/15: A16).

Na prática, sobretudo se se trata de réu jovem, negro ou pardo, pobre, não proprietário de bens nem de “status” e, de sobra, desempregado e fora da escola, a grande maioria acaba caindo na vala comum (traficante). Muitos presos, embora primários, trabalhadores e portadores de quantidades não expressivas de drogas, passaram a ser enquadrados como “traficantes”.

Se se repetir o que ocorreu a partir de 2006 (quando veio a nova Lei de Drogas – 11.343/06), é evidente que a descriminalização do “usuário” sustentada pelo min. Gilmar Mendes (STF, RE 635.659-SP) não vai evitar o aumento da explosão carcerária. Claro, até que se chegue o dia da “implosão” do total do sistema completamente falido.

Com base no Estado de Direito vigente (princípios e regras previstos nas leis, Constituição e tratados internacionais) o min. Gilmar Mendes votou pela inconstitucionalidade do art. 28 da Lei de Drogas (Lei 11.343/06). Mas isso não significa legalização das drogas (como fez o Uruguai e 5 Estados dos EUA).

Ocorre que o Estado de Direito não se confunde com o Poder Punitivo Estatal nem tampouco com o Estado Policialesco. Há muita distância entre o que está programado pelas normas do Estado de Direito e o que acontece na prática por força do Estado Policialesco (que significa a aplicação desproporcional ou desarrazoada do direito vigente). Não existe Estado de Direito puro (Zaffaroni). Todos são perturbados pelos Estados Policialescos.

Ambos, no entanto, são regidos por “constituições” completamente distintas. O Estado de Direito segue a Constituição de 1988 (foi com base nela que o ministro Gilmar Mendes descriminalizou o porte de drogas para uso pessoal). O Estado Policialesco, por seu turno, está ancorado no Malleus Maleficarum, elaborado em 1497 por dois padres (Krämer e Sprenger), que é o código (manual) central da Inquisição. A forma mentis inquisitiva nunca morreu. No exercício do Poder Punitivo Estatal frequentemente se pratica abusos, excessos, desproporcionalidades (todos são reconduzíveis à letra ou ao espírito do Malleus Maleficarum).

* Jurista e presidente do Instituto Avante Brasil

Editado por CanhamoMAN

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      "Desse modo, antes de oferecida uma queixa-crime (pelo particular) ou denúncia (pelo Ministério Público), é garantido ao suposto infrator a oportunidade de lhe ser aplicada de imediato pena não privativa de liberdade (art. 72 e 76, Lei n. 9.099/95), o que lhe livra de responder a uma ação penal e, sem admitir culpa, cumpre penas alternativas, tais como prestação de serviços à comunidade, pagamento de determinado valor para instituição de caridade, entre outras. Assim, a transação penal tem o objetivo de desburocratizar o processo penal; fazer com que a justiça criminal seja mais célere; evitar que o suposto infrator enfrente um processo criminal que poderá culminar com uma condenação, com todas as consequências negativas que uma condenação criminal pode trazer a um indivíduo, como gerar maus antecedentes e reincidência, suspensão dos direitos políticos pelo prazo de cumprimento da pena; etc. No ponto, importante salientar que a aceitação da transação penal não é reconhecimento de culpa pelo suposto infrator. É, em verdade, uma forma de “acordo” em que ele opta por não enfrentar um processo criminal para não correr o risco de sair condenado ao final, se considerado culpado; ou se, mesmo que em seu íntimo saiba que não é culpado, simplesmente para não passar pelas agruras do processo criminal. De qualquer forma, sempre o suposto infrator estará acompanhado de advogado, seja particular, defensor público ou, onde não tiver este, de advogado dativo nomeado pelo juiz. O importante é que ele seja esclarecido das vantagens e desvantagens da aceitação ou não da transação penal. Se de um lado é assim, de outro, uma vez aceita a transação penal, o beneficiário (suposto infrator) não vai poder desfrutar novamente dos benefícios desse instituto pelo prazo de cinco anos" Bom, espero ter ajudado de alguma forma os amigos que estejam passando por essa situação ou conheçam pessoa que esteja passando por esse dilema, fico a disposição para tentar ajudar em algum caso, não sei muito mas no que puder auxiliar estamos ai, obrigado! 
    • Por Bisto
      Boa tarde galera, não sou muito de postar aqui no fórum mas estou sempre dando uma olhada, portanto, peço desculpas desde logo se estou postando no lugar errado. 
      Eu estou para de formar no curso de Direito (estou no 9º período) e a minha monografia (TCC) é sobre a descriminalização das drogas e como o Estado falha ao tratar tal assunto por meio da seara penal/criminal. Dei uma lida em outros tópicos, como por exemplo aquele que está tratando do novo Projeto de Lei para a legalização, porém optei por criar um tópico novo para tratar melhor do assunto.
      No trabalho eu tenho como objetivo tratar de assuntos como a possível resolução da superlotação dos presídios por detentos que foram julgados pelo crime de tráfico, onde a conduta realizada caracterizaria usuário; a grande demanda processual para discutir casos que, em âmbito penal, eventualmente pode ser revestido pelo princípio da insignificância; o problema da ressocialização dos presos após cumprimento da pena etc. Posteriormente, quero tratar sobre a legalização com enfoque na maconha, visando a regulamentação, controle de qualidade, redução de danos, a questão socioeconômica, a guerra às drogas, tirar o monopólio do tráfico com a regularização do Estado etc...
      A questão é que o Estado trata o assunto de uma forma incoerente por meio do sistema penal. O uso da droga em si não gera efeito em terceiros a ponto de o Estado, por meio do controle punitivo, de certa forma se intrometer na escolha pessoal de um indivíduo. Vejamos que não é crime a auto-lesão ou a tentativa de suicídio, ou seja, o que o indivíduo faz consigo próprio, sem atingir diretamente terceiros, não justifica a repressão penal. Entretanto, um indivíduo que consome drogas pode estar prejudicando sua saúde, e mesmo que isso seja de forma individual, a saúde de quem vive em sociedade faz parte da saúde pública (o que terei que tratar no meu trabalho também).
      Há pensamentos (antigos e retrógrados) que afirmam que o uso da maconha está interligado com a prática de crimes. Não há dúvidas de que há condutas que caracterizam crimes que são praticadas por alguém quando chapado, entretanto, acredito que isso seja da índole da pessoa, e não que haja estímulo depois de dar 1dois num baseado..
      Ainda, mesmo que eventualmente, eu quero tratar sobre a visão da sociedade e do Estado frente à legalização - a reprovação moral além da punitiva que o proibicionismo causa.
       
      Resumidamente é isso, ainda tenho que montar o sumário, entregar o primeiro capítulo até dia 15 de novembro - que inclusive estou atrasado pois, infelizmente, é o meu jeito de fazer os trabalhos acadêmicos (coisa que preciso mudar para a monografia).
      O que realmente eu quero aqui é instigar a discussão do assunto, apontando os benefícios e malefícios da descriminalização (de todas as drogas) e legalização (da maconha).
       
      É isso ae galera, peço desculpas novamente caso o tópico esteja numa área errada e peço também, caso alguém tenha, que me indique livros, artigos ou até mesmo trabalhos acerca do tema, pois vou precisar...
      Valeu, fico no aguardo de respostas.
       
       
    • Por richnv
      Queria saber se o estado faz exames toxicológicos periódicos em funcionários públicos de minas gerais.
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