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  • Conteúdo Similar

    • Por Edu.jpg420
      Salve rapaziada
      Eu tenho essa dúvida a tempos e nunca parei pra pesquisar sobre, mas gostaria de saber a opinião dos maconheiros.
      Eu não sei com vocês, mas comigo sim, pq a gente fuma com algumas pessoas e ficamos normais, E outras parece que 3 tragos são 3 puxadas num bong do snoop dog? Fumo com algumas pessoas e praticamente.nem me sinto chapado, apesar de gostar mais de fumar sozinho, tem pessoas que fumo pouco até e já fico doidão, risonho, tipo pira do primeiro beck. Pq isso acontece? 
    • Por Shortlived
      1. NOMENCLATURA
      A definição biológica de uma espécie afirma que todos os espécimes de uma população são de uma única espécie se eles são naturalmente capazes de se reproduzir sexualmente, gerando descendentes férteis. Seguindo essa definição a Cannabis é monotípica. Porém, devido a alta variação da espécie, alguns cientistas preferem definir a Cannabis de acordo com características morfológicas, tipológicas, fitoquímicas, ou geográficas.
      Exemplos Taxonômicos
      Cannabis L. - Gênero
      Cannabis sativa L. - Espécie
      Cannabis sativa ssp. indica - Subespécie
      Cannabis sativa ssp. indica var. kafiristanica - Variedade
      Cannabis sativa ssp. indica f. Acapulco Gold - Landrace
      Cannabis sativa ssp. indica "Skunk #1" - Cultivada
       
      2. BIÓTIPO
      As variedades cultivadas não são encontradas na natureza como subespécies reconhecidas. A denominação de sativa e indica pelos breeders (produtores de sementes) geralmente refletem características morfológicas da variedade. Isso faz com que o biótipo de drogas de folhas finas (Cannabis sativa ssp. indica biótipo sativa) seja geralmente confundido com a subespécie sativa (Cannabis sativa ssp. sativa).
      Sativa (Cannabis sativa ssp. indica biótipo sativa)
      Plantas altas, com entrenós médios a longos, ramos bem desenvolvidos, folhas verde médias a grandes, inflorescências longas e grandes, e sementes de tamanho médio. Seu maior tempo de maturação se deve a uma menor quantidade de clorofila na planta, que por sua vez está diretamente ligada a uma maior quantidade de pigmentos acessoriais que protegem a planta de luz solar excessiva. Sativas, sendo originalmente equatoriais, tem folhas menores, o que pode ser adaptativo para coisas como o bolor em um ambiente úmido.
      Indica (Cannabis sativa ssp. indica biótipo indica)
      Plantas de baixa a média altura, com entrenós curtos, ramos bem desenvolvidos, folhas verde escura grandes, inflorescências grandes, e sementes de tamanho médio a grande. Uma vez que são originalmente de regiões temperadas mais frias, suas folhas mais largas permitem a captura máxima de luz durante a estação de crescimento mais curta. Esse biótipo evoluíu em isolamento dentro das montanhas do Hindu Kush, Pamir, e Himalaia ocidental.
       
      3. GENÓTIPO VS. FENÓTIPO
      Um organismo típico assemelha-se mais a seus pais do que a indivíduos não aparentados. Assim, frequentemente dizemos que as características individuais são herdadas: "Ele herdou a inteligência do pai", ou "Ele herdou esquizofrenia da mãe". No entanto, tais declarações são imprecisas. Inteligência e esquizofrenia se desenvolvem através de longas sequências de eventos nas histórias de vida das pessoas afetadas, e ambos os genes e o ambiente desempenham papéis nessas sequências. Indivíduos herdam seus genes, e não os produtos finais de suas histórias de desenvolvimento individuais. Para evitar tal confusão entre genes (que são herdados) e os resultados do desenvolvimento (que não são), geneticistas estabelecem a distinção fundamental entre o genótipo e o fenótipo de um organismo. Organismos têm o mesmo genótipo em comum se eles têm o mesmo conjunto de genes. Organismos têm o mesmo fenótipo se eles aparentam ou funcionam da mesma forma.
      O genótipo descreve o conjunto completo de genes herdados por um indivíduo, e o fenótipo descreve todos os aspectos da morfologia, fisiologia, comportamento, e das relações ecológicas do indivíduo. Nesse sentido, dois indivíduos nunca pertencem ao mesmo fenótipo, porque há sempre alguma diferença, embora ligeira, morfológica ou fisiológica entre eles. Além disso, exceto os indivíduos produzidos a partir de um outro organismo por reprodução assexuada, quaisquer dois organismos diferem, pelo menos um pouco, no genótipo.
      Na prática, usamos os termos genótipo e fenótipo em um sentido mais restrito. Nós lidamos com algumas descrições parciais fenotípicas (p. ex. a cor dos olhos) e com alguns subconjuntos do genótipo (p. ex. os genes que afetam a pigmentação dos olhos). O genótipo é essencialmente um personagem fixo de um organismo individual; o genótipo permanece constante durante toda a vida e é essencialmente inalterado por efeitos ambientais. A maioria dos fenótipos mudam continuamente ao longo da vida de um organismo conforme seus genes interagem com uma sequência de ambientes. Imutabilidade do genótipo não implica imutabilidade do fenótipo. Um único genótipo pode produzir diferentes fenótipos, dependendo do ambiente no qual os organismos se desenvolvem. O mesmo fenótipo pode ser produzido por diferentes genótipos, dependendo do ambiente.
      Genótipo - É o que está nos genes. Traços recessivos podem esconder-se por trás de traços dominantes e aparecer em gerações futuras.
      Fenótipo - Genótipo + Ambiente = Fenótipo
      O genótipo de uma semente de Cannabis reflete o seu potencial genético. No entanto, o genótipo dessa semente é influenciado por fatores internos e externos em seu ambiente que podem limitar o seu potencial (p. ex. maturidade, comprimento do dia, temperatura ambiente, umidade, disponibilidade de nutrientes, intensidade de luz, intensidade de luz ultravioleta, qualidade de luz). Teor máximo de THC, CBD, outros fitocanabinoides e terpenos pode, e geralmente é, altamente variável até mesmo para uma mesma variedade estável. Essas variações geralmente refletem o resultado das condições de cultivo. Divergências no ciclo de crescimento e na forma de cultivo também podem causar diferenças quantitativas, embora menor em termos absolutos, no perfil químico da planta. Plasticidade fenotípica reflete "a capacidade de genótipos individuais para alterar o seu crescimento e desenvolvimento em resposta a mudanças nos fatores ambientais". Naturalmente, a capacidade da Cannabis de mudar geneticamente como um resultado de hibridação e seleção não deve ser confundida com o conceito de plasticidade fenotípica.
       
      4. SELEÇÃO NATURAL VS. SELEÇÃO ARTIFICIAL 
      Desde a origem da vida, seleção natural vem constantemente agindo para produzir a atual diversidade de organismos vivos na Terra. Devido à seleção natural, todas as espécies se adaptaram mais ou menos a suas próprias condições locais. Culturas agrícolas também se adaptaram a seus próprios nichos, mas nesse caso a adaptação foi dirigida por seleção artificial imposta por seres humanos. A principal diferença entre seleção natural e artificial é que seleção natural atua sobre fenótipos de características relacionadas à aptidão do organismo, enquanto seleção artificial é baseada em fenótipos específicos de importância agronômica. 
      Mutação é a fonte de toda variação genética. Novas mutações são submetidas a seleção natural, e, no caso de plantas de cultura, elas são também frequentemente submetidas a seleção humana adicional. Para um dado gene, mutações são acontecimentos raros, mas considerando o grande número de plantas em um campo e de genes em uma planta, mutações são acontecimentos bastante frequentes na população. A maioria das mutações não são favoráveis para a sobrevivência na natureza, sendo eliminadas da população em poucas gerações como consequência da seleção natural. No entanto, algumas dessas mutações podem resultar em fenótipos mais favoráveis em termos de cultivo ou em termos de qualidade. A evolução de plantas depende de mutações espontâneas do genoma, potencialmente resultando em novos traços fixos pela seleção natural. "Melhoramento de plantas" também depende de variabilidade genética natural, mas, além disso, breeders têm aumentado essa variabilidade utilizando mutagênese aleatória. 
      Cultivo e seleção humana favorecem indivíduos geneticamente únicos (com características raras), protegendo-os de ambientes naturais hostis que tendem a frequentemente eliminá-los através de seleção natural em favor de um fenótipo mediano. Seres humanos reconhecem traços raros quando eles são de vantagem aparente etnobotânicamente, e através de seleção artificial dão refúgio aos genes que determinam tais traços, proporcionando a eles uma chance ainda melhor de serem transmitidos ao longo de gerações posteriores com maior frequência. Seres humanos não inventam mutações benéficas, nós simplesmente selecionamos mutações que ocorrem naturalmente que são atrativas para diversos fins, e tentamos recombiná-las com outras características benéficas até que elas sejam expressas regularmente. A mutação do gene da sintase de canabinoides dando origem ao alelo BT, permitindo a biossíntese de THC, foi o passo evolutivo primário levando a variedades de Cannabis para a produção drogas. A mutação sobreviveu, e os descendentes subsequentes perpetuaram essa capacidade biossintética única.
      Reprodução de plantas descreve métodos para a criação, seleção, e fixação de fenótipos de plantas superiores no desenvolvimento de cultivares melhorados adaptados às necessidades dos agricultores e consumidores. Conceitualmente, reprodução de plantas é simples: cruze os melhores pais, e identifique e recupere descendentes que superem os pais. O processo atualmente seguido na produção indoor (em interiores; "dentro de casa") de Cannabis é bastante semelhante. Cruzamento de pais para produzir sementes geneticamente diversas, que são transportadas para novos ambientes, semeadas e cultivadas, com apenas algumas plantas femininas selecionadas reproduzidas assexuadamente através de clones, fixando assim os traços selecionados, não permitindo nenhuma evolução adicional.
      Autofecundação é o meio de reprodução sexual mais eficaz na fixação de características desejáveis uma vez que genes selecionados são mais prováveis de estarem representados em ambos pólen masculino e óvulo feminino se eles vêm da mesma planta. Na reprodução da Cannabis, os genes que controlam um traço selecionado devem estar presentes em dois indivíduos separados; um macho e uma fêmea. Plantas femininas fornecem a maioria dos produtos economicamente preciosos da Cannabis, incluindo fibras, sementes, ou drogas, enquanto que as plantas masculinas meramente fertilizam as fêmeas, e podem produzir fibras de alta qualidade. Isso faz com que seja difícil identificar traços potencialmente favoráveis em um progenitor masculino uma vez que essas características devem ultimamente ser expressas na sua prole feminina. 
      Em uma espécie de fertilização cruzada como a Cannabis, é muito mais provável que uma mutação dominante vá ser expressa do que uma mutação recessiva; por outro lado, uma mutação recessiva é muito mais provável de se tornar fixa em uma população endogâmica de plantas auto-fertilizantes. Mesmo se uma mutação recessiva desejável for expressa como um homozigoto (uma característica expressa por dois alelos idênticos), e depois reconhecida como desejável pelo agricultor e, portanto, salva como a mãe para a geração de sementes seguinte, é mais provável que a planta mutante recessiva seja fertilizada aleatoriamente pelo pólen não selecionado do pai levando o alelo dominante não mutante. Portanto, a mutação provavelmente não apareceria na geração seguinte de heterozigotos. Uma mutação dominante em uma espécie de fertilização cruzada irá produzir prole dos quais pelo menos metade será heterozigótica (um traço expresso por dois alelos diferentes), mas que irá exibir a mutação. Seleções adicionais nas gerações subsequentes aumentam rapidamente a prevalência do alelo mutante dominante.
      A variabilidade molecular em plantas domesticadas tende a ser menor do que em espécies selvagens relacionadas como consequência do efeito fundador (populações provenientes de um pequeno número de indivíduos tendem a diferir significativamente da população da qual esses indivíduos originaram devido a erros de amostragem de alelos) durante a domesticação. Um fenótipo único é mais provável de ser notado em uma população pequena, e se for considerado favorável, o seu genótipo é muito mais provável de ser reproduzido e passado para a próxima geração. Populações de tamanho pequeno e efeito fundador recorrentes são provavelmente responsáveis pela proliferação radical de fenótipos divergentes encontrados atualmente na Cannabis utilizada para a produção drogas. 
       
      5. HÍBRIDOS
      Uma planta híbrida é criada quando os breeders (produtores de sementes) intencionalmente polinizam duas variedades diferentes com o objetivo de produzir uma prole que contenha as melhores características de cada um dos pais. Essas plantas recém criadas são chamadas de F1 (primeira geração filial). Se essa F1 é retrocruzada com a mãe, então sua prole será F2. F2 pode ser também o cruzamento entre irmãos e irmãs F1. Normalmente F6 implica o retrocruzamento da variedade por 6 gerações afim de reforçar as propriedades e características da planta mãe. A cada geração a taxa de heterozigose diminui em 50%. Quando os indivíduos de uma variedade em particular passam a ser quase idênticos uns aos outros em genótipo devido a endogamia a longo prazo, a variedade passa a ser considerada de linhagem pura (inbred line; IBL). No entanto, apesar dessas variedades serem consideradas estáveis, nem mesmo uma F20 é de fato estável. Essas variações se devem aos fenótipos da planta.
      Vigor Híbrido (heterose): Quando um híbrido é visto como superior ao seus pais, ele é chamado de vigor híbrido. Contudo, isso só acontece com o cruzamento de duas diferentes plantas estáveis (homozigotos; IBL) e só se aplica para a primeira geração de sementes (F1). Heterose é a superioridade dos indivíduos híbridos em comparação com indivíduos inbred. Dentro de certos limites, quanto mais divergente são os pais, maior é a heterose na sua prole. Heterose declina rapidamente através de gerações de endogamia, indicando que, qualquer que seja o mecanismo subjacente a heterose, é devido à presença de loci heterozigotos.
      Depressão por Endogamia: Quando uma população é pequena ou pura (inbred line; IBL), ela tende a perder diversidade genética. Depressão por endogamia é a perda da aptidão devido à perda de diversidade genética. Endogamia aumenta a frequência de homozigotos (ambos dominantes e recessivos), o que facilita a expressão de traços vantajosos, assim como de traços deletérios recessivos, e fornece uma ampla gama de novas mutações para seleção. No entanto, depressão endogâmica resultando de endogamia repetida faz com que os descendentes acumulem e expressem mutações recessivas deletérias (ou um traço que é indesejável do ponto de vista do breeder), resultando em redução da fertilidade e das taxas de sobrevivência. Endogamia reduz o vigor em plantas através da diminuição da proporção de loci heterozigotos. 
      Autoflorescente: São genótipos que são indiferentes a duração do dia, florindo quando as plantas atingem uma certa idade ou tamanho. Plantas autoflorescentes podem ser cultivadas em luz contínua visto que períodos de escuridão não são necessários para induzir sua floração. Afirma-se na literatura subterrânea que linhagens autoflorescentes foram geradas através da hibridização de plantas fotoperiodicamente adaptadas para curtas e longas temporadas. 
      Feminilizada: São variedades obtidas por intermédio da polinização de plantas fêmeas de linhagens dioicas (unissexuais) com o pólen de plantas monoicas (com ambos os sexos produzidos em uma planta). Variedades feminilizadas produzem predominantemente plantas fêmeas, mas geralmente também produzem algumas plantas hermafroditas e, ocasionalmente, plantas do sexo masculino.
      Plantas domesticadas podem diferir de seus progenitores selvagens tanto qualitativa como quantitativamente. Diferenças morfológicas são mais frequentemente qualitativas, uma vez que envolvem alterações anatômicas frequentemente controladas por apenas um ou poucos genes e são herdadas por mecanismos genéticos relativamente simples. Alterações fisiológicas possuem mais frequentemente um efeito quantitativo, como maior vigor e produtividade, ou variações na quantidade de metabolitos secundários. Alterações fisiológicas são geralmente controladas por um grupo de genes e, consequentemente, a sua herança é muitas vezes complexa. Híbridos entre variedades variando em uma característica quantitativa apresentam geralmente valores intermediários entre os dois pais. No entanto, heterose muitas vezes mascara o efeito da mistura e híbridos podem expressar características quantitativas em níveis mais elevados do que qualquer um dos pais. 
      Para criar uma nova variedade, o breeder cruza duas plantas de interesse, por exemplo, uma planta altamente ramificada e uma planta rica em CBD. Em alguns casos, esse híbridos F1 vão criar fenótipos desejáveis únicos (heterose). No entanto, mais frequentemente, os traços vão agir de forma aditiva, e assim podemos esperar que os híbridos F1 serão de ramificação média e produção de CBD também média. Se o breeder cruzar essas F1s entre si, a geração F2 terá muitos fenótipos diferentes. No nosso exemplo, 25% das plantas serão altamente ramificadas, e 25% das plantas serão ricas em CBD. Agora, as chances de uma planta ser altamente ramificada e ao mesmo tempo rica em CBD é de 6.25% (25% de 25%). Exemplos de características desejadas incluem, mas não estão limitadas, a aquelas que resultam em um aumento da produção de biomassa, produção de produtos químicos específicos, resistência a pragas, vigor, tempo de desenvolvimento, sabores, cores, e tolerância ao frio, calor, seca. 
      Procedimentos para estabilizar variedades de Cannabis são mal compreendidos, mesmo por criadores que produzem variedades comerciais. Estabilidade refere-se à variabilidade e previsibilidade encontrada na prole de uma geração: quando uma variedade é instável, a variabilidade será alta e a previsibilidade baixa; com uma variedade estável, o inverso é verdadeiro. Variabilidade refere-se à gama de diferentes fenótipos expressos nos descentes de duas plantas hibridizadas. Se a mãe e o pai são ambos de variedades estáveis, eles geralmente irão produzir descendentes homozigoto previsíveis. Desconsiderando mutações genéticas, um híbrido de duas variedades estáveis produz três fenótipos distintos: fenótipo A, favorecendo as características da mãe; fenótipo B, favorecendo as características do pai; e fenótipo C, que é uma mistura igual dos dois pais. No entanto, se um dos pais, ou ambos, é instável, seu cruzamento produz uma gama de descendentes heterozigotos que podem expressar qualquer número de traços imprevisíveis, e que não correspondam a proporções mendelianas previsíveis. 
      Com várias gerações de cruzamento de irmãos e irmãs dos mesmos pais, selecionando com base nos traços desejáveis, um maior grau de consistência e, portanto, previsibilidade pode ser alcançado. Características desejadas tornam-se dominantes e sempre vão aparecer, enquanto traços indesejáveis são gradualmente eliminados do fundo genético e não mais expressos. Para algumas características, o retrocruzamento de plantas com a geração anterior permite que traços se estabilizem mais rapidamente. Muitos breeders erroneamente acreditam que um certo grau de retrocruzamento é necessário para estabilizar uma variedade, mas na realidade essa técnica só é necessária para certas características. Depois de cruzar, e possivelmente retrocruzar por algumas gerações, as características desejadas começam a ser expressas em todos os indivíduos. No entanto, depois de muitas gerações essencialmente limitando e reduzindo o fundo de genes de modo que somente as características únicas desejadas sejam expressas, a escassez resultante do material genético pode levar a um nível de endogamia que é prejudicial para a saúde global e sustentabilidade da variedade.
      Por essa razão, quando variedades começam a sofrer depressão endogâmica, é comum introduzir um novo pai sem parentesco em um processo conhecido como exogamia. Heterose surge de interações alélicas entre genomas parentais, levando a programação alterada de genes que promovem o crescimento, tolerância ao estresse, e aptidão de híbridos. Por exemplo, modificações epigenéticas de genes reguladores fundamentais em híbridos pode alterar complexas redes reguladoras da fisiologia e do metabolismo, modulando assim biomassa e levando a heterose. Pais inbred contém alelos inferiores ou deletérios em vários loci que inibem um bom desempenho geral, enquanto nos híbridos esses alelos inferiores em um dos pais são complementados pelos alelos superiores ou dominantes do outro progenitor. Como resultado, os híbridos têm um desempenho global melhor do que os pais. Esse modelo baseia-se nos aspectos dominante (tipo selvagem) e recessivo (mutante) de desempenho do traço, e complementação genética é provável que ocorra na combinação de alelos dos respectivos pais.
      Apesar de não existir diferença quanto a designação da geração filial (F1, F2...) entre diferentes métodos de reprodução, breeders geralmente utilizam diferentes acrônimos para manter o controle das gerações; p. ex. S1, S2 (autopolinização), BXI, BXII (retrocruzamento).
       
      6. LANDRACES
      São variedades que crescem de sementes que não foram sistematicamente selecionadas para comercialização ou desenvolvidas por reprodutores de sementes, e que se adaptou naturalmente às condições e ao local de onde se origina (seleção natural favorece traços de utilidade que maximizam a aptidão dentro de um ambiente local). São compostas de uma mistura heterogênea de genótipos, com características suficiente em comum para permitir o seu reconhecimento como um grupo.
      Landraces são moldadas por um equilíbrio entre seleção estabilizadora, que mantém a identidade da variedade local em uma determinada região, e seleção direcional moderada, levando a ajustes lentos às mudanças ambientais. Em alguns casos, mudanças rápidas podem acontecer, especialmente quando a landrace é levada a uma região diferente, ou quando novos materiais são cultivados em estreita proximidade com a landrace original. O desenvolvimento de uma variedade landrace (local) também pode envolver um pouco de seleção por seres humanos, mas ele difere de uma variedade formal que foi seletivamente criada para conformar com um determinado padrão de traços.
      Landraces podem derivar de cultivares modernos se a produção de sementes certificadas for interrompida e as sementes guardadas de suas colheitas plantadas de forma recorrente, sem cuidados para isolamento contra a contaminação das sementes ou pólen. Tal como acontece com muitos outros cultivos (e animais domesticados), as mutações selecionadas por seres humanos são normalmente vantajosas para os seres humanos, mas desvantajosas para as plantas, e a menos que seleção estabilizadora seja praticada, seleção natural pode resultar em degeneração ou reversão (atavismo) do genoma, com características selvagens aparecendo nas plantas cultivadas. 
      Devido a sua riqueza na variabilidade genética e adaptabilidade a diferentes ambientes, landraces são os recursos genéticos mais valiosos aos breeders a longo prazo. O método mais antigo de reprodução de plantas com base em um conhecimento elementar das leis da hereditariedade é a seleção de plantas dentro de landraces, com base no pressuposto de que os descendentes dos melhores indivíduos serão superiores aos descendentes de uma amostra aleatória da população. Mas apesar da grande diversidade espontânea que pode ser encontrada em landraces, simplesmente aplicar seleção sobre a diversidade pré existente é um processo desgastante que eventualmente chega a um limite. O verdadeiro poder criativo da reprodução de plantas reside na promoção da recombinação para misturar alelos favoráveis. A combinação de diferentes alelos em muitos loci resulta em um número virtualmente infinito de genótipos.
      Segue um resumo histórico das principais landraces utilizadas na criação das variedades comercializadas hoje em dia.
      México: Na década de 1530, um dos espanhóis liderados por Hernán Cortés colocou seus trabalhadores indígenas para plantar cânhamo espanhol nas montanhas ao redor da Cidade do México. Embora a produção de cânhamo comercial não tenha tido muito sucesso no México colonial, os povos indígenas continuaram a cultivar a planta para algo diferente do que produzir fibra. Por volta de 1770, um padre do planalto central com o nome de José Ramirez aprendeu que os povos indígenas, não muito longe da Cidade do México, estavam consumindo preparações que eles chamavam de pipiltzintzintlis, confecções que lhes davam acesso ao mundo dos espíritos. Temendo idolatria pagã, o padre adquiriu um pouco do misterioso pipiltzintzlis e descobriu, para seu espanto, que pipiltzintzlis consistia simplesmente das folhas e sementes da Cannabis sativa. Pelo final do século XVIII, o pipiltzintzintlis "nativo" tinha se tornado associado com "divinação, visões, e até mesmo loucura".
      Em 1846, a Academia Mexicana de Farmácia publicou uma farmacopeia nacional que registrou a existência de duas linhagens mexicanas independentes de Cannabis: sativa, listada por sua "semente emulsiva", e Rosa Maria, utilizada pelas suas "folhas narcóticas". Outro nome para Rosa Maria era uma palavra que apareceu pela primeira impressa nas páginas da farmacopeia de 1846: mariguana. Na década seguinte, um farmacêutico da Universidade de Guadalajara mencionou que Rosa Maria era fumada em cigarros, a primeira menção a essa prática (aparentemente pipiltzintzintlis eram ingeridos. Pipiltzintzintlis foi, de certa forma, o comestível original).
      Outras referências sucederam nas décadas de 1860 e 1870, conforme a palavra marihuana foi se tornando gradualmente familiar aos leitores de jornais mexicanos. Embora não fosse ilegal, fumar Rosa Maria era considerado anti-católico, e maconha era inequivocadamente compreendida como sendo uma droga perigosa que inspirava atos violentos e levava à loucura. Os relatos da imprensa mexicana da virada do século XX apresentavam maconha como uma substância que transforma fumantes em maníacos homicidas depois de exatamente três pitadas. Aqui, em artigo após artigo, encontramos as origens da imagem "Reefer Madness" posteriormente difundida nos Estados Unidos pela Agência Federal de Narcóticos do Harry Anslinger. Finalmente, podemos ver de onde Harry Anslinger tirou a ideia de promover o Marihuana Tax Act de 1937.
      No final do século XIX, as leis começaram a alinhar-se com a sabedoria popular; restrições sobre a venda de maconha se intensificaram para proibições locais, e culminou com a proibição nacional da Cannabis em 1920. Em 2 de Março de 1920, o Departamento de Saneamento Público do México declarou uma nova lei intitulada "Disposições sobre o cultivo e o comércio de produtos que degeneram a raça". Essa foi a primeira lei na história mexicana a proibir o cultivo e comércio de maconha em todo o país. A proibição da maconha foi em grande parte um assunto interno. No entanto, fatores históricos globais desempenharam um papel ao longo da história mexicana dessa droga, desde o surgimento de "degeneração" como uma espécie de senso comum moderno até a perspectiva global de pensadores mexicanos preocupados com o lugar de seu país na "competição das nações".
      De 1930 até 1975, growers e traficantes mexicanos forneceram quase toda a maconha consumida nos Estados Unidos. Quando no início de 1970, os Estados Unidos reforçaram a repressão às drogas ao longo da fronteira Estados Unidos-México, e o México lançou uma grande campanha contra seus produtores nacionais, o epicentro da produção de maconha no hemisfério foi transferido rapidamente para a Colômbia, especialmente para a Península de Guajira e as encostas da Sierra Nevada de Santa Marta. Assim, com uma menor parte do mercado que tinha outrora, o México começou a produzir quantidades maiores de variedades de maior qualidade, como a lendária Acapulco Gold, ao invés das variedades comerciais que eram previamente exportadas. As landraces mexicanas dessa época eram geralmente nomeadas de acordo com a região onde eram cultivadas (p. ex. Guerrero, Michoacán, Oaxacan, Tijuana, Zacatecas), e caracterizadas por um efeito cerebral psicoativo. Na segunda metade da década de 1980, quando o México assumiu de volta a produção comercial da Colômbia, a maioria das variedades regionais já tinham desaparecido. Para competir com a exportação de outros países, o México começou a usar landraces internacionais, a aparar de uma melhor forma a sua colheita, e a remover a maioria dos machos para reduzir a produção de sementes.
      Colômbia: O cultivo de Cannabis chegou à Colômbia através do Panamá durante a primeira década do século XX. Por volta da década de 1930, um cultivo limitado havia se estabelecido entre a população negra costenha centrada em Barranquilla, se expandindo posteriormente por todo o país. Produzidos sobretudo ao longo do eixo andino do café na cordilheira ocidental, e na área em torno das plantações da United Fruit Company, no sopé sudeste da Sierra Nevada de Santa Marta, os cultivares de Cannabis da Colômbia não foram planejados à exportação. A exportação começou não intencionalmente na década de 1950, com marinheiros e outros trabalhadores móveis exportando maconha colombiana (landrace Punto Rojo) para os EUA e outros países vizinhos em pequenas quantidades. No final dos anos 1960, redes clandestinas para produção de Cannabis na região andina estabeleceram rotas através dos portos naturais da península caribenha de Guajira. Financiados e tecnicamente auxiliados por investidores colombianos e americanos, as primeiras colheitas produzidas exclusivamente para exportação apareceram no solo árido do lado Guajira da Sierra Nevada de Santa Marta, nos sopés oeste e nordeste.
      Maconha colombiana era dividida basicamente em duas linhagens, uma das áreas úmidas de baixa altitude das zonas costeiras ao longo do Atlântico, de efeito narcótico e sedativo e outra das áreas montanhosas mais áridas do interior de Santa Marta, de efeito cerebral. A criação da Colombian Golden, ou Santa Marta Gold, uma variedade aperfeiçoada caracterizada pelo seu sabor delicado e efeito suave, não só introduziu uma nova variedade moderna de Cannabis para os mercados contraculturais norte-americanos, como também apoiou a consolidação de uma nova economia regional na parte norte extrema do caribe colombiano. A produção da La Mona Amarilla (buds dourados) é alcançada por anelamento ou retirada de uma tira de casca do caule principal de uma planta quase madura, restringindo o fluxo de água, nutrientes, e produtos vegetais. Durante vários dias as folhas secam e caem, enquanto as flores morrem lentamente e se tornam amarelas. Essas inovações qualitativas converteram o caribe colombiano no maior fornecedor de maconha do mundo naquele momento, e ligaram as penínsulas de Guajira e da Flórida em um único circuito, altamente rentável, que atingiu seu pico entre 1972 e 1978. 
      As potenciais ameaças geoestratégicas, juntamente com preocupações de segurança nacional da Guerra Fria, e considerações de política externa no lado colombiano, levaram os governos dos Estados Unidos e Colômbia a trabalhar juntos na repressão ao tráfico de maconha. Operando como um estado de fato de sítio, essa campanha bilateral conseguiu tornar a produção e transporte de Cannabis uma atividade cara e arriscada, o que contribuiu para o declínio acentuado do tráfico em meados da década de 1980. Essa efetiva campanha de erradicação forçou os traficantes a realocar o cultivo de Cannabis para novas áreas, particularmente as regiões oeste e centro-norte da Colômbia. Hoje em dia, um cultivo significante de Cannabis ressurgiu em áreas previamente fumigadas. 
      Tailândia: Assim como em muitas outras partes do mundo, a Cannabis tem uma longa história de uso no Sudeste Asiático. Cannabis tem sido historicamente utilizada no Sudeste Asiático como: um ingrediente, um condimento em alimentos, um medicamento, e uma fonte de fibra. Durante a maior parte de sua história registrada, a Tailândia, assim como muitas outras nações, não tinha leis proibindo o uso ou posse de Cannabis. Isso começou a mudar no início do século XX, com o primeiro tratado de controle internacional de drogas, a Convenção Internacional do Ópio de 1912. Como um dos signatários originais, a Tailândia, então chamada Siam, promulgou uma legislação anti-drogas que lhe permitiu receber doações internacionais, empréstimos, e benefícios. Embora a Cannabis tenha sido especificamente proibida desde 1937, as penalidades eram relativamente leves e mal-aplicadas.
      A associação da Tailândia com o uso recreativo de Cannabis emergiu no centro das atenções do público internacional durante o final da década de 1960. A década de 1960 foi marcada pela agitação social nos Estados Unidos, devido a grande parte da energia do país estar focada em uma longa guerra no Sudeste Asiático. A Tailândia sediou as principais bases para soldados americanos servindo no Vietnã, e também era o principal destino de descanso e recreação para os soldados em licença. Os relatórios indicam que as tropas americanas começaram a fumar maconha logo após sua chegada em 1963. Curiosamente, a palavra bong tem sua origem na experiência dos soldados americanos da Guerra do Vietnã. Acredita-se que bong deriva da palavra baung, utilizada para descrever um cachimbo, tubo, ou recipiente cilíndrico feito a partir da haste de bambu.
      A Guerra do Vietnã (1955-1975) mudou tremendamente as circunstâncias do Sudeste Asiático, e também abriu o caminho para grandes fazendas de cultivo de Cannabis nas províncias da Tailândia do nordeste de Isan, especialmente na província de Nakhon Phanom, perto da fronteira com o Laos. Do final da década de 1960 até 1988, um dos cartéis de drogas mais bem sucedidos do mundo operava a partir de Bangkok, enviando centenas de toneladas de Thai Stick globalmente. A Tailândia foi o maior cultivador de Cannabis e produtor de maconha do sudeste da Ásia nas décadas de 1970 e 1980.
      O governo americano abriu seu primeiro escritório em Bangkok em 1963, e atualmente mantém escritórios em Bangkok, Chiang Mai, e Udon Thani. O DEA (Drug Enforcement Administration) executa uma série de programas dentro da Tailândia. Em 1976, o rei da Tailândia, Bhumibol, proclamou a Lei de Controle de Narcóticos, B. E. 2.519, que determinou a formação da ONCB (Office of Narcotics Control Board), financiada pelo governo americano. Hoje em dia, a Tailândia já não mantém seu status como um grande produtor de Cannabis. Os esforços de erradicação do governo tailandês forçaram os traficantes de maconha a realocar suas operações de cultivo para países vizinhos, como Laos e Camboja. No entanto, alguns cultivos domésticos da planta ainda ocorrem no nordeste da Tailândia, particularmente nas províncias de Nakhon Phanom, Mukdahan, e Sakhon Nakhon.
      Maconha não é uma palavra comum para Cannabis na Tailândia. Na Tailândia, maconha é referida como ganja. Thai Stick é feito dos buds sem semente de Cannabis, dobrados e amarrados à haste da planta (há rumores de que, por vezes, era finalizado por intermédio da imersão em óleo de Cannabis ou ópio). Landraces tailandesas são conhecidas pela sua brisa cerebral, e por ter um dos períodos de floração mais longos conhecidos na Cannabis. Algumas variedades tailandesas levam até 20 semanas para florescer devido à falta de variação de temperatura e de luz entre as estações, um fenômeno que muitas vezes afeta o fotoperiodismo na Cannabis em regiões equatoriais.Variedades tailandesas chegam a tamanhos incríveis, e frequentemente rastejam o solo, conforme os buds se tornam muito pesadps para os ramos suportarem. Algumas variedades podem começar até a exibir locais de raiz ao longo das partes dos ramos que permanecem em contacto com o solo. As variedades tailandesas são bastante propensas ao hermafroditismo, uma característica que acredita-se ser genética ao invés de induzida ambientalmente. 
      Afeganistão: Afeganistão, juntamento com Paquistão e Irã, formam a Crescente Dourada, uma área conhecida pelo cultivo e tráfico de ópio e haxixe desde o período onde papoulas foram introduzidas da Europa pelos comerciantes árabes ao longo da Rota da Seda. Al-Ukbary conta a história de como a Cannabis foi descoberta pelo líder religioso Shaikh Haidar, um dos fundadores da ordem Haidari de Sufis em Kharasan (noroeste do Irã e Afeganistão). Haidar viveu em um mosteiro nas montanhas de Rama por volta de 1200. Enquanto andava no campo no calor do meio-dia, ele descobriu as propriedades divinas de uma planta que apaziguava a fome e a sede, ao mesmo tempo que proporcionando alegria. Ele disse aos seus discípulos: "Deus Todo-Poderoso concedeu a vocês, por um favor especial, as virtudes desta planta, que irá dissipar as sombras que obscurecem as vossas almas e iluminarão os seus espíritos". Mesmo que a história do velho monge possa não ser verdadeira, alguns dos Sufis fizeram uso de haxixe em suas práticas religiosas e espalharam o seu consumo em toda a sociedade islâmica, introduzindo-o à Síria e ao Egito.
      Cannabis tem sido cultivada há séculos no Afeganistão, e em grande parte, ignorada pelas autoridades responsáveis em virtude da natureza desolada e independente das comunidades que produzem Cannabis. Haxixe tornou-se ilegal em 1957, supostamente sobretudo como uma concessão à pressão dos Estados Unidos, mas persistiu como uma droga comum no país. Após a viagem dos Beatles à Índia em 1968, há um grande aumento no número de mochileiros interessados em explorar o "Oriente Místico", viajando através da "trilha hippie". Geralmente o termo "trilha hippie" descreve uma rota popular, embora variada, através de partes da Ásia a partir da borda da Europa para a Índia e o Nepal, e fazem parte da antiga Rota da Seda.
      Quando eles chegaram no Afeganistão, os hippies foram acolhidos em uma cultura de haxixe que pouco havia mudado ao longo dos últimos quatro séculos. De fato, uma vez que o governo afegão percebeu o potencial de exportação do haxixe no final da década de 1960, ele incentivou o uso de fertilizantes artificiais no cultivo de Cannabis para aumentar a produção. Durante o final da década de 1960, o haxixe da mais alta qualidade vinha das antigas cidades de Balkh e Mazar-i-Sharif no norte do Afeganistão, ao norte das montanhas do Hindu Kush, perto da fronteira com o Uzbequistão. No entanto, como resultado da localização remota do Afeganistão e de seus terrenos difíceis, menos hippies visitaram lá do que as partes mais acessíveis da Ásia.
      A alta qualidade do haxixe afegão incitou os ocidentais a começar a traficar grandes volumes da droga. Durante o final da década de 1960 e início dos anos 1970, o famoso sindicato de tráfico de drogas americano, The Brotherhood of Eternal Love, teve uma enorme influência sobre a exportação e popularização do haxixe afegão. Campos enormes de Cannabis foram cultivados entre 1970-1973 ao longo das principais estradas que atravessam o norte e centro do Afeganistão, do Irã até o Paquistão. A região em torno de Mazar-i-Sharif foi a mais famosa, mas grandes plantações de Cannabis também eram abundantes em torno de Kandahar, no sul do Afeganistão, especialmente perto de Gereshk e Lashkar Gah.
      No entanto, no início de 1973, o governo dos Estados Unidos pagou as autoridades afegãs quarenta e sete milhões de dólares para destruir plantações de Cannabis e Papaver (papoula) dentro de suas fronteiras. Um dos últimos decretos do rei Zahir Shah, antes de ser derrubado, proibiu o cultivo de Cannabis e Papaver, com efeito imediato. O decreto foi largamente ignorado visto que os agricultores afegãos vinham cultivando essas plantas há séculos, e não iriam parar agora por causa de uma lei boba de um rei que acabara de ser destronado. Em 1979, o Afeganistão foi invadido pelos soviético, provocando mais de 30 anos de guerra e derramamento de sangue que continuam até hoje.
      Cannabis tem sido cultivada no Afeganistão a milhares de anos, a tal ponto que landraces características se estabeleceram em seu território, incluindo as variedades kafiristanica e afegânica, essa última apresentando muitas das características normalmente associadas com biótipos indica. Muitas das características distintivas da variedade afegânica também são características desejáveis ao produtor de maconha comercial. Plantas afegânicas são baixas, com folhas verde escura grandes, e amadurecem cedo, antes das geadas de inverno em áreas nórdicas, o que ajudava a evitar a sua detecção pela polícia ou ladrões. Essas plantas produzem uma quantidade abundando de resina, possuem buds densos, e produzem uma Cannabis com gosto e cheiro característicos. Essas variedades foram introduzidas na America do Norte e Europa por mochileiros regressando da "trilha hippie" durante o final da década de 1960 e durante a década de 1970, e por soldados americanos durante a década de 1980, quando o Afeganistão foi ocupado pelos soviéticos.
       
      7. AS GENÉTICAS POR DETRÁS DOS NOMES COMERCIAIS
      Ao longo de séculos civilizações cultivaram Cannabis, sempre favorecendo e selecionando landraces potentes. Mas nos Estados Unidos, apesar do cultivo de Cannabis ter sido legal até 1937, o cultivo de variedades para a produção de drogas só começa realmente durante a década de 1960, com usuários curiosos semeando as sementes encontradas na Cannabis importada. No entanto, landraces tropicais da Colômbia e Tailândia raramente amadureciam até a fase de florescimento antes que as geadas temperadas do norte as matassem, enquanto landraces subtropicais do México e Jamaica ocasionalmente amadureciam ao ar livre nas regiões mais quentes do sul dos Estados Unidos. No começo da década de 1970, a técnica de cultivo sinsemilla (sem semente), originária da Índia, começou a ganhar popularidade nos Estados Unidos. E em 1976, a técnica passou a ser o padrão no cultivo ilegal de Cannabis nos Estados Unidos, com o lançamento do livro Sinsemilla Marijuana Flowers.
      Isso, por sua vez, acelerou a criação intencional de variedades mais potentes, com diversos breeders clandestinos desenvolvendo variedades a partir de landraces de biótipo sativa mais potentes e distintas (p. ex. Original Haze, Maui Wowie), assim como híbridos de maturação mais curta do cruzamento de landraces tropicais e semitropicais de biótipo sativa com landraces afegãs de biótipo indica. Esses híbridos se espalharam rapidamente por toda a América do Norte, conforme os growers perceberam que eles possuíam as qualidades de maturação precoce e grande potência, e também porque eram mais difíceis de ser detectados pela polícia ou por vizinhos mal intencionados. No começo da década de 1980, híbridos desenvolvidos principalmente na Califórnia começam a ser levados para a Holanda, onde passam a ser comercializados em seedbanks (bancos de sementes), juntamente com landraces de regiões internacionais exóticas, dando o pontapé inicial na ascensão da Indústria de Cannabis moderna.
      Segue um breve resumo de algumas das variedades cultivadas que tiveram maior impacto na formação da Indústria de Cannabis moderna.
      Haze: Em 1969, G., um surfista local de Santa Cruz na Califórnia, resolveu plantar Cannabis pra conseguir ter seu fumo de graça, e de quebra fazer um trocado rápido. G. plantou algumas sementes de Punto Rojo (landrace colombiana), que foram polinizadas dando origem a 4 fenos: Magenta, Blue, Silver e Gold. G., em parceria com um amigo, plantou esses fenótipos por algumas temporadas, selecionando sempre os melhores exemplares para a produção das sementes do cultivo seguinte. Original Haze era bastante consistente como F1, mas quando a variedade chegou a F5 e acima, ela já havia segregado em muitas linhagens relacionadas diferentes. E em 1979, 10 anos depois, Original Haze já apresentava perda de vigor. Durante a década de 1970, três irmãos, dois dos quais cursavam faculdade em Santa Cruz, começaram a movimentar grandes quantidades de Original Haze para a região leste americana. A criação do Original Haze é muitas vezes erroneamente atribuída a eles, os Haze Brothers, como se auto-denominavam. Em 1984, David Watson, também conhecido como Sam The Skunkman, que morava no mesmo quarteirão que G., se mudou para a Holanda, levando com ele as variedades Haze que ele havia perpetuado por polinização aberta. David vendeu essas sementes para alguns breeders, perpetuando e preservando a linhagem. 
      Skunk: Skunk #1 (Afghan/Colombian x Acapulco Gold) foi criado por David Watson no final da década de 1960, na Califórnia. Acapulco Gold foi utilizada para acelerar o tempo de maturação da Afghan x Colombian que era demasiadamente longo. Em 1976, David criou o Sacred Seeds, o primeiro seedbank a oferecer híbridos entre biótipos sativa e indica. Em 1984, David se mudou para a Holanda, onde vendou sementes das suas variedades, entre elas a Skunk #1, a Nevil Schoenmakers. Nevil, apelidado de "O rei da Cannabis" em 1985 pela revista High Times, é o breeder de muitas das variedades modernas mais populares. Em 1976, quando foi oferecido comercialmente pela primeira vez, Skunk #1 ficou conhecido pelo fenótipo Road Kill Skunk. No entanto, durante o começo da década de 1980, David trabalhou para suavizar o sabor e o aroma do Skunk #1, e produzir predominantemente características do fenótipo Sweet Skunk. Cheese, um fenótipo de Skunk #1 que obteve bastante popularidade na década de 1990, sendo extensivamente cultivado por uma rede clandestina de produtores no Reino Unido, é um bom exemplo do fenótipo Road Kill Skunk. O nome Skunk vem do odor pungente do fenótipo Road Kill Skunk. No Brasil, Skunk é frequentemente utilizado como um termo para diferenciar qualquer fumo de qualidade superior. Skunk #1 é considerado o primeiro híbrido estável comercializado. 
      G-13: É a variedade que acumulou a maior quantidade de mitos urbanos. A história mais propagada é de que ela foi cultivada na década de 1970 pelo governo dos Estados Unidos, e utilizada em pesquisas na Universidade do Mississipi, coloquialmente conhecida como Ole Miss, juntamente com outras 22 plantas de sementes afegãs, rotuladas de G-1 a G-23, sendo a G-13 muito superior às outras. Mas não há nenhum registro de uma planta G-13 nos arquivos da Universidade. Outra versão diz que a G-13 é originária de um vidro com sementes confiscadas pelo DEA, rotulado de lote-13, furtado da Ole Miss. Uma terceira versão diz que as sementes dos lotes confiscados pelo DEA eram testadas pela Ole Miss, e que G-13 é somente um código do sistema de classificação utilizado para diferenciar uma variedade com utilidade médica. Seja qual for a verdade, Nevil Schoenmakers supostamente conseguiu comprar por U$500 um clone da G-13 de Sandy Weinstein através de um amigo mútuo entre eles, e o utilizou na criação de diversos híbridos que são popularmente comercializados ainda hoje. Sandy, por sua vez, teria conseguido a G-13 através de um amigo, um estudando de botânica estagiando sob orientação do Dr. Carlton Turner, que comandava o programa da Ole Miss. Esse estudante teria dado a Sandy um punhado de variedades afegãs que haviam mostrado potencial no programa de produção de maconha clinicamente classificada da Ole Miss. Reza a lenda que logo após a morte de Sandy Weinstein em 1987, o clone adquirido por Nevil definhou. 
      Northern Lights: Durante a década de 1970, um lote de sementes enviado do Afeganistão acabou nas mãos de Steve Murphy, dono da loja de cultivo The Indoor Sun Shoppe, em Seattle. Greg, um veterano da marinha americana adquiriu 4 dessas sementes por intermédio de Herbie Nelson, um amigo de infância que trabalhava para Steve. Greg, Herbie, e amigos cultivaram essas sementes e as utilizaram para criar 11 híbridos, que vieram a ser conhecidos como a família Northern Lights (NL). As 11 variedades de NL foram classificadas pelo grupo por altura e sabor para o cultivo indoor. NL#1-NL#4, eram compostas por híbridos do cruzamento com diferentes variedades afegãs. NL#5, a mais famosa, era um híbrido do cruzamento da NL#1 com uma variedade havaiana. NL#6-#11 eram híbridos do cruzamento com variedades mexicanas, colombianas, e tailandesas. NL foi desenvolvida por e para veteranos da Guerra do Vietnã (1954-1975) em busca de uma Cannabis medicinal. O grupo mandou fotos dos buds da NL#5 para Nevil Schoenmakers, que elogiou sua qualidade. Greg então enviou pelo correio 11 pacotes de sementes contendo a família NL para Nevil. Três dessas linhagens (#1, #2, #5) vieram a dar origem a uma enorme quantidade de híbridos, por serem uma das poucas variedades de biótipo indica disponíveis na Holanda durante a década de 1980. As sementes também foram enviadas para Ben Dronkers, do Sensi Seeds, como um agradecimento por ter ajudado o grupo com uma fórmula de nutrientes. 
      Diesel: Em 1991, na pequena cidade turística de Crested Butte (bastante procurada para a prática de esqui), Colorado, dois amigos locais, J.B e Pbud, descolaram um fumo indoor de alta qualidade. Esse fumo era conhecido como The Dog porque depois de fumá-lo, você "rolava como um cachorro". No entanto, J.B começou a se referir ao fumo como Chem (químico) devido ao seu aroma e sabor. Mais tarde naquele ano, os dois amigos atenderam a um show do Grateful Dead no anfiteatro de Deer Creek, em Indiana, onde conheceram e ficaram amigos de um cara para quem venderam cerca de 30 gramas do The Dog por U$ 500. Eles trocaram números de telefone, e posteriormente combinaram de enviar cerca de 60 gramas adicionais pelo correio para esse cara na costa leste. Nos buds enviados foram encontradas 12 sementes; três sementes foram cultivadas naquele ano, dando origem a três fêmeas que receberam os nomes de Chemdog, Chemdog a, e Chemdog b. Por volta de 1993, Chemdog já tinha ganho certa reputação local como um fumo de alta qualidade. Em um show da banda Phish, Chemdog (o "breeder" da variedade), conheceu e ficou amigos de um grupo de nova-iorquinos, com quem acabou posteriormente trocando um clone da sua Chemdog por um clone de Super Skunk. O pessoal de New York não gostou do nome Chemdog, renomeando a variedade para Diesel, aka NYC Diesel.
      Um dos nova-iorquinos, Weasel, cruzou sua Super Skunk com um macho de NL do Sensi Seeds. Das sementes resultantes ele selecionou um macho e o cruzou com a Chemdog, produzindo a variedade Underdawg Diesel (Diesel no.1, Headband Diesel, Daywrecker Diesel). Mais tarde naquele ano, outra planta do grow de Weasel se tornou hermafrodita, e acabou polinizando uma Underdawg Diesel, dando origem a variedade Sour Diesel. Em 1996, um amigo de Chemdog se mudou para próximo do Lake Tahoe, na fronteira entre Califórnia e Nevada, levando com ele um clone de Chemdog. Seu clone estressou um pouco e acabou auto-polinizando. Ele cultivou essas sementes, e o fenótipo que se destacou foi nomeado OG Kush (Original Kush) como uma afronta ao pessoal da costa leste, por ter renomeado a Chemdog para Diesel. Em 2001, Chemdog germinou mais 3 sementes, rotuladas de Chemdog c, d, e e; e nunca chegou a germinar, c era ruim, e a d foi salva e perpetuada por ser se assemelhar bastante ao The Dog original. Em 2006, Chemdog se reunificou com J.B, e deu a ele 4 sementes encontradas nos buds da The Dog, vindo dar origem a mais 4 plantas, rotuladas de Chemdog 1, 2, 3, e 4. Chemdog perdeu as últimas 2 sementes.
      Lowryder: The Joint Doctor cresceu em uma fazenda, e desenvolveu desde cedo um interesse por plantas com características incomuns. Durante sua adolescência, cuidar das plantas de Cannabis de seu pai fazia parte das suas tarefas diárias. Quando entrou na faculdade, levou com ele algumas sementes que cultivou em seu dormitório, de onde levou a ideia de criar variedades para o cultivo em pequenos espaços. Durante essa época, se tornou amigo de um expatriado mexicano que vinha coletando variedades incomuns a mais de 30 anos. Uma das variedades presenteadas por esse seu amigo, Mexican Rudy, despertou o seu interesse visto que ficava baixa e florescia antes do que qualquer outra variedade da sua coleção. Primeiro ele cruzou a Mexican Rudy com uma NL#2,  que também é uma variedade compacta, porém mais potente. Essas F1's foram então cruzadas com uma William's Wonder, produzindo algumas plantas masculinas que floresciam imediatamente quando ainda eram basicamente mudas, mesmo recebendo 24 horas de luz. The Joint Doctor utilizou essas plantas como polinizadores, e a próxima geração consistiu exclusivamente de pequenas plantas com o traço de autofloração (recessivo). Ele cultivou essas plantas por algumas gerações, sempre selecionando os melhores espécimes para a produção das sementes do cultivo seguinte, até o seu lançamento comercial em pequena escala em 2003. Nos anos seguintes, a conveniência do crescimento rápido e baixa manutenção tornou variedades automáticas bastante populares entre cultivadores amadores.
      Cannatonic: Em 2008, foi estabelecido na Califórnia o primeiro laboratório analítico não federal da Indústria de Cannabis para uso medicinal nos Estados Unidos. Com isso, os dispensários passaram a utilizar os níveis de fitocanabinoides para indicar a potência das variedades comercializadas aos pacientes. Essa prática acabou revelando que a presença de CBD era extremamente rara entre as variedades analisadas. Isso provocou o desenvolvimento de um programa colaborativo entre pesquisadores, médicos, laboratórios, fornecedores e consumidores que revelou que apenas 1 em 750 amostras analisadas continham níveis significativos de CBD, com uma percentagem ainda menor realmente rica em CBD. No ano seguinte (2010), esse programa colaborativo veio a dar origem ao Projeto CBD, um serviço educacional sem fins lucrativos dedicado a promover e divulgar a investigação sobre a utilidade médica do CBD e de outros componentes da Cannabis. A Cannatonic ganhou notoriedade por ter sido a primeira variedade testada a apresentar níveis equivalentes de THC e CBD, e com o aumento da notoriedade do CBD, o consumidor passou a buscar variedades com níveis elevados de CBD.
      Kush: Refere-se a um subconjunto de variedades proveniente principalmente do Afeganistão, e por vezes Paquistão e norte da Índia. Seu nome vem da cordilheira do Hindu Kush, que se estende entre o Afeganistão e o norte do Paquistão, incluindo as áreas nas fronteiras ocidentais das Montanhas Pamir (uma extensão das montanhas do Himalaia). As montanhas do Hindu Kush tem florestas acima de 800-1000 metros e prados alpinos abaixo; vários textos iranianos antigos, como o Avesta, referem-se a esse território como sendo rico em recursos vegetais. Acredita-se que a variedade afegânica (Cannabis sativa ssp. indica var. afghanica) evolui no sopé das montanhas Hindu Kush, sendo eventualmente utilizada para a produção de haxixe na região. Assim como Skunk, Kush é frequentemente utilizado como um termo para designar uma variedade de alta qualidade.
      Gold/Orange/Red: Embora mudanças de cor indiquem carências nutricionais, elas ocorrem também em exemplares saudáveis e são resultado de influências genéticas e ambientais. É perfeitamente natural que as folhas da Cannabis mudem de cor e morram conforme a planta atinge a sua fase final, manifestando diversos tons de verde, amarelo, dourado, e mais. Carotenóides são pigmentos de cores vermelha, laranja, e amarela, solúveis em lípidos, encontrados incorporado nas membranas dos cloroplastos e cromoplastos. Sua cor é inicialmente mascarada pela clorofila nos tecidos fotossintéticos, mas nos estágios finais do desenvolvimento da planta esses pigmentos contribuem para as cores vivas de muitas flores e frutas. Exemplos notáveis incluem betacaroteno (p. ex. cenoura, batata doce), e licopeno (p. ex. tomate, melancia). Absorção dietética de carotenóides pode fornecer pigmentação para os tecidos de alguns animais marinhos (p. ex. camarão, lagosta) e pássaros (p. ex. flamingo, canário), melhorando o seu sistema imunitário e, em muitos casos, proporcionando uma vantagem sexual seletiva. Carotenóides são os segundos mais abundantes pigmentos (só perdendo para as clorofilas) que ocorrem naturalmente na Terra, com mais de 750 membros. Eles são isoprenoides lipofílicos sintetizados em todos os organismos fotossintéticos (bactérias, algas e plantas), assim como em algumas bactérias e fungos não fotossintéticos.
      Carotenóides protegem os organismos fotossintéticos contra processos fotooxidativos potencialmente nocivos, e são componentes estruturais essenciais dos complexos de antenas fotossintéticas e centros de reação. Carotenóides podem exercer proteção dissipando o excesso de energia na forma de calor, um fenômeno chamado extinção não fotoquímica, ou pela eliminação de espécies reativas de oxigênio. Além disso, carotenóides podem ser transformados em moléculas de sinalização menores que regulam várias fases do ciclo de vida da planta. Existem evidências crescentes de que a carotenogênese em tecidos de plantas é predominantemente regulada ao nível de transcrição. Transcricionalmente, genes PSY (uma enzima que limita a velocidade na biossíntese de carotenóides) são induzidos em resposta a vários fatores como: desenvolvimento, ácido abscísico, luz alta, sal, seca, temperatura, fotoperíodo, e regulação por realimentação pós-transcricional. Tecidos vegetais, em particular pétalas de flores e frutas, tem uma grande variedade de carotenóides totais, variando de pouco (ou nada) a grandes quantidades, até mesmo dentro da mesma espécie de planta. A quantidade de carotenóides nos tecidos não é atribuída exclusivamente à capacidade de sintetizar carotenóides. Alguns tecidos de plantas têm a capacidade de sintetizar carotenóides, mas contêm apenas uma quantidade vestigial de carotenóides. No entanto, o mecanismo que controla o acúmulo de carotenóides é em grande parte desconhecido. 

      Blue/Purple/Red: Antocianinas, do grego anthos (flor) e kyáneos (azul), são pigmentos polifenólicos que pertencem ao grupo dos flavonoides, e são responsáveis por muitas das cores azuis, roxas, e vermelhas presentes em tecidos vegetais, como folhas, frutas, e flores. Mais de 700 antocianinas estruturalmente distintas, derivadas de 27 agliconas (antocianidinas), já foram identificadas na natureza. Antocianinas desempenham um papel importante na atração de animais, promovendo assim a polinização e dispersão de sementes, e, através da absorção de luz, contribuem para proteger as plantas do dano induzido por radiação ultravioleta. Muitas plantas acumulam antocianinas somente durante fases de desenvolvimento específicas e em tecidos específicos. Além disso, antocianinas também são induzidas pelo estresse, tal como luz elevada, baixa temperatura, ferimento, infecção patogênica, e deficiência de nutrientes. O acúmulo de antocianinas nos tecidos vegetais como resultado das condições mais frias do outono ou inverno já foi relatado para muitas plantas. Acredita-se que o gatilho geral para esse fenômeno seja excesso de irradiância (energia) e baixas temperaturas, como encontradas no outono. A depressão resultante na capacidade de uso de luz estimula a síntese de antocianinas nas camadas periféricas do mesofilo das folhas, atenuando a energia luminosa e, assim, protegendo as plantas de fotoinibição. 
      Além do fator de baixa temperatura na indução de antocianinas, baixo potencial osmótico correspondente com a seca também pode conduzir à síntese de antocianinas. Antocianinas podem ser induzidas por estresses osmóticos como alta salinidade e seca. Além disso, a síntese de antocianinas melhora a resistência ao estresse oxidativo causado por baixo potencial osmótico. Um aumento no teor de sacarose exógena pode reduzir o potencial osmótico, aumentando assim a biossíntese de antocianinas. Na maioria das espécies, a coloração de tecidos de plantas resulta do acúmulo de pigmentos antociânicos nos vacúolos de células (sub)epidérmicas, e antocianinas mudam a sua cor dependendo do pH do vacúolo no qual estão localizadas; sua cor é mais azulada em um pH ligeiramente ácido ou neutro, e mais avermelhada em pH ácido. Para essas cores se desenvolverem, uma planta de Cannabis deve ter o potencial metabólico controlado geneticamente para produzir pigmentos antociânicos, juntamente com uma capacidade de resposta às mudanças ambientais, de tal modo que pigmentos antociânicos sejam desmascarados e se tornem visíveis. Isso também significa que uma planta pode ter os genes para a expressão dessas cores, mas que elas nunca sejam expressas se as condições ambientais não desencadearem pigmentação antociânica ou quebra de clorofila. Variedades Kush e landraces colombianas frequentemente desenvolvem coloração roxa quando submetidas a temperaturas baixas a noite durante a maturação.

      Outros: Características como rápida maturação, altura, aromas, sabores e etc., também são frequentemente utilizados na escolha dos nomes. (p. ex. Early Pearl, Low Girl, Lemon Skunk, Chocolate Thai).
      As variedades comercializadas não são formalmente registradas e, portanto, sua identidade e estabilidade não são garantidas. Assim, quando uma variedade atinge grande notoriedade, é comum que outras marcas comecem a vender sua própria versão, assim como a utilizam para novas cruzas. Vale salientar, no entanto, que mais de 90% das variedades que ganharam status de variedades lendárias não são encontradas para comercialização já que estão extintas ou nas mãos de alguns poucos indivíduos. E entre as disponíveis, boa parte já perdeu qualidade pois não tem o mesmo vigor de 10, 20 anos atrás. Assim como acontece com qualquer produto, diferentes marcas possuem diferentes reputações, desde o pequeno produtor orgânico até o renomado produtor em larga escala. Não existe uma marca melhor do que a outra. O que existe é a preferência do consumidor, que é limitada de acordo com suas experiências. O segredo da qualidade está em uma seleção e reprodução conscientes, e o potencial genético está diretamente ligado às habilidades do cultivador.
       
      8. QUIMIOTIPO
      Um quimiotipo é uma entidade química distinta em uma planta ou microrganismo, com diferenças na composição dos metabolitos secundários. Em outras palavras, quimiotipo é a constituição química da planta/microrganismo, ou seja, seu fenótipo químico. A composição química (proporção entre os fitocanabinoides) em um dado quimiotipo de Cannabis deve ser constante, mesmo que ele viva sob condições ambientais (ligeiramente) diferentes, pelo menos nos seus compostos principais, os fitocanabinoides. Quimiotipos THC dominante são originariamente predominantes em países localizados entre os trópicos, enquanto quimiotipos THC/CBD misto e CBD dominante são originariamente predominantes em países localizados entre os trópicos e os círculos polares.
      Mudanças no quimiotipo em consequência da introdução a um novo ambiente são comuns, com regiões quentes e ensolaradas favorecendo a biossíntese de THC e regiões frias e nubladas favorecendo a biossíntese de CBD. Assim, o cultivo de variedades semitropicais e tropicais com alto nível de THC por growers em latitudes mais frias gera plantas bastante potentes no primeiro ano que são cultivadas, mas que rapidamente perdem potência nas gerações subsequentes. Paralelamente, cultivares de cânhamo ganham potência ao longo de gerações quando cultivados em latitudes mais quentes, perto do equador. No entanto, restrições latitudinais sobre a produção de fitocanabinoides é de pouca importância na determinação do perfil químico em comparação com influências humanas. Sendo assim, latitudes mais frias são adequadas para a produção de quimiotipos THC dominante desde que eles sejam fortemente selecionados para níveis altos de THC e maturação precoce. 
      Apesar do quimiotipo estar associado principalmente a origem geográfica, isso não limita a presença de diferentes quimiotipos em biótipos sativa e indica uma vez que o perfil fitocanabinoide está protegido pelo controle genético. Plantas pertencentes à mesma população muitas vezes mostram perfis fitocanabinoides distintos. THC e CBD são os principais fitocanabinoides em quimiotipos cultivados para a produção de drogas, enquanto CBD e CBG são os principais fitocanabinoides em quimiotipos cultivados para a produção de fibras (cânhamo). Entre os quimiotipos cultivados para a produção de drogas, biótipos indicas (Cannabis sativa ssp. indica biótipo indica) são tradicionalmente cultivados para a produção de haxixe, enquanto biótipos sativas (Cannabis sativa ssp. indica biótipo sativa) são geralmente utilizados para a produção de maconha.
      Devido a escassez de CBD na maioria das variedades comercializadas, muita gente acredita que THC é dominante e CBD recessivo. No entanto, o fato de que é possível a expressão de quimiotipos THC/CBD misto reflete uma codominância entre THC e CBD. Contudo, estudos e análises retratam um cenário mais complexo do que uma simples codominância, com diversas duplicações de genes conectadas (resultando em genes parálogos), responsáveis pelos diversos fenótipos THCA e CBDA (níveis baixos, altos, ou intermediários). Além do mais, plantas com quimiotipo THC/CBD Misto produzem geralmente mais CBD do que THC, o que sugere que, apesar de expressar uma sintase THCA funcional, a sintase CBDA é uma concorrente superior para o seu precursor comum, o ácido canabigerólico. Assim, a ausência de uma sintase CBDA funcional é essencial para a potência das variedades de Cannabis.
      Estudos mostram que a proporção de THC para CBD pode ser atribuída a um de três quimiotipos e que alelos BT e BD codificam alozimas que catalisam a conversão de CBG para THC e CBD, respectivamente.
      BT/BT - Esse quimiotipo é contraindicado para o grupo de risco (pessoas com um histórico de psicose, depressão, ansiedade ou outros transtornos mentais, bem como pessoas com problemas cardiovasculares preexistente) uma vez que produz níveis baixos de CBD e níveis elevados de THC. 
      BT/BD - Esse quimiotipo não é aconselhado para casos mais severos. As evidências anedóticas apontam que esse quimiotipo é benéfico na maioria dos casos. No entanto, alguns usuários relatam que ainda possuem suas patologias realçadas dependendo das condições e da dosagem utilizada.
      BD/BD - Esse quimiotipo é o mais seguro para o grupo de risco uma vez que produz níveis não muito elevados de THC e níveis elevados de CBD. Vale ressaltar que esse quimiotipo basicamente não produz efeitos psicomiméticos, e, portanto, seu efeito é essencialmente de relaxamento através da ação do CBD em outros mecanismos que não os receptores canabinoides. CBD continua sendo psicoativo uma vez que está afetando a sua mente, mas é ao mesmo tempo ausente dos efeitos psicomiméticos negativos associados ao THC, como ansiedade, medo, paranoia, pânico, despersonalização, dissociação, e etc.
      Ex. 1: Quimiotipo THC Dominante (BT/BT) x Quimiotipo CBD Dominante (BD/BD)
      F1 = 100% Quimiotipo THC/CBD Misto (BT/BD)
      Ex. 2: Quimiotipo THC/CBD Misto (BT/BD) x Quimiotipo THC/CBD Misto (BT/BD)
      F1 = 25% Quimiotipo THC Dominante (BT/BT), 25% Quimiotipo CBD Dominante (BD/BD), e 50% Quimiotipo THC/CBD Misto (BT/BD)
      Quimiotipos resultantes das sementes de variedades comercializadas:
      (BT/BT X BT/BT) = THC 1:0 CBD; 100% BT/BT; p. ex. Serious Seeds AK-47
      (BT/BT X BD/BD) = THC 1:1 CBD; 100% BT/BD; p. ex. CBD Crew Critical Mass
      (BT/BD X BT/BD) = THC 1:1 CBD; 50% BT/BD, 25% BT/BT, 25% BD/BD; p. ex. Resin Seeds Cannatonic
      (BT/BT X BT/BD) = THC 3:1 CBD; 50% BT/BT, 50% BT/BD; p. ex. ChemDawg Sour Diesel
      (BD/BD X BT/BD) = THC 1:3 CBD; 50% BD/BD, 50% BT/BD; p. ex. CBD Crew Yummy
      (BD/BD X BD/BD) = THC 0:1 CBD; 100% BD/BD; p. ex. CBD Crew Therapy
      Agora, fitocanabinoides correspondem a até 40% do peso do bud seco, portanto, teoricamente 40% (THC + CBD + outros fitocanabinoides e terpenos) é o valor máximo que pode ser encontrado em um bud, 20% herdados do macho e 20% herdados da fêmea.
      Genótipo BT/BT = Quimiotipo THC Dominante
      THCmin/max = 3%-40% 
      .Genótipo BD/BD = Quimiotipo CBD Dominante
      CBDmin/max = 3%-40%
      Genótipo BT/BD = Quimiotipo THC/CBD Misto 
      THCmin/max = 3%-20%, CBDmin/max = 3%-20%
      Quimiotipo é controlado geneticamente.
      THCmax/CBDmax são determinados pelo ambiente.
      Ex. 1: Quimiotipo THC Dominante (BT/BT; THCAfeno = 14%) x Quimiotipo THC Dominante (BT/BT; THCAfeno = 22%) 
      F1 = 100% Quimiotipo THC Dominante (BT/BT; THCAfeno = 18%)
      F1a = 15% THC, F1b = 19% THC, F1c = 25% THC (vigor híbrido)
      Ex. 2: Quimiotipo THC/CBD Misto (BT/BD; THCA/CBDAfeno = 16%:16%) x Quimiotipo THC/CBD Misto (BT/BD; THCA/CBDAfeno = 16%:16%) 
      F1 = 25% Quimiotipo THC Dominante (BT/BT; THCAfeno = 32%), 25% Quimiotipo CBD Dominante (BD/BD; CBDAfeno = 32%), e 50% Quimiotipo THC/CBD Misto (BT/BD; THCA/CBDAfeno = 16%:16%)
      F1a = 28% THC e 1% CBD, F1b = 1% THC e 22% CBD, F1c = 9% THC e 16% CBD
      A importação de sementes de Cannabis é considerada crime de contrabando, e os riscos de importação são reais. Consequentemente, sementes oriundas de prensados são frequentemente o que está disponível para o usuário. Sementes de prensado são uma caixinha de surpresa, mas são também a opção mais segura para quem quer aprender a cultivar. No entanto quem quer cultivar para tratar uma doença específica, ou está buscando produzir o seu óleo de CBD a um preço mais acessível, necessita de quimiotipos específicos praticamente impossíveis de serem selecionados de sementes de prensado. Ademais, cultivadores experientes buscam especifidade (fenótipos específicos), e cultivadores inexperientes buscam praticidade (variedades automáticas e feminilizadas). 
       
      9. CANABINOIDES
      Canabinoides são um grupo de substâncias originalmente encontradas na planta Cannabis, mas que se referem a qualquer substância que é especificamente reconhecida pelo sistema endocanabinoide. Existem três tipos de canabinoides: fitocanabinoides; endocanabinoides (encontrados no corpos de humanos e de outros animais), e canabinoides sintéticos. A planta Cannabis e seus derivados consistem de uma enorme variedade de produtos químicos. Até a última atualização desse texto, cerca de 1000 compostos naturais, incluindo mais de 150 fitocanabinoides e 200 terpenos , haviam sido identificados. 
      Fitocanabinoides representam um grupo de compostos terpenofenólicos com 21 átomos de carbono ou 22 (para as formas carboxiladas) predominantemente produzidos na Cannabis, mas que também foram reportados em outras plantas. Fitocanabinoides podem ser divididos em 11 subclasses:
      Tipo CBG <> Canabigerol é o precursor biossintético de THC, CBD, e CBC.
      Tipo THC <> Delta-9-tetrahidrocanabinol é um produto da conversão enzimática do precursor CBG.
      Tipo CBD <> Canabidiol é um produto da conversão enzimática do precursor CBG.
      Tipo CBC <> Canabicromeno é um produto da conversão enzimática do precursor CBG.
      Tipo CBN <> Canabinol é um subproduto da oxidação do THC.
      Tipo CBND <> Canabinodiol é um subproduto da oxidação do CBD.
      Tipo CBE <> Canabielsoin é um subproduto da fotooxidação do CBD.
      Tipo CBL <> Canabiciclol é um subproduto da irradiação natural do CBC.
      Tipo CBT <> Canabitriol é um análogo de Delta-9-THC. 
      Tipo Delta-8-THC <> Delta-8-tetrahidrocanabinol é um análogo de Delta-9-THC.
      Outros <> Fitocanabinoides com estruturas incomuns que não se encaixam nos outros grupos. 
      Os fitocanabinoides predominantes na Cannabis são o ácido tetrahidrocanabinólico (THCA), o ácido canabidiólico (CBDA) e o ácido canabinólico (CBNA), seguidos do ácido canabigerólico (CBGA), ácido canabicromênico (CBCA) e ácido canabinodiólico (CBNDA). Os ácidos fitocanabinoides ocorrem predominantemente na planta viva e são não-enzimaticamente descarboxilados nas suas formas neutras correspondentes com o tempo ou quando aquecidos. Geralmente somente três ou quatro fitocanabinoides são encontrados em concentrações relevantes em cada planta. Biótipos geográficos geralmente possuem um ou mais fitocanabinoides mais raros em quantidades incomuns. Por exemplo, éter monoetílico de canabigerol (CBGM) é especialmente prevalente em populações do nordeste da Ásia, canabidivarin (CBDV) é encontrado sobretudo em populações da Ásia Central, e tetrahidrocanabivarin (THCV) é geralmente encontrado em quantidades significativas em populações da África e Ásia. 
      A maioria dos fitocanabinoides produzidos pela Cannabis são agonistas fracos dos receptores CB1 e CB2 por causa da menor afinidade do que o THC para esses receptores. Um agonista fraco não possui um encaixe perfeito com o receptor, e por isso precisa de diversos receptores ligados para produzir um efeito. Assim, esses agentes naturais estimulam receptores sem muito potencial para induzir efeitos psicoativos. Os efeitos psicoativos do THC são o resultado da sua atividade como agonista parcial dos receptores canabinoides CB1, localizados principalmente no sistema nervoso central. Além dos receptores CB1, THC também é agonista parcial dos receptores CB2, expressos principalmente em células do sistema imunitário. A ativação de receptores acoplados à proteína G CB1 resulta em uma diminuição na concentração do segundo mensageiro AMP cíclico, também conhecido como cAMP, através da inibição da adenilato ciclase. O cAMP é um segundo mensageiro ubíquo que regula uma multiplicidade de respostas celulares que incluem o controle do metabolismo, a transcrição de genes, e a atividade de canais iônicos (canais iônicos dependentes de neurotransmissores são os principais locais moleculares de ação de drogas psicoativas). 
      Em muitos casos, essas funções são moduladoras no sentido de que o cAMP muitas vezes age para regular a atividade de outras vias de sinalização e, portanto, tem um papel central a desempenhar na comunicação cruzada entre vias de sinalização. Essa função moduladora é particularmente evidente no caso da sinalização de Ca2+ tanto em células neuronais quanto musculares. Sinalização de Ca2+ é um dos principais sistemas de sinalização em células. Ela funciona para regular muitos processos celulares diferentes ao longo de sua história de vida. Ela aciona uma nova vida no momento da fertilização. Ela controla muitos processos durante o desenvolvimento, e uma vez que as células se diferenciaram, ela rege a atividade da maioria dos processos celulares, determinando efetivamente como nós metabolizamos, secretamos, movemos, e pensamos. 
      No cérebro, receptores CB1 são encontrados nos terminais de neurônios centrais e periféricos, onde medeiam principalmente a ação inibitória sobre a liberação contínua de um número de sistemas neurotransmissores excitatórios e inibitórios; incluindo os sistemas dopaminérgico, GABAérgico, glutamatérgico, serotoninérgico, noradrenalinérgico, e acetilcolinérgico. É devido ao envolvimento desses sistemas que receptores CB1 afetam funções como cognição, memória, movimentos motores, e percepção da dor. A liberação de endocannabinoides como AEA e 2-AG, a partir dos locais pós-sinápticos para a fenda sináptica ocorre em resposta a elevação do cálcio intracelular, e eles atuam como neurotransmissores retrógrados sobre receptores CB1 localizados pré-sinapticamente para manter a homeostase e prevenir a atividade neuronal excessiva.
      Ratos de laboratório que não possuem receptores CB1 aparentam ser notavelmente normais, sugerindo um mecanismo compensatório. No entanto, quando a homeostase normal é perdida, como ocorre em doenças, o controle do sistema endocanabinoide é particularmente importante. Essa função fisiológica como um regulador endógeno pró-homeostático que auxilia no restabelecimento da "condição estável" do sistema após desafios patológicos agudos ou crônicos, tal como após estresse celular ou psicológico, é a função mais reconhecida do sistema endocanabinoide. Os papéis homeostáticos salientes do sistema endocanabinoide podem ser retratados aproximadamente como 'relaxar, comer, dormir, esquecer, e proteger'.
      Por ser um agonista parcial dos receptores canabinoides, o THC possui o potencial para hiperestimular esses neuroreceptores, levando à sua dessensibilização e à regulação decrescente transitória de receptores canabinoides. Dessensibilização descreve a rápida atenuação de sinal em resposta à estimulação de células por agonistas do receptor. As alterações na eficiência de acoplamento dos receptores para sinalizar vias de transdução e a internalização do receptor são responsáveis pela dessensibilização e o desenvolvimento de tolerância farmacodinâmica. Estudos em humanos mostram que a densidade do receptor CB1 retorna aos níveis normais após cerca de um mês de abstinência da Cannabis. 
      Do ponto de vista medicinal, o desenvolvimento de tolerância não é necessariamente desvantajoso. Muitos pacientes frustrados com a ineficácia das medicações aceitas pelos estabelecimentos médicos, experimentam Cannabis pela primeira vez e sentem um alívio imediato de seus sintomas persistentes, e com o tempo esses usuários medicinais vem a perceber que eles desenvolvem tolerância aos efeitos colaterais secundários da Cannabis, ao mesmo tempo que desenvolvendo pouca ou nenhuma tolerância ao seus benefícios terapêuticos. 
      Qualquer tentativa de resumir os efeitos da Cannabis, ou de qualquer droga psicoativa, é necessariamente uma simplificação visto que o uso de drogas psicodélica envolve experiências subjetivas. Além disso, os efeitos da Cannabis variam de acordo com a experiência do usuário, dosagem, modo de administração, e estado mental no momento do consumo. De qualquer maneira, os efeitos do consumo de Cannabis são bem reconhecidos. Ela induz uma "intoxicação" psicoativa levemente eufórica que leva a uma ligeira diminuição das funções psicomotoras e cognitivas. 
      Em alguns casos, dependentes sobretudo da interação com hormônios do estresse, fitocanabinoides podem induzir uma variedade de efeitos psíquicos intensamente desagradáveis, incluindo ansiedade, pânico, paranoia, e sentimentos de morte iminente, e raramente pode levar a uma psicose aguda mais duradoura envolvendo delírios e alucinações (para uma revisão detalhada do assunto leia o tópico Cannabis, ansiedade, depressão, e psicose). Cannabis também pode induzir um aumento significativo na frequência cardíaca e uma redução da pressão arterial devido à vasodilatação, causando o "olho vermelho" clássico, estimulação do apetite (conhecida como "larica"), boca seca, e vertigens. Esses podem ser considerados como efeitos adversos, mas são todos baseados em biologia básica. 
      Os efeitos da Cannabis podem ser divididos em:
      Efeitos psicológicos (euforia, bem-estar, disforia, ansiedade, despersonalização, agravamento de estados psicóticos)
      Efeitos na percepção (percepção sensorial intensificada, distorção da percepção de espaço e tempo, distorção da capacidade de compreensão, alucinações)
      Efeitos sedativos (depressão generalizada do sistema nervoso central, sonolência, sono)
      Efeitos na cognição (fragmentação de pensamentos, confusão mental, diminuição da memória, redução global do desempenho cognitivo)
      Efeitos na função motora (aumento da atividade motora seguido por inércia e incoordenação, ataxia, disartria, tremores, fraqueza, espasmos musculares)
      Fluxo sanguíneo cerebral (aumento de forma aguda, diminuiu com a utilização crônica)
      Sistema cardiorrespiratório (taquicardia com dosagem aguda; bradicardia com o uso crônico)
      Débito cardíaco (aumento da produção e demanda de oxigênio do miocárdio)
      Oxigenação (pequenas doses estimulam, doses maiores deprimem)
      Broncodilatação (tosse, mas tolerância se desenvolve)
      Circulação periférica (vasodilatação, vermelhidão da conjuntiva, hipotensão postural)
      Efeitos analgésicos (similares em eficácia à codeína)
      Efeitos antieméticos (com dosagem aguda; efeito revertido com doses maiores ou uso crônico)
      Apetite (aumento de forma aguda, diminuiu com a utilização crônica)
      Tolerância (para a maioria dos efeitos comportamentais e somáticos com o uso crônico)
      THC imita o efeito de endocanabinoides, mas em contraste a essas substâncias, THC não é rapidamente metabolizado no local da operação, e não só funciona em locações específicas, mas ativa simultaneamente todos os receptores canabinoides. Ao invés de simplesmente substituir AEA e 2-AG (canabinoides produzidos naturalmente pelo nosso organismo), a Cannabis e seus muitos componentes funcionam, em parte, como um 'pontapé inicial' no sistema endocanabinoide. CBD, em particular, ganhou atenção precoce a esse respeito. Ao inibir a degradação do endocanabinoide AEA, CBD intensifica e prolonga o efeito do THC. A presença (aumentada) de AEA impede o THC de interagir com receptores canabinoides. CBD é um agonista fraco dos receptores canabinoides, mas é capaz de antagonizar os efeitos do THC até mesmo quando esse está presente em doses baixas. Além disso, doses mais elevadas de CBD podem potenciar doses mais baixas de THC por intermédio do aumento no nível de expressão de receptores CB1. CBD também interage com diversos récem descobertos receptores canabinoides, e é um antagonista para o receptor 5-HT1A (responsável por alguns dos efeitos antipsicóticos e ansiolíticos), entre outros.
      CBD por si só não possui quase nenhum efeito sobre processos fisiológicos normais. Só quando um estímulo (tais como dor ou uma reação de choque) ou outro canabinoide (como THC) perturba a tonalidade normal do sistema endocanabinoide é que o efeito do CBD é expresso. A Cannabis é considerada um medicamento sinérgico que possui compostos primários farmaceuticamente ativos, juntamente com muitos outros compostos secundários que tanto aumentam os efeitos de um composto farmacêutico primário como mitigam os seus efeitos adversos. A maioria dos fitocanabinoides auxiliares possui um perfil farmacológico relativamente semelhantes entre si em relação às suas atividades independentes de receptores canabinoides: Eles modulam a atividade dos canais de receptores de potencial transitório, transportadores de nucleosídeo equilibrativo, e de proteínas que facilitam a inativação endocannabinoide. 
       
      10. TERPENOS
      Terpenos são uma grande e diversificada classe de compostos orgânicos de origem vegetal, e são essenciais na formação dos sabores e aromas da Cannabis, assim como contribuem para seus diferentes efeitos. Mais de 200 terpenos são encontrados na Cannabis (na espécie como um todo), alguns em menor e outros em maior quantidade. Terpenos desempenham um papel fundamental no reino vegetal em aspectos como defesa da planta e estresses ambientais, assim como matéria-prima química de moléculas mais complexas, como fitocanabinoides. Muitos terpenos vegetais agem sinergicamente com outros terpenos e alguns servem tanto para catalisar quanto para inibir a formação de outros compostos
      Fitocanabinoides e outros terpenos compartilham suas vias biossintéticas e os espaços onde se acumulam. Eles são biossintetizado nos tricomas glandulares de folhas e flores, e se acumulam em grandes proporções na resina exalada. Tricomas capitados sésseis (abundantes na superfície das folhas) são mais especializados em sintetizar sesquiterpenos (mais amargos), atuando contra animais herbívoros, enquanto tricomas capitados pedunculados (abundantes nas flores) são especializados na síntese de monoterpenos, ajudando a repelir insetos. Monoterpenos (limoneno, mirceno, pineno) geralmente predominam na planta, mas após o processo de secagem e cura tradicional (1 semana de secagem + 3 meses de cura) há uma perda de mais de 50% nos monoterpenos, e consequentemente um aumento na proporção relativa de sesquiterpenos (especialmente cariofileno), como também frequentemente ocorre em extratos.  A proporção de terpenos na planta é normalmente inferior a 1%, mas pode atingir até 10% da composição dos tricomas. Assim como observado para fitocanabinoides, a produção de terpenos aumenta com exposição à luz, mas diminui com a fertilidade do solo, corroborando técnicas favorecendo o crescimento floral sobre o crescimento foliar, como as utilizadas na produção da La Mona Amarilla colombiana. A viscosidade das glândulas secretoras é devido às secreções de terpenos sobre a superfície exterior das glândulas. Em ambientes com muito vento, secos ou frios, secreções tendem a volatilizar mais rapidamente, diminuindo a viscosidade; em contraste, em ambientes quentes e sem muito vento (seja ao ar livre ou sob a intensa luz do grow) secreções parecem acumular mais facilmente, e a superfície da glândula pode tornar-se muito pegajosa.
      Terpenos são farmacologicamente versátil: eles são lipofílicos, interagem com as membranas celulares, canais de íons neuronais e musculares, receptores de neurotransmissores (inclusive receptores canabinoides), receptores olfativos, sistemas de segundos mensageiros, e enzimas. Há muitos relatos indicando que terpenos são agentes realçadores do transporte/absorção de outros compostos. Um mecanismo de importância particular é o seu efeito na permeabilidade das membranas celulares, especialmente da barreira sangue-cérebro, aumentando o transporte de fitocanabinoides para o cérebro. Terpenos possuem atividade analgésica, anestésica, ansiolítica, anti-alérgica, anti-catabólica, anti-hipertensiva, anti-inflamatória, anti-úlcera, anticancer, anticonvulsivante, antidepressiva, antifúngica, antihiperglicêmica, antihipernociceptiva, antinociceptiva, antiparasitária, antimicrobial, antioxidante, antipsicótica, antiviral, broncodilatadora, estimulante, imunomoduladora, relaxante muscular, sedativa, e vasorelaxante. 
      THC puro é unidimensional, mas em conjunto com pequenas quantidade de outros fitocanabinoides, terpenos, e outros compostos, cada variedade ganha sua própria personalidade visto que eles modulam os efeitos psicoativos e fisiológicos da Cannabis, afetando o humor, sensibilidade e percepção dos sentidos, assim como percepções corporais, tais como equilíbrio e dor. Segue um breve resumo de 9 dos terpenos (6 monoterpenos e 3 sesquiterpenos) mais comuns nas variedades de Cannabis cultivadas, e consequentemente parcialmente responsáveis pelas variações fenotípicas e biológicas de variedades de Cannabis. 
      Mirceno é o monoterpeno mais prevalente na maioria das variedades de Cannabis. Na indústria, óleos essenciais que contêm mirceno são usados como intermediários na produção de álcoois de terpenos (geraniol, nerol, e linalol), que, por sua vez, servem como intermediários na produção de produtos cosméticos, sabões e detergentes, e como um aditivo aromatizante em alimentos e bebidas. Por ser o terpeno sedativo mais proeminente na Cannabis, é a sua quantidade que geralmente define se uma variedade terá os efeitos sedativos comumente associados ao biótipo indica (embora seja um monoterpeno bastante comum em ambos biótipos). Possui um odor herbáceo amadeirado, balsâmico, e picante, com nuances de aipo, e um sabor frutoso cítrico adocicado e ligeiramente mentolado, com tons de manga tropical. Está associado a um efeito ansiolítico, analgésico, e sedativo.
      Limoneno é um dos monoterpenos mais comuns na natureza. É um dos principais constituintes em vários óleos de citrinos (p. ex. laranja, limão) e, devido ao seu sabor cítrico, é amplamente utilizado como um agente aromatizante em perfumes, cremes, sabões, produtos de limpeza doméstica e, em alguns produtos alimentares, tais como bebidas de frutas e sorvetes. Limoneno é precursor de diversos outros monoterpenos através de esquemas sintéticos específicos da espécie. Possui um odor e sabor cítrico doce. Limoneno contribui para uma brisa cerebral e eufórica por ser o potenciador mais eficaz entre os terpenos presentes na Cannabis, com 70% de captação pulmonar. Embora esteja associado ao efeito de sativas, limoneno é bastante comum em ambos biótipos.
      Pineno é um monoterpeno encontrado na natureza em dois isômeros estruturais: alfa-pineno e beta-pineno, sendo alfa-pineno mais abundando nas variedades de Cannabis. Alfa-pineno é o terpeno mais amplamente encontrado na natureza, e é altamente repelente a insetos. Pineno tem aplicações industriais em fragrâncias, agentes aromatizantes, produtos farmacêuticos, e biocombustíveis. Possui um odor lenhoso de terebintina que remete a pinheiros, com tons de alecrim, e nuances herbais, sendo o principal responsável pelo odor pungente das variedades Diesel (tióis, e não terpenos, são provavelmente os compostos responsáveis pelo mau cheiro das variedades Skunk). Possui um sabor lenhoso de pinho, com tons de cânfora, e nuances herbais picantes e ligeiramente tropicais. Está associado a um efeito que estimula o estado de alerta e a retenção da memória.
      Terpinoleno é um monoterpeno encontrado especialmente em algumas ervas Labiatae (família das hortelãs). Terpinoleno é um componente de grande volume em muitos produtos de limpeza, sendo usado em formulações de sabões, detergentes, cremes, loções, e perfumes. Está associado principalmente com plantas de biótipo sativa (Cannabis sativa ssp. indica biótipo sativa). Possui um odor de pinho cítrico e doce, com nuances de limão, e um sabor de limão amadeirado, com nuances herbais e florais. Apesar de sua propriedade sedativa, está associado a uma brisa calmante, límpida, e serena. Linalol é um monoterpeno comumente encontrados como um componente importante dos óleos essenciais de várias espécies de plantas aromáticas (p. ex. lavanda, magnólia, coentro). Linalol também está presente em muitas frutas comestíveis, como goiaba, pêssego, ameixa, abacaxi, e maracujá, e também no tomate. É utilizado em cosméticos, perfumes, e agentes aromatizantes. Linalol é crucial para a produção de vitamina E no organismo, o que faz com que seja um terpeno muito importante para a saúde. Possui odor e sabor floral cítrico e ceroso, com tons picantes. Linalol está associado principalmente com plantas de biótipo indica (Cannabis sativa ssp. indica biótipo indica), e possui efeitos sedativos, ansiolíticos, e calmantes.
      Ocimeno é um dos monoterpenos mais comuns na natureza, sendo encontrado em uma variedade de frutas e plantas, como manga, maçã, pepino, salsa, hortelã, e manjericão. Alfa-ocimeno e as duas formas estereoisoméricas de beta-ocimeno, cis e trans, diferem na posição da ligação dupla isolada. Ocimenos são emitidos a partir das folhas em resposta ao dano por herbívoros ou ferimento mecânico, e servem como um sinal químico para a atração de parasitoides e predadores de herbívoros de plantas, e como um atrativo para insetos polinizadores. Ocimeno também funciona como um feromônio envolvido na regulação social em colônias de abelhas. Ocimeno é usado como um material de partida para a fabricação de um número de produtos químicos de perfumes, bem como um agente aromatizante em alimentos. Possui um odor e sabor cítrico lenhoso e tropical, com nuances vegetais. Sua contribuição para a brisa é desconhecida ou inexistente.
      Cariofileno é um dos sesquiterpenos mais comuns no reino vegetal, ocorrendo em mais de 50% das famílias angiospermas (plantas de floração). É geralmente o sesquiterpeno mais comumente encontrado na Cannabis, e é frequentemente o terpeno predominante nos extratos de Cannabis, particularmente se eles foram processados sob calor para descarboxilação. Cariofileno serve como uma defesa contra agente patogênicos que invadem tecidos florais e, assim como outros voláteis florais, desempenha múltiplos papéis na defesa da planta e atração de polinizadores. Várias atividades biológicas são atribuídas ao cariofileno, incluindo atividade neuroprotetora. É também um ligante não funcional do receptor CB2, e considerado um fitocanabinoide dietético. É popularmente usado em alimentos, cosméticos, e fragrâncias como um agente conservante, aditivo, e aromatizante. Possui um odor lenhoso picante, e um sabor lenhoso picante, com tons de cânfora, e nuances cítricos. Sua contribuição para a brisa é desconhecida ou inexistente.
      Humuleno é um sesquiterpeno encontrado em um número cada vez maior de plantas aromáticas em todos os continentes, mas que foi encontrado primeiramente nos óleos essenciais do lúpulo (Humulus lupulus), do qual deriva o seu nome. Humuleno é um isômero de beta-cariofileno, e os dois são frequentemente encontrados em conjunto em várias plantas aromáticas, e muitas vezes também na Cannabis. Humuleno e seus produtos de reação no processo de fermentação da cerveja dá a muitas cervejas seu aroma de lúpulo. Possui um odor de lúpulo amadeirado e ligeiramente amargo, com tons picantes. É um dos principais terpenos que dá o aroma característico da Cannabis. Sua contribuição para a brisa é desconhecida ou inexistente.
      Nerolidol é um sesquiterpeno natural presente em várias plantas medicinais de odor floral, como gengibre, jasmim, lavanda, e erva-cidreira. Na indústria, nerolidol é amplamente utilizado em cosméticos e produtos de limpeza, e como um agente aromatizante em alimentos. Por ser um potente intensificador da absorção através da pele, variedades ricas em nerolidol são uma boa opção para preparações tópicas de Cannabis. Possui um odor floral amadeirado, com tons cítricos, e um sabor floral amadeirado, com tons de melão cítrico. Nerolidol possui efeitos sedativos, ansiolíticos, e calmantes.
      Ed Rosenthal, um horticulturista e autor, sugere que o consumo de manga cerca de 30 minutos antes do consumo de Cannabis cria uma brisa mais rápida e potente. Embora não seja propriamente um mito, existem muitas variáveis envolvidas influenciando o possível mérito dessa ação. Para começar, nem toda variedade de manga é rica em mirceno. Altas concentrações de mirceno são uma característica única de cultivares do Velho Mundo (Europa, África, e Ásia). Segundo, mirceno está associado com uma brisa sedativa, e a maioria dos usuários de Cannabis não busca aquela brisa onde você está tão sedado que você "não consegue se mexer". Terceiro, a quantidade de manga necessária para provocar efeitos notáveis é geralmente cerca de 500 gramas de uma manga de um cultivar rico em mirceno. Quarto, existem outros terpenos na manga, alguns inclusive em quantidades geralmente superiores ao mirceno, como é o caso do limoneno, careno, terpinoleno, e felandreno, que também sinergizam com os fitocanabinoides e influenciam os efeitos da brisa. 
       
      11. POTÊNCIA
      Os produtos químicos psicoativos da Cannabis são produzidos em pequenas glândulas epidérmicas secretoras especializadas. Essas são denominadas "tricomas" ou "pêlos" (o primeiro termo é frequentemente restrito a plantas e o segundo a animais). Tricomas são particularmente abundantes nas inflorescências da planta, presentes em menor número nas folhas, pecíolos, e caules, e ausente nas raízes e sementes. A planta fêmea produz 5 formas de tricomas: 1. Tricomas unicelulares simples (não glandular), que possuem a função de reduzir a perda de água e fornecer um pouco de isolamento contra temperaturas extremas. 2. Tricomas cistolíticos (não glandular), que reduzem a palatabilidade da folhagem aos predadores. 3. Tricomas bulbosos, que servem para alertar a planta da movimentação de insetos na sua superfície. 4. Tricomas capitados sésseis, que oferecem proteção ao tecido da planta contra predadores. 5. Tricomas capitados pedunculados, abundantes no cálice, bráctea, bractéola e pecíolo da planta fêmea, formam uma densa pubescência que haje como barreira física para pequenos insetos fitófagos, e também providenciam um pouco de proteção contra ventos frios dessecantes. Ao refletir a luz infra-vermelha, uma pubescência densa de tricomas tem também propriedades de resfriamento e, sendo igualmente eficaz em todo o espectro de luz, reflete também a luz ultra-violeta. 
      Em tricomas glandulares de plantas fêmeas, a parte essencial da glândula é uma cabeça mais ou menos hemisférica, por vezes comparada ao tamanho da cabeça de um alfinete. Dentro da cabeça, em sua base, há "células de disco" secretoras especializadas, e acima dessas, há uma cavidade onde a resina secretada é acumulada, ampliando a bainha de cobertura (uma cutícula de cera) da cabeça em uma bolha esférica. A resina é uma mistura pegajosa de uma variedade de fitocanabinoides e terpenos produzida especialmente nos tricomas capitados pedunculados, mas também em níveis menores, cerca de 20 vezes, nos tricomas capitados sésseis (que são geralmente muito menores do que tricomas capitados pedunculados). Tricomas bulbosos são os menores, e ainda não existe evidência direta da presença de fitocanabinoides nesses tricomas. A capacidade da planta para biossintetizar fitocanabinoides está provavelmente ligada a quantidade de energia disponível.
      O teor de fitocanabinoides difere em diferentes partes da planta, aumentando na seguinte ordem: caules grandes, caules menores, folhas mais velhas e maiores, folhas mais novas e menores, flores, brácteas perigonais que cobrem as flores femininas e, consequentemente, os frutos. Quantidade absoluta de fitocanabinoides produzidos por uma planta individual depende de traços de crescimento e de desenvolvimento que são provavelmente: 1. Determinados poligênicamente, 2. Não estão relacionados com vias biossintéticas, 3. Estão sujeitos a uma forte modificação ambiental. Plantas são selecionadas por se diferenciar na arquitetura, no perfil fitocanabinoide (biótipos geográficos geralmente possuem um ou mais fitocanabinoides mais raros em quantidades incomuns), no perfil terpenóico (uma variedade de perfis de óleos essenciais foram selecionados), na cor das inflorescências (roxas e brancas são bastante populares), e na concentração e na distribuição das glândulas secretoras (densidades muito grandes das glândulas e glândulas maiores).
      As variedades de Cannabis diferem amplamente no tamanho das glândulas. Um estudo recente (2015) estabeleceu uma correlação entre cabeças da glândulas grandes e níveis elevados de THC. Além de terem sido selecionadas para o tamanho e densidade da glândula, variedades de Cannabis para a produção de drogas também foram selecionadas por inflorescências maiores e mais numerosas, a fim de fornecer mais área de superfície para tricomas glandulares, o que aumenta a potência. Outro traço associado com potência é maturação tardia. A maioria dos connoisseurs vai te dizer que a melhor Cannabis que eles fumaram na vida foi uma sativa equatorial ou subequatorial como Acapulco Gold, Panama Red, Original Haze, ou Malawi Gold.
      As condições exigidas para o catabolismo oxidativo de THC para CBN não são as mesmas que aquelas que causam a coloração âmbar nos tricomas (embora haja uma maior probabilidade de se encontrar CBN em tricomas mais escuros). O que causa essa coloração é desconhecido, mas acredita-se que possa ser devido a entrada de oxigênio na cabeça de resina através do tecido cicatricial quando essa se separa das células epidérmicas no caule dos tricomas, ou, alternativamente, ser causada pelos biprodutos do catabolismo do conteúdo das células secretoras. Mas apesar de não existir ligação direta, a coloração dos tricomas é frequentemente usada como indicativo para a colheita. Isso acontece porque existe uma tendência fraca, mas significativa para a associação de uma potência menor com tricomas de cores mais escuras.
      Embora a perda de transparência seja uma característica genotipicamente-dependente, as glândulas dos tricomas geralmente começam com a cabeça transparente ou levemente âmbar, passam a ficar turvas e opacas conforme amadurecem, e durante a senescência vão ficando marrons, com esse processo de escurecimento continuando durante a colheita, secagem, e cura. Quando a planta atinge sua maturidade e a criação de novas flores cessa, o perfil fitocanabinoide e o perfil terpenóico passam a ser estáveis, e se mantém assim por algumas semanas, criando uma janela relativamente grande para a colheita. Colher muito cedo (enquanto a maioria dos tricomas capitados pedunculados ainda estão transparentes) irá maximizar a proporção de THC na matéria vegetal. No entanto, recomenda-se esperar que a planta amadureça mais, e desenvolva outros compostos que vão modular e balancear os efeitos do THC, tornando a brisa mais agradável. Mas isso só funciona na teoria visto que a maioria dos cultivadores, seja por impaciência, preferência, ou por um melhor retorno financeiro, costuma realizar suas colheitas relativamente cedo.
      A potência da Cannabis é tipicamente julgada de acordo com as concentrações de THC, seu constituinte psicoativo primário. No entanto, a planta Cannabis possui diversos outros químicos, incluindo outros fitocanabinoides e terpenos que contribuem para a potência por intermédio da moderação dos efeitos do THC. Por exemplo, é de conhecimento comum a capacidade do CBD de atenuar ou bloquear os efeitos do THC através de uma gama de domínios, mais notavelmente seus efeitos psicoativos negativos. 
      Extratos, como haxixe ou óleo de Cannabis apenas condensam uma maior quantidade de fitocanabinoides em uma menor superfície. Não é a potência da Cannabis que vem aumentando ao longo dos anos, mas sim o conhecimento das técnicas e cuidados apropriados na reprodução e no cultivo da Cannabis, e na produção de seus extratos que vem sendo aperfeiçoados. Além disso, novas tecnologias foram criadas para recolher e concentrar as cabeças dos tricomas glandulares ricas em THC, permitindo a criação de novas formas mais potentes de concentrados.
      A potência de uma amostra testada em laboratório é expressa em percentagem, de modo que 1% seja equivalente a 10 miligramas de um determinado fitocanabinoide por grama de material vegetal. Uma vez que o teor máximo de THC, CBD, outros fitocanabinoides e terpenos pode, e geralmente é, altamente variável para a mesma variedade, e até mesmo para diferentes buds de uma mesma planta, os seedbanks acabam testando várias amostras no intuito de escolher aquela que melhor exiba o potencial genético da variedade. Na literatura científica, uma concentração de THC de 0.9% é sugerida como um nível mínimo prático para atingir um efeito "inebriante", e concentrações de 0.3% a 0.9% são consideradas como possuindo "um potência de droga pequeno".
      Agora, se você fumar 1 grama (aproximadamente 1 baseado) de uma variedade com 1% de THC, você estará consumindo cerca de 5 miligramas de THC (e cerca de 5 miligramas se perdem durante a transferência do material vegetal para a fumaça). Só que dessas 5 miligramas, você perde novamente cerca 50% ao exalar a fumaça inalada. Ultimamente cerca de 25% (2.5mg) das 10 miligramas de THC presentes no baseado de 1 grama entram na circulação sistêmica, e somente cerca de 2.5 microgramas (1%) dessas 2.5 miligramas de THC que entraram na circulação penetram no cérebro. Alternativamente, 75 microgramas de THC em um baseado com 30% THC penetram o cérebro. 
      Muito se ouve sobre o aumento da potência da Cannabis e o potencial prejudicial de altas concentrações de THC na saúde mental. Embora THC possua de fato o potencial para provocar efeitos colaterais indesejados como, por exemplo, ataques de pânico ou psicoses transitórias, isso está relacionado muito mais com a interação dos fitocanabinoides da Cannabis com hormônios do estresse e com endocanabinoides produzidos pela pessoa, do que com a potência da Cannabis. (para uma revisão detalhada do assunto leia o tópico Cannabis, ansiedade, depressão, e psicose).
      Além do mais, a dose está inversamente relacionada com a experiência do usuário; assim, a pessoa mais vulnerável é o usuário inexperiente que, inadvertidamente (muitas vezes, precisamente porque o usuário inexperiente não tem familiaridade com a droga), toma uma dose grande que produz mudanças perceptivas e somáticas para as quais o usuário está despreparado. Isso é facilmente comprovado visitando os subfóruns relacionados à saúde, onde embora existam alguns relatos de usuários experientes que surtaram ou tiveram um colapso mental ao utilizarem a Cannabis em um momento de grande fragilidade emocional, a maioria dos relatos são de usuários novatos que abusaram da dose (quase sempre prensados de pouca potência), e que experienciaram majoritariamente ataques de pânico. 
      Atualizado pela última vez: 09/2016
    • Por Shortlived
      Cannabis, ansiedade, depressão, e psicose
       
      1. Introdução
      Praticamente toda semana algum usuário cria um novo tópico para relatar efeitos negativos após consumir Cannabis. Os potenciais efeitos negativos da Cannabis no funcionamento psicológico dizem respeito sobretudo a sintomas de ansiedade, depressão, psicose, e funcionamento cognitivo debilitado. Apesar de todos os usuários estarem potencialmente sujeitos a esses efeitos negativos, pessoas com um histórico de psicose, depressão, ansiedade, ou outros transtornos mentais, bem como pessoas com problemas cardiovasculares preexistentes são particularmente vulneráveis. 
      Muitas transtornos mentais, incluindo transtornos de ansiedade, humor, e psicóticos, seguem o modelo diátese-estresse. Esse modelo descreve como a predisposição/vulnerabilidade biológica para transtornos mentais particulares, aka diátese, pode ser desencadeada por eventos de vida estressantes. Simplificando, imagine a predisposição/vulnerabilidade biológica de um indivíduo para determinados transtornos como baldes, e esses baldes possuem buracos de tamanhos variados perfurados em diferentes níveis (genética; incluindo os genes que codificam para o sistema endocanabinoide). Os estresses que nós experienciamos na vida é a água que é derramada no balde, e o fluxo de água varia em intensidade (meio ambiente). Conforme vivemos nossa vida, os buracos em nossos baldes podem se expandir, assim como podem ser criados novos buracos, ou os buracos podem ser tapados, bem como bloqueados. Se o balde está cheio a ponto de transbordar você experiencia, por exemplo, um surto psicótico, um colapso nervoso, um ataque de pânico. 
      Quanto menor e com menos buracos um balde é, menor a quantidade de água necessária para enchê-lo. É preciso considerar tanto o balde como o fluxo de água a fim de determinar o grau de risco para o aparecimento ou a recorrência de um transtorno mental. Se um indivíduo possui um balde grande e/ou todo esburacado, será necessário um fluxo extremamente alto de água para encher o balde e desencadear sintomas daquele transtorno. Por outro lado, se um indivíduo possui um balde pequeno e com poucos buracos, então o fluxo de água necessário para sintomas serem exibidos também será menor. Esses fatores tornam impossível prever quem vai desenvolver um transtorno mental. Existem pessoas com predisposição genética cuja exposição ambiental é não contributiva ou melhora o seu componente genético, impedindo qualquer manifestação patológica. Assim como existem pessoas que não possuem qualquer predisposição genética, mas que estão com suas vidas tão ferradas que o componente genético passa a ser trivial.
      Embora o consumo de THC preveja a escalada de riscos para transtornos de ansiedade, depressão, psicose, e deficiências cognitivas, especialmente entre adolescentes, uma prevalência notavelmente alta de uso comórbido de Cannabis ocorre em pacientes desses transtornos como uma forma de automedicação. O problema é que ambos potenciais efeitos benéficos e potenciais efeitos nocivos podem ocorrer da ativação exógena (ou inibição) do sistema endocanabinoide. A solução mais adequada para esse grupo de risco são variedades de Cannabis com níveis particularmente elevados de CBD para neutralizar os potenciais efeitos psicotrópicos negativos do THC e regular a tonalidade endocanabinoide. No texto que segue a relação entre o consumo de Cannabis, ansiedade, depressão, e psicose é explorada. 
      Primeiramente, no entanto, é importante ressaltar alguns pontos-chave:
      1. Fitocanabinoides funcionam de forma análoga ao sistema endocanabinoide; 2-AG é o principal agonista endógeno para os receptores canabinoides, enquanto AEA regula a tonalidade endógena e atividade biológica do 2-AG. Paralelamente, THC é o principal agonista exógeno para os receptores canabinoides, enquanto CBD regula a tonalidade endocanabinoide e atividade biológica do THC.
      2. Somente quando um estímulo (tais como dor ou uma reação de choque) ou outro canabinoide (tal como THC) perturba a tonalidade normal do sistema endocanabinoide é que o efeito do CBD é expresso (nesse sistema).
      3. A ação do THC "sobrecarrega" o sistema endocanabinoide, provocando uma regulação decrescente transitória na expressão dos receptores canabinoides, ao passo que a ação do CBD "desfadiga" o sistema endocanabinoide, restaurando os níveis de receptores canabinoides.
      4. Estresse crônico causa hipofunção/desregulação endocanabinoide, e hipofunção/desregulação da sinalização endocanabinoide pode conduzir a transtornos mentais, particularmente durante a adolescência.
      5. Existe uma hipofunção/desregulação do sistema endocanabinoide em transtornos de humor, ansiedade, e psicóticos.
      6. Desregulação afetiva (ansiedade, depressão) e distorção da realidade (psicose) estão correlacionadas, mas são dimensões separáveis da psicopatologia.
       
      2. Estresse, plasticidade cerebral, e saúde
      Estresse e experiências estressantes têm sido há muito tempo implicados na etiologia e fisiopatologia da saúde física e mental crônica. O cérebro é o órgão central do estresse e adaptação a estressores porque ele não só percebe o que é ameaçador ou potencialmente ameaçador e inicia respostas comportamentais e fisiológicas a esses desafios, mas também é um alvo das experiências estressantes e dos hormônios e outros mediadores da resposta ao estresse. Os mediadores hormonais e neuronais da resposta ao estresse afetam a maioria dos sistemas de órgãos do corpo, e estressores prolongados ou severos podem ter sequelas fisiológicas e comportamentais que podem se estender ao longo da vida e para além dela, ao longo de gerações.
      Ativação de curto prazo de mediadores de estresse pode ser benéfica para lidar com desafios, mas a ativação de longo prazo é acompanhada de efeitos cumulativos, potencialmente prejudiciais referidos como "carga alostática e sobrecarga". Assim, apesar do cérebro ser o condutor dessa orquestra neuroendócrina, ele também é moldado de muitas maneiras por sua música, com resultados tanto adaptativos quanto patogênicos.
      Canonicamente, podemos rotular uma experiência estressante como "boa", "tolerável", ou "tóxica", dependendo do grau em que um indivíduo possui o controle sobre um determinado estressor e sistemas de apoio e recursos em vigor para lidar com ele. Atender às demandas impostas por experiências estressantes pode levar ao crescimento, adaptação, e a formas benéficas de aprendizagem que promovam resiliência e boa saúde. Por outro lado, outras experiências estressantes podem promover a proliferação de mudanças neurais, fisiológicas, comportamentais, cognitivas, e emocionais recursivas que aumentam a vulnerabilidade a problemas de saúde e morte prematura por várias condições médicas crônicas.
      O cérebro processa não só a entrada de dados sensoriais externos do ambiente mas também dos dados internos do corpo. Esse processamento paralelo permite ao cérebro controlar e coordenar os ajustes fisiológicos e comportamentais provocados por desafios externos ou internos à homeostase. Esses ajustes podem promover adaptação, tais como a calibração do débito cardíaco e da resistência vascular periférica para fornecer suporte hemodinâmico e metabólico para grandes grupos musculares necessários para ações imediatas ou antecipatórias (p.ex., escapar de um predador).
      Os sistemas biológicos que promovem tais adaptações incluem o eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal, o sistema nervoso autônomo, o sistema metabólico, o intestino, os rins, e o sistema imunológico (incluindo a rede de células produtoras de citocinas por todo o corpo). Os principais biomediadores desses sistemas (p.ex., cortisol, transmissores simpáticos e parassimpáticos, citocinas, hormônios metabólicos), operam dentro de uma rede interativa dinâmica, não-linear, em que os mediadores regulam crescentemente-decrescentemente uns aos outros, dependendo de fatores tais como a sua concentração, localização no corpo, e padrões temporais sequenciais. É importante ressaltar que as atividades desses sistemas e mediadores são influenciadas pela composição genética, histórico do desenvolvimento, e estados comportamentais e psicológicos atuais do indivíduo.
      Os ajustes dos sistemas biológicos acima referidos permitem, assim,  a proteção e adaptação do indivíduo a desafios específicos por um processo chamado alostase. Enquanto vários parâmetros fisiológicos, tais como o oxigênio e pH sanguíneo, são mantidos em uma variação homeostática estreita, muitos outros parâmetros variam na sua funcionalidade com a hora do dia e em resposta às exigências externas e internas. Mediadores dinâmicos de alostase expressando variabilidade acentuada facilitam, portanto, a adaptação, ao passo que os parâmetros associados com a homeostase não expressam variabilidade comparável como meio de promoção de adaptação. Alostase é essencial para a manutenção da homeostase em face de demandas externas e internas que são registradas pelo cérebro.
      Criticamente, no entanto, adaptação alodinâmica tem um preço, e o custo dessa adaptação é chamado de carga alostática, o "uso e desgaste" no corpo e cérebro. Sistemas alostáticos promovem adaptação a experiências estressantes e geralmente são mais úteis quando rapidamente mobilizados e terminados. Quando eles são prolongados ou não terminados prontamente, sistemas alostáticos prejudicam a saúde física e mental, principalmente por causa de seus efeitos sobre a plasticidade cerebral. A incapacidade de engajar sistemas alostáticos quando necessário também produz uma carga sobre o corpo porque a proteção normal proporcionada por esses sistemas está deficiente.
      Um aspecto importante de alostase e carga alostática é a noção de antecipação. Aqui, antecipação implica estados psicológicos, tais como apreensão, preocupação, e ansiedade, bem como preparação cognitiva para um evento futuro. Antecipação resultante da atividade neuronal do cérebro pode conduzir à produção de biomediadores alostáticos, e esses estados de ansiedade e antecipação prolongados podem resultar em carga alostática. Outros aspectos importantes de respostas individuais ao estresse em relação a alostase e carga alostática são comportamentos que promovam a saúde ou que sejam prejudiciais a saúde, tais como tabagismo, consumo de álcool, sono, dieta, e atividade física, chamados coletivamente de "estilo de vida". Esses podem ser incorporadas dentro da noção geral de alostase, e também contribuem para a carga alostática. Por exemplo, uma dieta ocidental acelera a aterosclerose e progressão para diabetes tipo II; fumar acelera a aterogênese; exercício e sono restaurador promovem o funcionamento cognitivo e saúde. 
      O cérebro é o órgão central de processos de estresse e adaptação alodinâmica, e é um alvo-chave de carga alostática. Dentro do cérebro, um circuito neural distribuído, dinâmico, e plástico coordena, monitora, e calibra sistemas de respostas comportamentais e alodinâmicas para lidar com as demandas de estressores particulares. Esse circuito inclui o hipocampo e a amígdala, que são estruturas límbicas do cérebro que processam experiências através da interação com áreas cerebrais vegetativas inferiores (tais como o hipotálamo e o tronco cerebral) e áreas corticais superiores, particularmente o córtex pré-frontal. Consequentemente, o hipocampo, amígdala, e córtex pré-frontal podem ser vistos como coordenando comportamentos com sistemas de respostas alodinâmicas a serviço de lidar com desafios externos e internos, e ameaças à homeostase e bem-estar. Eles também servem funções importantes na cognição, emoções, e controle dos impulsos, e ajudam a interpretar, com base em experiências atuais e do passado, se um evento é ameaçador ou estressante de outra maneira, influenciando assim respostas alostáticas.
      Um resultado fundamental do estresse é a remodelação estrutural da arquitetura neural, que pode ser um sinal de adaptação bem sucedida, ao passo que a persistência dessas mudanças quando o estresse acaba indica resiliência falha. Perda de resiliência é uma característica fundamental dos transtornos de adaptação ao estresse (p.ex., transtornos de ansiedade, humor, psicóticos). Aminoácidos excitatórios e glicocorticóides possuem papéis fundamentais nesses processos, juntamente com uma lista crescente de mediadores extra e intracelulares, que inclui endocanabinoides e fatores neurotróficos derivados do cérebro. Esses mediadores operam em uma rede não-linear em que existem ações bifásicas de cada sistema mediador e interações recíprocas com características autolimitantes que também estão sujeitas a perturbações que podem levar a fisiopatologias. O resultado é um padrão de mudança contínua da expressão gênica mediada por mecanismos epigenéticos que podem alterar a estabilidade genômica. Mecanismos epigenéticos desempenham um papel na alteração da capacidade de resposta ao estresse, ansiedade, depressão, psicose, e plasticidade cerebral ao longo da vida e além, para as gerações seguintes. 
      Reversibilidade de formas não-adaptativas de plasticidade do cérebro relacionadas com o estresse é possível, e essa reversibilidade pode sustentar muitas formas de eficácia do tratamento. Sabe-se que muitos fatores de estresse humanos são melhor remediados por mudanças de comportamento significativas que afetem a exposição ao estressor (p.ex., ingerir menos glicose se pré-diabético ou diminuir as horas de trabalho em um trabalho estressante se hipertenso). Outros estressores estão relacionados mais com a percepção do estressor do que com o próprio estressor.
      Embora medicação seja o método mais fácil e mais conveniente no tratamento de tais transtornos, terapia comportamental cognitiva tem demonstrado ser tão eficaz quanto vários regimes de medicação que visam o tratamento de transtornos do humor e ansiedade, e sem os efeitos colaterais de medicamentos. Além disso, terapia cognitiva e medicação aparentam afetar muitos dos mesmos mecanismos neurais. Além de psicoterapia, intervenções comportamentais para aliviar a carga alostática incluem melhoria da dieta, atividade física regular/exercícios moderados, meditação, relaxamento/sono adequados, acesso a apoio e integração social, e restrição/redução do consumo de substâncias como cafeína, álcool, nicotina, e outras drogas.
       
      3. Resposta ao estresse e o sistema endocanabinoide
      Sistemas fisiológicos para fornecer recursos para lidar com o confronto com um estímulo potencialmente prejudicial (p.ex., elicitação de uma resposta de luta ou fuga) podem ser sub-divididos em dois eixos de estresse parcialmente independentes: O eixo simpático-adrenal-medular, incluindo componentes do sistema nervoso autônomo, e o eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal.
      O eixo simpático-adrenal-medular representa uma rede heterogênea de funções neurais e endócrinas, que são interligadas para ativar processos simpáticos. A liberação do fator liberador de corticotropina como neurotransmissor no locus coeruleus conduz à ativação de centros medulares, que controlam o sistema nervoso simpático. Quando ativado, os processos simpáticos podem estimular dois mecanismos com diferentes vias: uma via neural pelos gânglios, que inervam órgãos efetores sobre, principalmente, sinapses noradrenérgicas, e uma via endócrina que provoca a liberação de catecolaminas (p.ex, adrenalina e noradrenalina) para a circulação através das glândulas adrenais. Sob a divisão do sistema nervoso autônomo, essa resposta ajuda a regular a homeostase e alostase. 
      Ativação do eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal é uma resposta bem caracterizada ao estresse. Ativação do eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal resulta na liberação do hormônio liberador de corticotropina de células neurossecretoras do núcleo paraventricular do hipotálamo para os vasos portais, onde são então transportados para a glândula pituitária anterior e estimulam a liberação do hormônio adrenocorticotrófico na circulação geral. Por sua vez, o hormônio adrenocorticotrófico provoca a liberação de hormônios glicocorticóides (principalmente cortisol) a partir do córtex adrenal na circulação. Uma das principais funções de glicocorticóides durante experiências estressantes é mobilizar reservas de energia, o que permite ao organismo montar a resposta adequada a uma ameaça. Além disso, glicocorticóides produzem uma variedade de efeitos nos sistemas cardiovascular, imunitário, metabólico, e neuronal que facilitam respostas ótimas para estímulos aversivos.
      O cérebro desempenha um papel importante de governo na regulação do eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal baseado em parte no tipo de estressor. Estruturas corticolímbicas do prosencéfalo auxiliam na regulação de respostas do eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal induzidas por estresses psicológicos; o córtex pré-frontal, amígdala, e hipocampo, providenciam informações ao hipotálamo principalmente através dos núcleos da estria terminal.
      O córtex pré-frontal medial é subdivido em duas regiões com contribuições opostas para a resposta ao estresse: a região pré-límbica contribui para a inibição e terminação das respostas autonômicas e do eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal a estressores psicológicos, enquanto a região infra-límbica do córtex pré-frontal medial está associada com o início de respostas autonômicas e do eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal. Em contraste, estimulação do hipocampo tem um efeito inibitório na atividade do eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal (p.ex., diminuição da secreção de glicocorticóides), e contribui para a terminação da resposta ao estresse. A amígdala também é funcionalmente heterogênea com numerosos alvos a jusante que modulam o eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal e o sistema autônomo. O núcleo central da amígdala é ativado por estressores fisiológicos e pela integração de componentes autonômicos a estressores psicológicos, enquanto que os núcleos amigdalar basolateral e medial são ativados por estressores psicológicos e não parecem ter um papel na regulação de respostas autonômicas.
      O cérebro desempenha um papel integral na terminação da resposta ao estresse através da promoção de inibição da realimentação do eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal e restauração da homeostase. Regulação da realimentação negativa é fundamental para o funcionamento normativo do eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal visto que previne a depleção de hormônios do estresse hipotalâmicos e pituitários, permitindo o suporte de sucessivas respostas ao estresse, e prevenindo a exposição prolongada a níveis elevados de glicocorticóides.
      Enquanto a ativação da resposta ao estresse neuroendócrina é adaptativa e benéfica a curto prazo, níveis de hormônios glicocorticóides cronicamente elevados, quer resultem da realimentação negativa prejudicada ou exposição crônica ao estresse, podem conduzir a diversos efeitos prejudiciais a longo prazo. Além dos mecanismos de realimentação negativa do eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal que atuam para combater essas condições prejudiciais de desenvolvimento, uma forma adaptativa de plasticidade do eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal surge em resposta à exposição repetida ao mesmo estressor, denominada resposta de habituação. Nesse caso, o organismo aprende que o estressor não constitui uma ameaça para a sobrevivência por meio de exposição repetida, o que resulta em um decréscimo na ativação das estruturas neurais no circuito corticolímbico, bem como uma inibição da síntese e libertação de glicocorticóides.
      A presença de receptores CB1 nos circuitos corticolímbicos que regulam o eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal e as propriedades anti-estresse do consumo de Cannabis sugerem que a sinalização endocanabinoide deve inibir a resposta ao estresse. Ambas perturbação genética e bloqueio farmacológico da sinalização do receptor CB1 resultam em um aumento da atividade do eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal em condições basais e após a exposição ao estresse agudo. Esses dados indicam que uma tonalidade endocanabinoide proporciona uma inibição no estado estacionário da atividade do eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal, que, quando interrompida, resulta na ativação do eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal. 
      Esse modelo porteira foi suportado por estudos subsequentes revelando uma diminuição no conteúdo de AEA na amígdala, através de um aumento da hidrólise mediada pela enzima amida hidrolase de ácidos graxos, em resposta ao estresse agudo. Sob condições de estado estacionário, um nível tônico de AEA/sinalização do receptor CB1 dentro do núcleo basolateral confina entradas glutamatérgicas aos principais neurônios no núcleo basolateral. Em resposta ao estresse, a atividade da enzima amida hidrolase de ácidos graxos aumenta e os níveis de AEA diminuem, resultando em uma desinibição dos principais neurônios do núcleo basolateral e, assim, um aumento no fluxo de neurônios da amígdala e alvos a jusante da amígdala, tais como o eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal. Em apoio a esse modelo, trabalhos genéticos determinaram que receptores CB1 localizados em neurônios glutamatérgicos, e não em GABAérgicos, são responsáveis pela capacidade de endocananbinoides de conter a ativação do eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal.
      Receptores CB1 GABAérgicos como membros de um tampão regular da transmissão inibitória, em oposição aos receptores CB1 glutamatérgicos, que têm a tarefa de reduzir a transmissão excitatória somente após a liberação excessiva de glutamato, se encaixa perfeitamente nesse modelo de regulação dependente do receptor CB1. Considerando a ação predominante da plasticidade mediada pelo estresse/recompensa na transmissão GABAérgica, os receptores CB1 em terminais GABAérgicos podem ser considerados como um elemento dinâmico que pode ser alterado a fim de manter continuamente uma reatividade emocional apropriada e ótima. Os receptores CB1 em terminais glutamatérgicos, por outro lado, seriam necessário apenas em situações de mais proeminente desequilíbrio entre os sistemas GABAérgico e glutamatérgico.
      Além de contribuir para a regulação do eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal, a sinalização endocanabinoide também é regulada pelo eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal. Glicocorticóides induzem sinalização endocanabinoide através de um processo rápido, não genômico, em neurônios hormonais liberadores de corticotropina do núcleo paraventricular do hipotálamo. Essa indução de sinalização endocanabinoide inibe entradas glutamatérgicas para os neurônios hormonais liberadores de corticotropina, e, assim, diminui a condução excitatória para o eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal. Esse processo subserve a rápida realimentação inibitória do eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal mediada por glicocorticóides. Após estresse crônico, a sinalização endocanabinoide no núcleo paraventricular do hipotálamo fica comprometida, o que resulta em uma rápida realimentação inibitória do eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal prejudicada, e contribui para a hipersecreção de glicocorticóides após estresse crônico.
      Além da regulação do eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal, sinalização endocanabinoide também contribui para as respostas ao estresse de ordem superior, tais como as respostas emocionais e cognitivas. Como uma extensão do papel da sinalização endocanabinoide na adaptação do eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal ao estresse repetido, endocanabinoides também são necessários para a supressão de respostas comportamentais a estímulos aversivos após a sua remoção ou apresentação repetida. Além disso, o recrutamento de sinalização endocanabinoide por glicocorticóides na amígdala medeiam os seus efeitos sobre a consolidação da memória emocional.
       
      4. Resposta ao estresse e a adolescência
      A adolescência tem sido considerada, quase por definição, um período de estresse elevado devido às muitas mudanças experimentadas concomitantemente, incluindo maturação física, busca pela independência, aumento da importância das interações sociais e dos amigos, e desenvolvimento do cérebro. Uma classe primária da mudança psicológica típica dos adolescentes é uma intensificação das experiências emocionais. Essas experiências emocionais elevadas tem sido argumentadas como a base da psicopatologia e comportamento suicida. A adolescência é a época mais comum da vida para transtornos mentais emergirem.
      Embora a adolescência seja marcada por muitas mudanças neuroendócrinas, as mudanças na função hipotalâmica-pituitária-adrenal são mais sutis do que os aumentos relativamente conspícuos em hormônios sexuais associados com a puberdade. Isso é, embora os níveis de hormônios adrenocorticotróficos e glicocorticóides basais permaneçam relativamente estáveis durante a adolescência, é a quantidade e duração desses hormônios liberados em momentos de estresse que mostram mudanças notáveis. Os mecanismos que medeiam essas alterações relacionadas na capacidade de resposta hormonal permanecem obscuros. No entanto, eles parecem envolver ambas as fases de ativação e de realimentação da resposta hipotalâmica-pituitária-adrenal. 
      No contexto da ativação, experimentos têm mostrado que a atividade neuronal no núcleo paraventricular do hipotálamo, particularmente nas células contendo hormônios liberadores de corticotropina, é maior em ratos adolescentes do que em adultos subsequentemente ao estresse. Esses dados sugerem que as respostas prolongadas de hormônios adrenocorticotróficos e corticosterona antes da puberdade podem em parte ser impulsionadas por uma maior produção e liberação do hormônio liberador de corticotropina induzida pelo estresse. Juntamente com essas diferenças na ativação, estudos sobre a realimentação negativa demonstraram que o pré-tratamento com o glicocorticóide sintético dexametasona é menos eficaz em atenuar uma resposta de corticosterona induzida por estresse em pré-púberes comparado com ratos adultos. Portanto, esses resultados suportam a noção de que pré-púberes podem apresentar menos realimentação negativa dependente de glicocorticóides no eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal do que adultos.
      Semelhante a idade, experiência anterior com estressores também pode moldar a própria capacidade de resposta hormonal ao estresse. Por exemplo, um animal adulto exposto repetidamente ao mesmo estressor (estresse homotípico) exibe uma resposta hormonal habituada comparado a um adulto exposto a esse estressor pela primeira vez. Por outro lado, se um animal experiencia o mesmo estressor repetidas vezes e depois é atingido com um novo estressor (estresse heterotípico), uma resposta hormonal sensibilizada é exibida acima daquela evocada pelo novo estressor sozinho. Essas mudanças dependentes de experiência na reatividade hipotalâmica-pituitária-adrenal são diferentes antes e depois do desenvolvimento do adolescente. Em particular, estresse homotípico conduz a habituação em adultos, mas não nos machos pré-púberes, enquanto o estresse heterotípico leva a uma resposta de pico semelhante em ambas as idades, mas a uma recuperação mais lenta nos animais antes da adolescência. É atualmente desconhecido em que momento durante o desenvolvimento da adolescência essas respostas a estressores homotípicos e heterotípicos assumem os seus padrões adultos.
      Os mecanismos responsáveis por essa plasticidade dependente da idade e da experiência na reatividade hipotalâmica-pituitária-adrenal não são claros. Embora a contribuição da realimentação negativa a essas mudanças dependentes da experiência ainda não foi explorada, evidências recentes sugerem que a ativação diferencial do núcleo paraventricular do hipotálamo pode estar envolvida. Isso é, semelhante a uma maior ativação dos neurônios no núcleo paraventricular do hipotálamo em animais adolescentes após estresse agudo, animais adolescentes também demonstram maior ativação do núcleo paraventricular do hipotálamo após ambos estresse homotípico e heterotípico em comparação com adultos.
      Em adição aos substratos neurobiológicos mediando essas mudanças na reatividade, fatores periféricos também podem desempenhar um papel. Por exemplo, é possível que as glândulas pituitária e adrenal adolescentes sejam mais sensíveis aos hormônios liberador de corticotropina e adrenocorticotrófico, respectivamente, do que o são na vida adulta, assim em parte potencialmente contribuindo para a sua maior reatividade durante a adolescência. Independentemente dos mecanismos que medeiam essas respostas hormonais específicas da idade, esses dados sugerem que, após um estressor agudo ou repetido, um indivíduo adolescente experiência maior exposição aos glicocorticóides do que um adulto.
      Estudos em ratos adultos jovens indicaram que a exposição anterior ao estresse crônico durante a adolescência resultou na plasticidade estrutural reduzida no hipocampo e no córtex pré-frontal, e aumento da plasticidade na amígdala. Estudos adicionais com animais utilizando modelos de estresse social durante a adolescência (p.ex., instabilidade social, isolamento) também indicaram diminuição dos marcadores de plasticidade neural, tais como neurogênese e conectividade sináptica. Essas alterações induzidas pelo estresse no cérebro adolescente também estão associados a função emocional e habilidades cognitivas comprometidas. Embora possa parecer que o impacto do estresse crônico sobre o cérebro adolescente e adulto é semelhante, uma diferença importante pode estar na reversibilidade desses efeitos. Parece, portanto, que os efeitos do estresse sobre o cérebro adolescente podem ser mais duradouros quando comparado com o de adultos.
      Em adultos, exposição crônica ao estresse resulta em neurônios hipocampais e corticais pré-frontais menores e estruturalmente menos complexos. Essas alterações morfológicas são também acompanhadas por decréscimos na aprendizagem espacial e na atenção, habilidades cognitivas dependentes de um hipocampo e córtex pré-frontal, respectivamente, intactos. Neurônios na amígdala, por outro lado, mostram um crescimento induzido pelo estresse na idade adulta, juntamente com uma maior aprendizagem de medo dependente da amígdala. É importante ressaltar que esses efeitos do estresse sobre o cérebro adulto são reversíveis, de tal forma que se for permitidos aos animais se recuperar dos estressores durante pelo menos 10 dias, então esses parâmetros revertem aos seus níveis pré-estresse.
      Os dados analisados acima claramente indicam que a adolescência é um período de mudanças dramáticas na função hipotalâmica-pituitária-adrenal e capacidade de resposta ao estresse. Adolescência também é um período significativo de maturação neural contínua, especificamente nas regiões límbicas e corticais sensíveis ao estresse. Assim, é possível que a exposição repetida ou prolongada ao estresse possa resultar em uma maior sensibilidade a esses fatores de estresse, ultimamente conduzindo a um desenvolvimento neurocomportamental maladaptativo. Além disso, os aumentos naturais na sensibilidade ao estresse e na atividade do eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal durante a adolescência podem atuar em circuitos de estresse já mal adaptados, resultado do trauma precoce e/ou de uma predisposição genética, para produzir sensibilização completa ao estresse e causar efeitos epigenéticos, tais como a metilação alterada de diferentes genes, que levam a transtornos de ansiedade, humor, e psicóticos.
      Os traços individuais que permitem resultados adaptativos ou maladaptativos dependem da capacidade neurológica única de cada indivíduo, que é construída em cima de experiências no curso da vida, particularmente aquelas no início da vida. Essas influências podem resultar em arquitetura cerebral saudável ou não e na regulação epigenética que promova ou falhe em promover respostas de expressões gênicas para novos desafios. Indivíduos geneticamente semelhantes ou idênticos diferem em muitos aspectos que variam de comprimento dos dendritos no córtex pré-frontal a diferenças nos níveis de mineralocorticóides do hipocampo, atividade locomotora, e taxas de neurogênese. O que acontece no início da vida determina a trajetória do desenvolvimento para o resto da vida do indivíduo. Experiências adversas na infância produzem uma vulnerabilidade ao longo da vida para transtornos de saúde física e mental, e prevenção é fundamental. Onde eventos adversos ocorreram, é importante encontrar formas de reparação compensatória.
       
      5. Desenvolvimento, sistema endocanabinoide, e adolescência
      Está bem estabelecido que diversas alterações morfológicas e fisiológicas ocorrem no cérebro humano durante a adolescência. O termo adolescência é geralmente usado para descrever uma fase de transição entre a infância e a idade adulta. Adolescência também denota ambos adolescência e puberdade, visto que esses termos não são mutuamente exclusivos. A segunda onda de sinaptogênese (processo de formação de sinapses entre os neurônios do sistema nervoso central) ocorre no cérebro durante a adolescência. Por isso, adolescência é um dos eventos mais dinâmicos de crescimento e desenvolvimento humano, perdendo apenas para a infância em termos da taxa de mudanças de desenvolvimento que podem ocorrer no cérebro.
      Ao longo da infância e da adolescência, as áreas corticais do cérebro continuam a se tornar mais espessas conforme conexões neurais proliferam. No córtex frontal, o volume de matéria cinzenta chega ao auge aproximadamente aos 11 anos de idade em meninas e 12 anos de idade em meninos, refletindo superprodução dendrítica. Posteriormente, as conexões raramente utilizadas são seletivamente podadas, tornando o cérebro mais eficiente ao permitir-lhe mudar estruturalmente em resposta às demandas do ambiente. Poda também resulta em aumento da especialização da região do cérebro; no entanto, a perda de matéria cinzenta que acompanha a poda pode não ser aparente em algumas partes do cérebro até o início da idade adulta.
      Em geral, a perda de matéria cinzenta progride a partir da parte traseira para a parte frontal do cérebro, com os lobos frontais entre os últimos a mostrar essas alterações estruturais. Conexões neurais que sobrevivem ao processo de poda tornam-se mais competentes em transmitir informações através da mielinização. Mielina, uma bainha do material de gordura da célula envolta em torno dos axônios neuronais, atua como "isolamento" para conexões neurais. Isso permite aos impulsos nervosos viajar por todo o cérebro mais rapidamente e de forma eficiente, e facilita uma maior integração da atividade cerebral.
      Regiões do cérebro humano se desenvolvem em ritmos diferentes ao longo das duas primeiras décadas de vida, com algumas regiões amadurecendo antes de outras. A hipótese de discrepância de desenvolvimento propõe que, nos seres humanos, as estruturas subcorticais envolvidas no processamento de afeto e recompensa se desenvolvem mais cedo do que as estruturas corticais envolvidas no controle cognitivo, e que essa incompatibilidade no tempo de maturação é mais exagerada durante a adolescência. A maior disparidade na maturação entre o sistema límbico e o córtex pré-frontal é entre o início e a metade da adolescência. Do início a meados da adolescência compreende um período importante de desenvolvimento para a maturação cerebral subcortical (sistema socioemocional do cérebro), com os anos do ensino médio sendo a fase de incidência base para transtornos afetivos (humor).
      Já os lobos frontais, que abrigam componentes-chave do circuito neural subjacentes às funções executivas, estão entre as últimas áreas do cérebro a amadurecer; eles podem não estar totalmente desenvolvidos até a metade da terceira década de vida. Adolescentes têm uma propensão para assumir riscos que está relacionada com a capacidade de exercer auto-controle. A base neural da auto-regulação envolve circuitos fronto-estriatais que integram processos motivacionais e de controle. As conexões neurais entre a amígdala e o córtex que compõem os lobos frontais se tornam mais densas durante a adolescência. Essas conexões integram os processos emocionais e cognitivos e resultam no que é frequentemente considerado "maturidade emocional" (p.ex., a capacidade de regular e interpretar emoções). Além disso, extinção de medo também envolve o córtex pré-frontal, e adolescentes mostram um déficit na extinção do medo que não está presente antes ou depois da fase adolescente. 
      Como resultado das diferenças no tempo de maturação de diferentes regiões e circuitos cerebrais, é de se esperar uma variação considerável no início e término de períodos sensíveis para diferentes estímulos. Assim como a fase inicial do desenvolvimento é caracterizada por vários períodos sensíveis, não é sugerido que a adolescência seja um período sensível por si só; em vez disso, é proposto que existem certos períodos da adolescência durante os quais uma entrada específica de dados do ambiente é esperada.
      Dentre os diversos neurotransmissores no sistema nervoso central, três desempenham um papel significativo na maturação do comportamento adolescente: dopamina, serotonina, e melatonina. Dopamina influencia eventos do cérebro que controlam o movimento, resposta emocional, e a capacidade de sentir prazer e dor. Seus níveis diminuem durante a adolescência, resultando em mudanças de humor e dificuldades em regular emoções. Serotonina desempenha um papel significativo nas alterações de humor, ansiedade, controle de impulso, e excitação. Seus níveis também diminuem durante a adolescência, e isso está associado com controle de impulsos diminuído. Por fim, melatonina regula o ritmo circadiano e ciclo vigília-sono. A produção diária de melatonina do corpo aumenta a exigência de sono durante a adolescência.
      Além disso, pode ser observado que o desenvolvimento da neurotransmissão glutamatérgica excitatória ocorre mais cedo no desenvolvimento do cérebro em comparação com a neurotransmissão GABAérgica inibitória. Trabalhos sobre mecanismos moleculares subjacentes ao ínicio de períodos sensíveis mostrou que o balanço da neurotransmissão excitatória e inibitória é um gatilho da plasticidade elevada e que os "freios" moleculares geralmente limitam a plasticidade no final de períodos sensíveis.
      Evidências crescentes sugerem que a plasticidade sináptica mediada por receptores glutamatérgicos, em particular a depressão de longo prazo (processo de plasticidade sináptica induzido e mediado por endocanabinoides), é importante para a eliminação de contatos sinápticos no desenvolvimento do cérebro. Além disso, o impacto negativo acentuado dos fatores ambientais durante a adolescência pode ser em parte devido à interferência com os mecanismos de depressão de longo prazo que refinam circuitos corticais pré-frontais e quando perturbados desviam o processo de maturação normal da função executiva.
      O sistema endocanabinoide é crítico para o desenvolvimento neurológico e, como tal, está presente nos primeiros dias de desenvolvimento, e mantêm expressão ao longo da vida, exibindo uma ampla distribuição espacial para regular a plasticidade sináptica. Durante as fases iniciais de desenvolvimento neuronal, sinalização endocanabinoide é integral para uma variedade de processos, incluindo proliferação e diferenciação de células progenitoras, migração neuronal, orientação axonal, fasciculação, posicionamento de interneurônios corticais, crescimento de neuritos, e morfogênese. Nas fases iniciais de desenvolvimento, o sistema endocanabinoide influência ambos o aparecimento de sinais celulares essenciais e modifica a expressão de genes que são relevantes para o desenvolvimento neural.
      Desenvolvimento do sistema endocanabinoide continua durante a adolescência. Nos seres humanos, padrões de expressão de receptores CB1 aumentam dramaticamente desde a infância até a idade adulta jovem, em regiões como o córtex frontal, estriado, e hipocampo. Estudos com roedores forneceram mais dados temporais e regionais específicos. Ontogenia dos receptores canabinoides no estriado, prosencéfalo límbico, e mesencéfalo ventral do rato é relativamente semelhante, apresentando um aumento progressivo que atinge o auge nos dias pós-natal 30 ou 40 (adolescência) e posteriormente diminuem para valores adultos. Em modelos animais, observou-se que o conteúdo do endocanabinoide AEA aumenta gradualmente durante as fases iniciais pós-natal, atingindo o seu máximo no cérebro adolescente. 
      Estudos recentes revelaram flutuações de desenvolvimento claras ao longo da adolescência nos níveis de endocanabinoides em diversas regiões do cérebro envolvidas na recompensa, motivação, e cognição. A alteração mais profunda foi o aumento contínuo dos níveis de AEA no córtex pré-frontal ao longo do período da adolescência, com concentrações quase três vezes mais elevadas no final da adolescência. No entanto, concentrações de 2-AG foram menores no córtex pré-frontal nas fases finais quando comparado com o início do período da adolescência, um achado acompanhado dentro do núcleo accumbens.
      Além disso, receptores CB1 variam no córtex pré-frontal e núcleo accumbens durante as diferentes fases da adolescência, embora as alterações sejam menos acentuadas do que para níveis de endocanabinoides. Esses achados enfatizam alterações dinâmicas na função endocanabinoide em regiões mesocorticolimbicas do cérebro do adolescente que são relevantes para recompensa, cognição, e aprendizagem emocional, e ressaltam a associação específica do sistema endocanabinoide com neurodesenvolvimento, não só para o período perinatal mas também durante a adolescência.
      Outros estudos têm caracterizado mudanças temporais adicionais no teor de N-aciletanolaminas (p.ex., AEA e 2-AG) e atividade da amida hidrolase de ácidos graxos ao longo da adolescência, no córtex pré-frontal, amígdala, hipocampo, e hipotálamo. Quatro pontos de desenvolvimento foram analisados, especificamente os dias pós-natal 25, 35, 45, e 70, representando respectivamente pré-adolescência, início até meados da adolescência, final da adolescência, e idade adulta. Os padrões dependentes da idade observados de teores de N-aciletanolaminas e atividade da amida hidrolase de ácidos graxos demonstram ainda mais especificidade temporal no desenvolvimento do sistema que podem contribuir para alterações na sensibilidade de estresse, emotividade, e funções executivas que também flutuam durante o período de desenvolvimento.
      Uma vez que a plasticidade realçada do cérebro adolescente temporalmente se correlaciona com uma maior vulnerabilidade, a regulação adequada do sistema endocanabinoide é criticamente importante durante esse período. Uma sinalização endocanabinoide desregulada pode, potencialmente, usurpar o neurodesenvolvimento adolescente normal, deslocando a trajetória de desenvolvimento do cérebro em direção a um estado vulnerável a doenças, predispondo usuários precoces de Cannabis a transtornos mentais.
      O consumo de THC pode produzir efeitos suprafisiológicos, ou seja, acima do normal, nos receptores canabinoides alvejados e, assim, usurpar o sistema endocanabinoide normal. Exposição pesada ao THC durante a adolescência é capaz de modificar a conectividade neuronal em áreas específicas do cérebro por um longo período depois do fim do uso. Isso é provavelmente devido à perturbação de eventos de maturação dentro do sistema endocanabinoide durante a adolescência que, por sua vez impactam o refinamento neuronal peculiar correto do cérebro adolescente, levando assim a funcionalidade e comportamento do cérebro adulto alterados.
       
      6. Ansiedade e a Cannabis
      Emoções negativas, como ansiedade e medo, alertam o organismo contra estímulos potencialmente perigosos ou nocivos. No entanto, quando a resposta à ansiedade e ao medo são desproporcionais em intensidade, crônicas, irreversíveis e/ou não estão associadas a nenhum risco real, ela pode prejudicar as funções físicas e psicológicas. Tais reações exageradas podem ser sintomas de transtornos mentais relacionados à ansiedade, como transtorno de ansiedade generalizada, transtorno de ansiedade social, fobia, transtorno do pânico, transtorno obsessivo-compulsivo, e transtorno do estresse pós-traumático. A etiologia da ansiedade é considerada multifatorial, com uma interação de fatores neurobiológicos, psicológicos, e ambientais. Transtornos de ansiedade são os transtornos mentais mais prevalentes ao redor do globo.
      Os sintomas de transtornos de humor e ansiedade são o resultado, em parte, das perturbações na balança de atividade nos centros emocionais do cérebro ao invés de nos centros cognitivos superiores. Os centros cognitivos superiores do cérebro residem no lobo frontal, a região do cérebro mais recente filogeneticamente. O córtex pré-frontal é responsável pelas funções executivas como planejamento, tomada de decisão, previsão de consequências para comportamentos potenciais, e compreensão e moderação do comportamento social. O córtex órbito-frontal codifica informação, controla impulsos, e regula o humor. O córtex ventromedial está envolvido no processamento de recompensa e na resposta visceral às emoções. No cérebro saudável, essas regiões corticais frontais regulam impulsos, emoções e comportamentos via controle inibitório de cima para baixo de estruturas de processamento emocional.
      As estruturas de processamento emocional do cérebro são historicamente referidas como o "sistema límbico". O córtex límbico é parte do córtex filogeneticamente antigo. Ele inclui o córtex insular e o córtex cingulado. O córtex límbico integra os componentes sensorial, afetivo, e cognitivo da dor e processa informação sobre o estado corporal interno. O hipocampo é outra estrutura do sistema límbico; ele possui controle inibitório tônico sobre o sistema de resposta ao estresse hipotalâmico e desempenha um papel na realimentação negativa para o eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal. O volume do hipocampo e neurogênese (crescimento de novas células) nessa estrutura têm sido implicados na sensibilidade ao estresse e resiliência em relação aos transtornos de humor e ansiedade.
      Uma estrutura do sistema límbico evolutivamente antiga, a amígdala, processa estímulos externos emocionalmente salientes e inicia a resposta comportamental apropriada. A amígdala é responsável pela expressão de medo e agressão, assim como o comportamento defensivo específico de uma espécie, e desempenha um papel na formação e recuperação de memórias emocionais e relacionadas ao medo. O núcleo central da amígdala está fortemente interligado com regiões corticais, incluindo o córtex límbico, mas também recebe informações do hipocampo, tálamo, e hipotálamo.
      Em adição à atividade de cada região do cérebro, é importante considerar também os neurotransmissores providenciando a comunicação entre essas regiões. O aumento da atividade em regiões cerebrais de processamento de emoção em indivíduos que possuem um transtorno de ansiedade pode resultar da diminuição da sinalização inibitória pelo ácido gama-aminobutírico (GABA) ou aumento da neurotransmissão excitatória pelo glutamato. As propriedades ansiolíticas e antidepressivas de drogas que atuam primariamente em sistemas monoaminérgicos implicam serotonina, noradrenalina, e dopamina na patogênese de transtornos de humor e ansiedade. No sistema nervoso central, neurotransmissores clássicos, muitas vezes são embalados e coliberados com neuropeptídeos, muitos dos quais são expressos em regiões límbicas, onde eles podem influenciar os circuitos emocionais e de estresse.
      Disrupção na sinalização de neurotransmissores, neuropeptídeos, e sinalização neuroendócrina não é exclusiva para transtornos de humor e ansiedade; assim, uma grande quantidade de sobreposições entre as síndromes diagnosticáveis deve ser esperada. Estresse repetido, prolongado, ou particularmente severo pode aumentar a magnitude e a duração de fatores de liberação de corticotrofina, glicocorticóides, e sinalização catecolaminérgica, e essas três classes de sinalização podem explicar as manifestações psiquiátricas, circulatórias, metabólicas, e imunológicas de transtornos relacionados ao estresse. Em contraste, hipoativação do eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal como um mecanismo compensatório devido a exposição ao estresse crônico/severo também pode ocorrer.
      Sinalização endocanabinoide serve para manter a homeostase do eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal através do tamponamento da atividade basal, assim como através da mediação dos mecanismos de realimentação rápidos de glicocorticóides. Após a exposição crônica a um estressor, endocanabinoides também estão envolvidos em processos fisiológicos e comportamentais de habituação. Consequências comportamentais do estresse incluem o medo e a ansiedade induzidos pelo estresse, assim como a formação de memórias no contexto de estresse, envolvendo condicionamento de medo contextual e aprendizagem esquiva inibitória.
      Aquisição e armazenamento de memórias aversivas é um dos princípios básicos do sistema nervoso central em todo o reino animal, e a tonalidade do sistema endocanabinoide determina o balanço entre os processos de manter ou fortalecer a memória original (reconsolidação) e o estabelecimento de uma nova memória ou habituação à situação (extinção). A sinalização endocanabinoide é importante para "escolher" uma estratégia específica para lidar com o medo, mas não em determinar a aprendizagem adequada e extinção do traço da memória de medo em si. Sinalização endocanabinoide afeta como nós lidamos com os desafios ambientais ao invés de diminuir a ansiedade incondicionalmente. O sistema endocanabinoide é um dos principais sistemas neuromoduladores envolvidos no controle da homeostase emocional e na capacidade de resposta ao estresse.
      Estresse crônico também pode levar a sintomas de depressão. Proeminente nessas respostas de estresse comportamental é a interação entre endocanabinoides e o eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal. Sinalização endocanabinoide eficaz ajuda a suavizar a resposta a situações estressantes, ambos em termos de redução dos níveis de cortisol em circulação, e em termos de limitar a sua produção durante instâncias agudas de estresse. O mesmo vale para os fitocanabinoides da Cannabis. Uma sinalização fitocanabinoide eficaz vai ajudar a suavizar a resposta a situações estressantes, enquanto uma sinalização fitocanabinoide ineficaz vai realçar a resposta a situações estressantes. Enquanto THC aumenta os níveis de cortisol de maneira dependente da dosagem, CBD diminui os níveis de cortisol. Vale ressaltar que uma melhor percepção da qualidade de vida está associada com um aumento moderado, não-patológico de cortisol.
      O sistema endocanabinoide modula a função cognitiva de uma maneira estritamente dependente da aversividade da condição ambiental e do nível de excitação emocional momentâneo, portanto, a interação com hormônios do estresse é de importância crucial para determinar os efeitos moduladores de compostos canabinoides. Dependendo da disponibilidade de hormônios do estresse, a interação posterior entre endocanabinoides e glicocorticóides e/ou noradrenalina resulta em efeitos opostos. Assim, o estado de ansiedade pode ser alterado por canabinoides de forma bimodal, o que implica uma ativação de diferentes subconjuntos de neurônios dependentes das condições e da dosagem. A ativação de receptores canabinoides nos terminais GABAérgicos medeiam a reação ansiogênica (que produz ansiedade), limitando a liberação do neurotransmissor inibitório GABA a um estímulo. Enquanto que a ativação de receptores canabinoides nos terminais glutamatérgicos medeiam a reação ansiolítica (que reduz a ansiedade), inibindo a excitação excessiva a um estímulo. 
      Além da regulação dos sistemas GABAérgico e glutamatérgico, o sistema endocanabinoide utiliza também a sinalização monoaminérgica (serotonina, dopamina, adrenalina e noradrenalina) no controle da modulação da homeostase emocional. O aumento/declínio da transmissão monoaminérgica também está relacionado tanto com respostas ansiolíticas quanto com respostas ansiogênicas, dependendo dos neuroreceptores afetados. Uma pequena mudança no ambiente pode recrutar novos neurônios ao circuito dependente da situação, mudando a partilha, localização e natureza neuroquímica das sinapses canabinoides controladas que foram ativadas. 
      Situações novas ou reviver uma experiência de ameaça real ativam a amígdala e o sistema septo-hipocampal, que funciona como o centro de análise de circunstâncias, comparando a experiência real com memórias previamente armazenadas. O medo é geralmente definido como a resposta defensiva do organismo que motiva a detecção, escape, e evitamento de possíveis fontes de perigo, e é uma reação a eventos atuais. Já ansiedade é uma preocupação com eventos futuros.
      Quando os sentimentos de medo e ansiedade surgem, e você "alimenta" esses sentimentos preocupando-se com a sua presença (estresse psicológico), eles tendem a ganhar força já que você está convencendo o seu organismo que você está realmente em perigo, e que portanto o seu organismo deve ficar vigilante e proativo. Mas se você aceitar esses sentimentos iniciais de medo e ansiedade como um falso alarme, e convencer o seu organismo que não há qualquer perigo iminente, mais cedo ou mais tarde o sentimento vai passar. Em outras palavras, se você carrega a convicção de que o medo e a ansiedade são perigosos, a experiência de medo e ansiedade podem ser potenciadas uma vez que a regulação das emoções pode tanto aumentar como diminuir os sentimentos de medo e ansiedade, dependendo da estratégia empregada.
      É bastante comum usuários experienciarem "bad trips" quando utilizando a Cannabis em ambientes públicos porque é uma atividade que estressa muita gente. Em resposta a um estressor (o estressor no caso é o neuroticismo, não a Cannabis), o organismo libera uma cascata hormonal cujo mensageiro químico primário é a noradrenalina. É esse aumento na liberação de noradrenalina no locus coeruleus e córtex pré-frontal que levam a respostas ansiogênicas (uma vez que você convenceu o seu organismo que é perigoso utilizar Cannabis em local público já que isso é ilegal e blábláblá, e que portanto o seu organismo deve ficar vigilante e proativo). Já as respostas ansiolíticas são induzidas pelo realce serotoninérgico no núcleo dorsal da rafe e córtex pré-frontal, e ocorrem na ausência de estressores.
      Tendo explicado isso, voltemos a questão da dosagem. Quando você pensa em dosagem, você precisa considerar não só os exocanabinoides da Cannabis como também os endocanabinoides que o seu organismo já produz naturalmente visto que ambos vão atuar basicamente nos mesmos alvos moleculares, essencialmente os receptores canabinoides. A atividade natural do sistema endocanabinoide, por sua vez, é influenciada sobretudo por estresse e, portanto, hormônios do estresse também precisam ser considerados. Assim como níveis mais elevados de CBD estão associados com um menor risco de sintomas psicóticos e ansiogênicos, níveis de AEA já presentes no seu organismo também influenciam esses sintomas. Em resposta ao estresse, os níveis de AEA no organismo são reduzidos, deixando o usuário mais proprenso a experienciar sintomas negativos. É aquela premissa da variedade correta de Cannabis para cada caso. Um usuário com níveis elevados de AEA pode utilizar uma Cannabis rica em THC para criar um estresse saudável, ao passo que um usuário com níveis reduzidos de AEA precisa de uma Cannabis rica em CBD para reduzir/anular potenciais efeitos negativos/sintomas ansiogênicos/depressivos/psicóticos.
      Além disso, Ligantes agonistas (que ativam um receptor), como o THC, possuem o potencial para hiperestimular (estressar) os neuroreceptores, levando à sua dessensibilização (famosa tolerância) e à regulação decrescente transitória dos receptores canabinoides, consequentemente tendo o mesmo efeito que o bloqueio da sinalização do receptor CB1. Nesses casos, a dessensibilização/regulação decrescente dos receptores canabinoides está reduzindo as respostas ansiolíticas, deixando o organismo mais inclinado a produzir respostas ansiogênicas ao ambiente. Já o CBD, por possuir ação antagônica ao THC (previne a ativação do receptor, bloqueando o agonista), enfraquece a resposta dessensibilizadora/desreguladora do THC sozinho, podendo até mesmo nulificá-la (dependendo da proporção entre THC e CBD).
       
      7. Ataques de Pânico 
      Ataques de pânico são a complicação mais comum de uma "bad trip" mais intensa de Cannabis. Ataques de pânico são definidos como um período distinto de intenso medo ou desconforto no qual quatro (ou mais) dos seguintes sintomas se desenvolveram de forma abrupta e atingiram um pico dentro de 10 minutos: palpitações ou batimentos cardíacos acelerados; sudorese (transpiração); tremores; sensação de falta de ar ou sufocamento; sensação de asfixia; dor ou desconforto no peito; náusea ou desconforto abdominal; sentimento de tontura, vertigem ou desmaio; desrealização (sensação de irrealidade) ou despersonalização (se sentir separado de si mesmo); medo de perder o controle ou enlouquecer; medo de morrer; parestesias (dormência ou sensações de formigamento); calafrios ou ondas de calor.
      Ataques de pânico são de início agudo, e debilitação aguda (geralmente grave) pode ser seguida por um período de funcionamento psicológico residualmente debilitado. Ataques de pânico repetidos são considerados um sintoma do transtorno do pânico. O foco sobre a possibilidade de ataques de pânico futuros, hipervigilância sobre os sintomas físicos e cognições catastróficas aumentam o risco de desenvolver transtorno do pânico ou agorafobia.
      Aprendizagem de medo desempenha um papel importante no transtorno do pânico. Sensações interoceptivas benignas podem tornar-se preditores (estímulos condicionados) de medo imenso quando experienciados no contexto de um ataque de pânico inicial (estímulo incondicionado). O mero encontro desses estímulos condicionados em um momento posterior pode induzir ansiedade e medo, e precipitar uma nova crise de pânico. Experiências traumáticas são estímulos incondicionados que ficam emparelhados com estímulos neutros (condicionados), tal como imagens, sons, e até mesmo cheiros associados com o trauma. Consequentemente, ansiedade se torna uma resposta condicionada que é provocada pela exposição a estímulos relacionados ao trauma (p.ex a utilização da Cannabis). Extinção (enfraquecimento gradual ou eliminação) de ansiedade condicionada pode ocorrer somente quando a pessoa encontra o estimulo condicionado (os sinais associados com o trauma) na ausência de qualquer estímulo incondicionado preocupante. 
       
      8. Depressão e a Cannabis
      Depressão é um dos transtornos mais comuns na população em geral. Esse transtorno afeta todos os aspectos da vida humana e é caracterizado por sentimentos de tristeza, perda de interesse ou prazer, culpa, solidão, baixa autoestima, transtornos do sono ou do apetite, baixo nível de energia, e falta de concentração. Depressão é uma síndrome heterogênea que compreende numerosas doenças de causas e fisiopatologias distintas. Devido à heterogeneidade clínica e etiológica da depressão, tem sido difícil elucidar sua fisiopatologia. Uma vez que todas as teorias de depressão se aplicam a apenas alguns tipos de pacientes deprimidos, mas outros não, e visto que a fisiopatologia depressiva pode variar consideravelmente ao longo do curso da doença, o conhecimento existente atual argumenta contra uma hipótese unificada da depressão. Como consequência, tratamentos antidepressivos, incluindo abordagens psicológicas e biológicas, devem ser adaptados para pacientes individuais e estados da doença.
      Não é provável que depressão resulte de um único gene ou um único evento externo, mas parece ser causada por uma interação complexa entre genes e o ambiente. Até agora, um gene ou série de genes que causem depressão não foi identificado. No entanto, certos genes são claramente fatores de risco para o desenvolvimento da depressão, aumentando a probabilidade de que o estresse ambiental grave irá precipitar o aparecimento do transtorno. Assim, uma combinação de genética, estresse nos primeiros anos de vida, e estresse contínuo pode ultimamente determinar as respostas individuais ao estresse e a vulnerabilidade à depressão. Os fatores de risco para episódios depressivos mudam durante o curso da doença. O primeiro episódio depressivo costuma ser "reativo", ou seja, desencadeado por estressores psicossociais importantes, enquanto episódios subsequentes se tornam cada vez mais "endógenos", ou seja, desencadeados por estressores menores ou espontaneamente.
      Estudos mostram consistentemente que a influência de fatores genéticos em transtornos depressivos e de ansiedade é de cerca de 30-40%. Fatores não-genéticos, explicando os restantes 60-70% da variância na susceptibilidade são efeitos ambientais individuais específicos (incluindo interações gene-ambiente). Em relação à depressão, esses efeitos são eventos adversos principalmente na infância e estresses contínuos ou recentes devido a adversidades interpessoais, incluindo traumas de vida, baixo apoio social, problemas conjugais, e divórcio. A importância dos efeitos ambientais aumenta com a idade e explica a relativamente baixa herdabilidade de depressão em adultos. Os efeitos ambientais são transitórios, mas a contribuição para a estabilidade aumenta com a idade.
      Esses resultados sugerem que há um enorme potencial na prevenção da depressão por meio de intervenções psicossociais (p.ex, nas escolas, no local de trabalho). Além disso, esses resultados refletem a prática clínica de psicoterapias empiricamente validadas para tratar a depressão, incluindo psicoterapias comportamentais interpessoais, psicodinâmicas, e cognitivo-comportamentais, e sistema de psicoterapia de análise cognitivo-comportamental, todos os quais focam direta ou indiretamente em habilidades e dificuldades interpessoais. 
      Depressão pode ser tanto normal quanto anormal e o equilíbrio da sua expressão determina o resultado/diagnóstico comportamental. Depressão pode surgir de circuitos neurais mal adaptados. Em parte, esses circuitos também estão implicados em como lidamos com o estresse, dividindo características comuns como observadas pelas comorbidades. Dados os muitas gatilhos da depressão, associações de processos comportamentais, e definições, torna-se aparente que o problema fisiopatológico é um de mau funcionamento de ambos neurosinalização química e dinâmica das vias de sinalização. 
      Sistemas neurais que são importantes para entender a depressão incluem aqueles que suportam processamento de emoções, busca de recompensa, e regulam emoções, todos os quais são disfuncionais no transtorno. Esses sistemas incluem sistemas subcorticais envolvidos em emoções e processamento de recompensa (p.ex., amígdala, estriado ventral); regiões corticais pré-frontais mediais e cingulados anteriores envolvidos no processamento de emoções e regulação automática ou implícita de emoções; e sistemas corticais pré-frontais laterais (p.ex., córtex pré-frontal ventrolateral e córtex pré-frontal dorsolateral) envolvidos no controle cognitivo e regulação de emoções voluntárias ou que requerem esforço. Esses sistemas podem ser conceituados como uma rede pré-frontal medial-límbica, incluindo amígdala, córtex cingulado anterior, e córtex pré-frontal medial que é modulada pela neurotransmissão de serotonina, e uma rede de recompensa centrada no estriado ventral e córtices orbitofrontal e pré-frontal medial que é modulada pela dopamina.
      Existem, como pode agora ser esperado, diferentes tipos de depressão: transtorno depressivo maior (também conhecido como depressão unipolar), transtorno bipolar, depressão psicótica, depressão pós-parto, e transtorno afetivo sazonal. A base fisiopatológica crucial para a depressão parece ser uma depleção dos neurotransmissores serotonina, noradrenalina, ou dopamina no sistema nervoso central. A esse respeito, serotonina emerge como o principal neurotransmissor na depressão, onde serotonina está significativamente reduzida.
      Níveis de metabolitos de dopamina também estão consistentemente reduzidos na depressão, sugerindo diminuição do volume de dopamina. Quase todos os composto que inibem a reabsorção de monoaminas, conduzindo a um aumento da concentração de monoaminas na fenda sináptica, tem provado ser um antidepressivo clinicamente eficaz. A inibição da enzima monoamina oxidase, que induz um aumento da disponibilidade de monoaminas em neurônios pré-sinápticos, também possui efeitos antidepressivos. Quase todos os antidepressivos miram o sistema de monoaminas. Contudo, a resistência total e parcial a esses medicamentos e o atraso no início de suas ações sugerem que disfunções de sistemas de neurotransmissores monoaminérgicos encontrados na depressão representam efeitos a jusante de outras, mais primárias, anormalidades.
      Há muitos indícios de que o sistema endocanabinoide está envolvido na patogênese da depressão, incluindo a localização dos receptores, modulação da transmissão monoaminérgica, inibição do eixo de estresse, e promoção da neuroplasticidade no cérebro. Estudos farmacológicos e genéticos pré-clínicos de endocanabinoides na depressão também sugerem que facilitar o sistema endocanabinoide exerce respostas comportamentais antidepressivas. Ativação endógena de receptores CB1 serve como um amortecedor contra a depressão e sua eliminação ou redução em indivíduos suscetíveis pode resultar em sintomas depressivos.
      Evidências farmacológicas, bioquímicas, e genéticas suportam a hipótese de que um sistema endocanabinoide hipoativo, especialmente atividade reduzida dos receptores CB1, contribui para a depressão em seres humanos. Estudos demonstram que os estresses psicológicos e fisiológicos induzem mudanças nos endocanabinoides em circulação que são sensíveis às especificidades do estressor, e que a sinalização endocanabinoide é alterada de uma forma regional no cérebro em indivíduos deprimidos.
      Depressão acarreta na diminuição da sinalização mediada pelo receptor CB1 em regiões subcorticais e aumento da densidade de receptores CB1 no córtex pré-frontal. Diminuição subcortical da sinalização endocanabinoide é provavelmente devido à redução induzida por glicocorticoides na densidade dos receptores CB1, enquanto o aumento da densidade de receptores CB1 no córtex pré-frontal poderia ser devido à redução da sinalização serotoninérgica e poderia opor-se (ao invés de contribuir) aos efeitos do estresse crônico para produzir comportamentos depressivos.
      A capacidade da exposição repetida ao estresse de aumentar imediatamente a densidade de receptores CB1 no córtex pré-frontal, independentemente da idade, é consistente com vários relatórios recentes. Acredita-se que essa resposta represente uma resposta adaptativa que ajuda a limitar os efeitos do estresse sobre a excitotoxicidade, retração dendrítica, e inflamação dentro do córtex pré-frontal, bem como manter respostas de enfrentamento ao estresse ativas. Essa hipótese é consistente com os dados que indicam que a ativação de receptores CB1 no córtex pré-frontal produz efeitos ansiolíticos e antidepressivos, e promove a recuperação do estresse.
      Tudo isso suporta a hipótese de que o realçamento do sistema endocanabinoide é benéfico no tratamento da depressão. Realçamento do sistema endocanabinoide compartilha cada um dos mecanismos atualmente aceitos para eficácia antidepressiva. Sinalização endocanabinoide aumenta a sinalização serotoninérgica e noradrenérgica; mantém hedonia durante o estresse crônico; suprime a hiperatividade do eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal; e aumenta a expressão do fator neurotrófico derivado do cérebro e neurogênese no hipocampo. Além disso, sinalização endocanabinoide realça a recompensa e por isso pode ser considerado um sistema "pró-hedônico".  
      Vale ressaltar que a ação do THC pode sobrecarregar o sistema endocanabinoide, que responde por causar um "desligamento de proteção", ou regulação decrescente, de muitos receptores CB1 no cérebro. Assim, o excesso do consumo de THC sem os níveis apropriados de CBD pode ser contraprodutivo visto que o objetivo do usuário deprimido é o realçamento (desfadigamento) do sistema endocanabinoide, e não seu desligamento parcial e temporário (sobrecarga).
       
      9. Psicose e a Cannabis
      A psicose é uma síndrome clínica composta por vários sintomas. Delírios, alucinações, e transtornos de pensamento podem ser considerados como características clínicas centrais. Os sintomas da psicose ocorrem em uma uma vasta gama de transtornos mentais e apresentam um elevado grau de variabilidade interindividual entre pessoas com diferentes transtornos mentais, e um elevado grau de variabilidade intraindividual ao longo do tempo. Os sintomas da psicose são geralmente incorporados no quadro clínico mais amplo do transtorno mental, que pode incluir sintomas de mania e depressão. A elucidação dos sintomas da psicose por drogas ou transtornos cerebrais indica que todas as pessoas podem experienciar sintomas de psicose. Muitas pessoas possuem alguns sintomas psicóticos leves ou fugazes e algumas pessoas possuem muitos sintomas psicóticos. 
      Desenvolvimento de psicose é uma combinação de fatores biogenéticos e psicossociais. Fatores biogenéticos incluem genes e um histórico de doença mental na família, e levam esses indivíduos a serem mais propensos a desenvolver sintomas psicóticos em momentos de estresse. No entanto, fatores psicossociais (p.ex., pobreza, abuso e negligência infantil, família em dificuldades, vida urbana, discriminação, estupro, marginalização social, combate de guerra, e outras experiências adversas sobre a saúde mental) são mais importantes do que biogenética porque podem tanto melhorar quanto piorar o componente genético.
      De fato, fatores psicossociais não são meros desencadeantes de uma vulnerabilidade genética, mas fatores coparticipantes no contínuo da psicose. Especificamente, mecanismos epigenéticos medeiam os efeitos ambientais sobre a função dos genes através do ligamento e desligamento da transcrição de genes ao longo do desenvolvimento, constituindo um mecanismo para adaptações genômicas rápidas ao ambiente. 
      Maus-tratos cedo na vida, relações familiares carregadas por conflitos, eventos de vida estressantes, e condições físicas e sociais adversas, frequentemente ocasionadas por ambientes socioeconômicos mais baixos, durante o desenvolvimento e envelhecimento podem influenciar a plasticidade estrutural e funcional do hipocampo, amígdala, e córtex pré-frontal, processos referidos coletivamente como neuroplasticidade. Por sua vez, alterações na neuroplasticidade desses sistemas cerebrais pode afetar os padrões de expressão e regulação emocional, reatividade, recuperação, e enfrentamento ao estresse, e possivelmente até mesmo a taxa de envelhecimento do corpo.
      Assim, o ambiente social pode moderar a expressão das influências genéticas sobre a saúde, e essas influências genéticas podem moldar a sensibilidade do indivíduo ao ambiente social. A influência de fatores sociais na psicose é significativamente mediada por sintomas não-psicóticos, particularmente sintomas de humor e outros atributos de afeto, como insônia. Sintomas psicóticos também são guiados por preconceitos de raciocínio, como tirar conclusões precipitadas e inflexibilidade das crenças, embora pouco se saiba sobre as influências sociais sobre esses preconceitos. O que está claro é que há muitas rotas para a psicose, que ela assume diversas formas, e que um número crescente de traumas e o aumento da severidade dos acontecimentos traumáticos individuais estão fortemente associados com o desenvolvimento subsequente de psicose.
      Crianças são cercadas por pressões da vida (estressores), e podem não desenvolver mecanismos de enfrentamento adequados. Estresse durante a infância e adolescência tem implicações para o grau de depressão e transtornos psicóticos na maturidade. Eventos estressantes levam à regressão de sinapses com a perda de espinhas sinápticas e, em alguns casos dendritos inteiros de neurônios piramidais no córtex pré-frontal, um processo que leva ao mau funcionamento das redes neurais no neocórtex. Tais estresses frequentemente mostram aumentos concomitantes na atividade do sistema hipotalâmico-pituitário-adrenal, com consequente liberação elevada de glicocorticóides como cortisol, assim como de hormônios liberadores de corticotropina de neurônios. É muito provável que sejam esses hormônios, agindo sobre os receptores neuronais e astrócitos glicocorticoides e receptores de hormônios liberadores de corticotropina, respectivamente, os responsáveis pela regressão das sinapses. 
      O mecanismo de tal regressão envolve a perda de espinhas sinápticas, a estabilidade das quais está sob o controle direto da atividade de receptores de N-metil-d-aspartato (NMDA) nas espinhas. Glutamato ativa receptores NMDA, que, em seguida, através de vias paralelas, controlam a extensão na espinha da proteína do citoesqueleto actina F e, assim, estabilidade e crescimento das espinhas. Ambos receptores de glicocorticóides e receptores de hormônios liberadores de corticotropina nas espinhas podem modular os receptores NMDA, reduzindo a sua ativação pelo glutamato e, consequentemente, a estabilidade da espinha. Em contraste, glicocorticóides provavelmente agindo em terminais nervosos e receptores de hormônios liberadores de corticotropina em astrócitos, podem liberar glutamato, promovendo assim a ativação de receptores NMDA. A estabilidade das espinhas está sob controle duplo por glicocorticóides e hormônios liberadores de corticotropina, liberados durante o estresse para alterar a estabilidade das espinhas sinápticas, levando ao mau funcionamento de redes neurais corticais que estão envolvidas na depressão e psicoses.
      Receptores NMDA são uma classe de receptores de glutamato que, quando ativados, medeiam a neurotransmissão excitatória através da passagem de cátions não seletivos, incluindo Ca2+, através do canal. Eles são abundantemente e ubiquamente localizados por todo o cérebro, onde desempenham um papel-chave na plasticidade sináptica e função de memória. Eles são ativados através da ligação dos co-agonistas glutamato e glicina, em adição à exposição a uma mudança positiva no potencial da membrana ao longo da célula. No sistema nervoso central, os receptores NMDA possibilitam a permeação de cálcio na fenda pós-sináptica e regulam processos fundamentais, como plasticidade sináptica, aprendizagem, formação de memórias, e cognição. Como resultado, qualquer disfunção desses receptores nas áreas associativas do córtex podem conduzir a alterações como as observadas na esquizofrenia. 
      A evidência mais convincente que suporta a hipótese da hipofunção dos receptores NMDA vem dos efeitos do antagonista dos receptores NMDA, fenciclidina (PCP). PCP, também conhecido como "pó de anjo", induz efeitos psicotomiméticos em indivíduos saudáveis que são semelhantes aos sintomas positivos, negativos, e cognitivos da esquizofrenia, e causa um ressurgimento desses sintomas em pacientes estáveis. A hipofunção dos receptores NMDA provoca a desregulação dopaminérgica observada nas regiões estriatais e pré-frontais de esquizofrênicos, e ambas anormalidades formam a base dos sintomas reconhecidos como esquizofrenia.
      A relação entre receptores de dopamina e receptores NMDA é complexa, e enquanto o fluxo de cálcio nos canais de NMDA aumenta em resposta a ativação dos receptores D1 e D2, o receptor D4 reduz a função dos receptores NMDA. Receptores NMDA podem formar complexos reguladores com receptores de dopamina D1 e D2 para controlar negativamente a sinalização de dopamina. A via glutamatérgica projetando a partir de neurônios piramidais corticais para a área tegmental ventral controla neurônios dopaminérgicos através da atividade de interneurônios GABA. Nesse circuito neural regulatório a hipofunção dos receptores NMDA causa hiperfunção dopaminérgica da via dopaminérgica mesolímbica.
      O sistema endocanabinoide controla a atividade dos receptores NMDA, impedindo sua hiperativação e oferecendo neuroproteção aos neurônios contra excitotoxicidade. De fato, é a própria atividade dos receptores NMDA que fornece as demandas de endocanabinoides a fim de controlar as correntes de cálcio. Portanto, um papel fisiológico do sistema endocanabinoide é manter a atividade dos receptores NMDA dentro de limites seguros, protegendo assim as células neurais de excitotoxicidade.
      Canabinoides opõe a função dos receptores NMDA glutamatérgicos através de vários mecanismos, tais como a redução pré-sináptica da liberação de glutamato na fenda sináptica, ou a inibição dos receptores canabinoides pós-sinápticos cujas vias de sinalização podem interferir com aquelas dos receptores NMDA. Outra possibilidade é de que canabinoides previnam aumentos do cálcio endógeno através de mecanismos associados com a inibição direta do canal dos receptores NMDA. Assim, canabinoides exógenos que atuem em um momento errado ou que exerçam uma influência inadequada sobre o sistema endocanabinoide podem causar uma regulação decrescente desproporcional da atividade NMDA (hipofunção).
      Em relação a associação entre os receptores CB1 e os receptores NMDA, canabinoides que regulam a função dos receptores NMDA promovem a internalização/reciclagem do receptor canabinoide para reduzir a estabilidade do receptor de glutamato através da co-internalização de subunidades NR1. Esse mecanismo desmonta o receptor de NMDA e aumenta a presença de subunidades NR1 no citosol, aumentando subsequentemente a presença de subunidades NR2 também. Na membrana celular, a associação física dos receptores NMDA-CB1 e a sua relevância funcional são dependentes da proteína HINT1.
      Após o desafio agonista, CB1 é co-internalizado com HINT1 e subunidades NR1 e, ao passo que a proteína HINT1 conserva sua associação com os receptores CB1, ela se dissocia das subunidades NR1. Quando os complexos CB1-HINT1 são reciclados de volta para a superfície da célula, eles rapidamente se reassociam com novas subunidades NR1 para a sua co-internalização. Conforme os receptores CB1 internalizados retornam à superfície da célula dentro de alguns minutos, a presença de canabinoides exógenos no ambiente do receptor produz reciclagem rápida e repetida de receptores CB1, o que pode causar instabilidade e interrompimento de muitos receptores NMDA. Obviamente, se canabinoides exógenos, como o THC, conduzirem esse regulamento para além dos limites fisiológicos, o número de receptores NMDA na superfície da célula diminuirá progressivamente à medida que são conduzidos para os lisossomas e metabolizado, levando a hipofunção glutamatérgica. 
      As restrições que a atividade dos receptores CB1 impõe na função dos receptores NMDA subjazem tanto a neuroproteção quanto os efeitos negativos de canabinoides, e portanto, o abuso do consumo de THC pode levar a psicoses e circunstancialmente precipitar ou agravar sintomas da esquizofrenia. O consumo de THC é um "componente facilitador" que interage com outros fatores decisivos para precipitar a esquizofrenia e outros transtornos psicóticos, mas não é nem necessário nem suficiente para fazê-lo sozinho. Nenhum dos fatores de risco ambientais conhecidos para a psicose são suficientes por si sós para causar psicose.
      O consumo de Cannabis é um componente facilitador, parte de uma complexa constelação de fatores que levam à psicose. Vulnerabilidades genéticas e fatores de risco ambientais somam e/ou interagem para desencadear psicoses. Psicoses induzidas pelo consumo de Cannabis também não estão necessariamente relacionados ao uso crônico. Psicoses induzidas pela Cannabis são geralmente acompanhadas por estresse. De fato estresse é fundamental para a manifestação ou exacerbação da psicose. Estresse aumenta as concentrações de dopamina, noradrenalina, e cortisol. A ativação do receptor de NMDA e subsequente proliferação microglial é um efeito a jusante de níveis elevados de cortisol. Estresse crônico ou repetido resulta em uma elevação crônica de cortisol através do eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal. 
       
      10. Psicoterapia
      Psicoterapia pode ser um serviço de saúde eficaz e eficiente para uma ampla gama de condições de saúde e saúde mental comumente experienciados. No tratamento de transtornos de humor e ansiedade, existe forte evidência para suportar a utilização de psicoterapia como um tratamento de primeira linha. Além disso, uma série de modificações de estilo de vida são promissoras como abordagens adjuvantes para intervenções psicológicas para reduzir a ansiedade, depressão, e psicose, incluindo atividade física regular, exercícios moderados, dieta saudável, relaxamento/sono adequados, interações sociais positivas, meditação, e restrição/redução de substâncias como cafeína, álcool, nicotina, e outras drogas.
      Terapia cognitivo-comportamental é a terapia mais comumente usada para transtornos de humor e ansiedade. Terapia cognitivo-comportamental é uma mistura de intervenções comportamentais e cognitivas guiadas por princípios de ciência aplicada. As intervenções comportamentais visam diminuir comportamentos desajustados e aumentar comportamentos adaptativos através da modificação de seus antecedentes e consequências, e através de práticas comportamentais que resultam em um novo aprendizado. As intervenções cognitivas visam modificar as cognições mal-adaptativas, autoafirmações ou crenças. As características de marca registradas da terapia cognitivo-comportamental são estratégias de intervenção focadas no problema que são derivadas das teorias de aprendizagem, assim como dos princípios da teoria cognitiva.
      Em contraste com a terapia cognitivo-comportamental tradicional na qual os pensamentos disfuncionais são direcionados, o objetivo da terapia cognitiva baseada em mindfulness (técnica de meditação) é ajudar as pessoas a aprender, ocasionalmente, a tomar consciência de pensamentos, sentimentos, e sensações corporais em vez de tentar modificá-las ou agir sobre elas. Uma habilidade fundamental aprendida na terapia cognitiva baseada em mindfulness é como reconhecer e desengajar de padrões autoperpetuantes de pensamento ruminativos negativos através de atenção sustentada e exercícios de mudança de atenção. Terapia cognitiva baseada em mindfulness tem como alvo o pensamento ruminativo, aumentando a conscientização e monitoramento de pensamentos. Outras técnicas de meditação com evidências de eficácia no tratamento do transtorno de humor e ansiedade incluem ioga e tai chi.
      Nos últimos anos, técnicas de terapia comportamental cognitiva previamente utilizadas principalmente no tratamento de transtornos de humor e ansiedade, começaram a se adaptar para uso em indivíduos com transtornos mentais mais graves. Deficiências em funções importantes devido a sintomas negativos, alguns dos quais são especialmente recalcitrantes a agentes farmacológicos, podem ser tratadas com terapia cognitivo-comportamental para melhorar as relações com a família e amigos, e sucesso no trabalho.
      Consistente com a teoria cognitivo-comportamental geral, teoria cognitivo-comportamental para psicose é baseada na suposição de que o sofrimento ocorre quando um indivíduo faz sentido das suas experiências de uma forma ameaçadora. Apesar de diferentes teóricos enfatizarem diferentes aspectos e estratégias, modelos cognitivos de psicose apresentam o acordo subjacente: Crenças em psicose são importantes, compreensíveis, e modificáveis. Experiências em psicose estão em um contínuo com os da população geral. E os esforços terapêuticos devem ser destinadas a reduzir o sofrimento e aumentar o bem-estar.
       
      11. CBD
      Drogas de alvo único nem sempre produzem os efeitos fisiológicos desejados sobre todo o sistema biológico, mesmo que tenham regulamentado com sucesso as atividades de seus alvos designados. Isso acontece porque moléculas de drogas muitas vezes interagem com múltiplos alvos, e as interações alvo não intencionais da droga podem causar efeitos colaterais. Esse é o principal motivo que leva drogas a serem retiradas do mercado. Canabinoides, por outro lado, possuem ações multialvo, sistêmicas, e pro-homeostáticas, além de produzirem efeitos colaterais geralmente benignos. Assim, canabinoides possuem um perfil multiação que manipula não apenas um, mas muitos dos fatores causadores de doenças complexas. E, enquanto doses elevadas de THC produzem efeitos colaterais psicotrópicos, CBD não só aparenta ser bem tolerado em doses elevadas e com utilização crônica em seres humanos, como também possui o potencial para neutralizar os efeitos psicotrópicos adversos do THC.
      CBD altera a atividade de regiões do cérebro relacionadas com o controle do processo emocional, atenua a oxigenação de sangue na amígdala e no córtex cingulado posterior em indivíduos expostos a estímulos de medo, afeta a conectividade entre as regiões pré-frontais e subcorticais, diminui a ativação do complexo amígdala-hipocampo esquerdo e giro do cíngulo posterior esquerdo, e aumenta a neurogênese hipocampal. Em relação à psicose, CBD aumenta a ativação neuronal no córtex pré-frontal, núcleo accumbens, estriado dorsal e ventral, giro do cíngulo anterior, lobo temporal direito, hipotálamo, e núcleo dorsal da rafe. Além da regulação do próprio sistema endocanabinoide, CBD regula o estado de ansiedade/depressão/psicótico através de uma série de mecanismos independentes dos receptores canabinoides; seja através da melhoria da sinalização de adenosina, agonismo dos receptores TRPV-1 e TRPV-2, agonismo dos receptores 5-HT1A, potenciação das correntes de glicina, entre outros. 
      Adenosina é um nucleosídeo ubíquo que atua como um neuromodulador no sistema nervoso central, controlando a excitabilidade neuronal, modulando a liberação de neurotransmissores, e regulando a função de canais de íons através de quatro subtipos de receptores acoplados à proteína G. Como um neuromodulador, adenosina pode inibir ou excitar neurônios com base em condições fisiológicas momentâneas. Assim, a sinalização de adenosina é melhor conceituada como um mecanismo de intercepção para a sinalização por outros neurotransmissores, modulando tanto a neurotransmissão excitatória quanto inibitória. É nessa capacidade que adenosina regula uma ampla gama de comportamentos, humores e emoções.
      Os receptores A1 e A2A são os principais subtipos envolvidos na regulação de transtornos mentais. Os receptores de adenosina A1 são expressos ubiquamente no sistema nervoso central, possuem afinidade elevada para a adenosina, e medeiam a inibição tônica da atividade neuronal. Ativação dos receptores pré-sinápticos A1 inibe a liberação de neurotransmissores excitatórios e inibitórios mediante a redução do AMP-cíclico intracelular e ativação da proteína-cinase A, enquanto a ativação dos receptores pós-sinápticos A1 regulam os canais de potássio para reduzir tanto a excitabilidade (a probabilidade de disparo), assim como a duração do potencial de ação.
      Já os receptores de adenosina A2A são expressos principalmente no núcleo caudado, núcleo putâmen e núcleo accumbens. Em contraste aos receptores A1, os receptores A2A são positivamente ligados a adenilato ciclase, aumentando os níveis de AMP-cíclico e exercendo influências excitatórias nos neurônios. Adenosina e agonistas dos receptores A1 e A2A são ansiolíticos/antidepressivos/antipsicóticos, enquanto antagonistas como a cafeína, são ansiogênicos/psicóticos em doses elevadas na maioria das pessoas, ou em doses moderadas em indivíduos suscetíveis. CBD inibe o transportador de adenosina, aumentando indiretamente os níveis desses neurotransmissor.
      O Receptor de Potencial Transitório Vanilóide do Tipo 1 (TRPV1), e o Receptor de Potencial Transitório Vanilóide do Tipo 2 (TRPV2) são sensores celulares polimodais envolvidos numa ampla variedade de processos celulares, principalmente através do aumento do cálcio celular. Receptores de Potencial Transitório servem uma variedade de funções nos sistemas nervosos periférico e central. No sistema nervoso periférico, receptores de potencial transitório respondem a estímulos de temperatura, pressão, agentes inflamatórios, e a ativação do receptor. Funções do sistema nervoso central desses receptores incluem o crescimento de neurites, sinalização do receptor, e morte celular excitotóxica resultante de estímulos nocivos. Vale ressaltar que a ativação, e dessensibilização posterior dos receptores TRPV1 e TRPV2, que estão profundamente envolvidos na transdução da dor inflamatória e crônica a nível periférico e espinhal, constituem a base de algumas das ações antihiperalgésicas do CBD.
      Canais TRPV2 possuem uma distribuição restrita dentro de núcleos do hipotálamo paraventricular, supraquiasmático, e supraóptico do cérebro. Essa distribuição sugere um papel para os canais TRPV2 em distúrbios do eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal, incluindo ansiedade, depressão, e psicose. Já a interação entre CB1, TRPV1 e NO (óxido nítrico) pode regular a liberação de glutamato e modificar comportamentos defensivos em regiões relacionadas com comportamentos defensivos. Canabinoides modulam de uma maneira dupla os efeitos pró-aversivos de NO pela ativação de receptores CB1 ou TRPV1. A ativação dos receptores CB1 inibe, enquanto a ativação dos receptores TRPV1 aumenta, o comportamento de ansiedade. Ativação de canais TRPV1 faz parte de um controle regulatório de "afinação" entre receptores TRPV1 e CB1. Esse mesmo mecanismo, provavelmente através do facilitamento da liberação pré-sináptica de glutamato, está envolvido na capacidade do CBD de inverter a perturbação da inibição de pré-pulso induzida pela hipofunção dos receptores NMDA, e constituem parte das ações antidepressivas/antipsicóticas do CBD.
      5-HT1A é um membro da família de receptores 5-HT, os quais são ativados pelo neurotransmissor serotonina. O receptor 5-HT1A é um importante subtipo de receptor inibitório acoplado à proteína G que existe em duas grandes populações no sistema nervoso (autoreceptores e heterorreceptores), e funcionam através do acoplamento a proteínas Gi/Go que controlam numerosas cascatas de sinalização intracelular, incluindo inibição da formação de AMP-cíclico, inativação dos canais de cálcio, e ativação dos canais de potássio. Autoreceptores 5-HT1A residem no soma e dendritos de neurônios serotoninérgicos nos núcleos da rafe, onde sua ativação hiperpolariza e reduz a taxa de disparo dessas células, e consequentemente os níveis extracelulares de serotonina em suas áreas de projeção. 
      Em contrapartida, heterorreceptores pós-sinápticos 5-HT1A são expressos em áreas-alvo que recebem inervação serotoninérgica. Esses heterorreceptores estão localizados principalmente em neurônios piramidais e em interneurônios GABAérgicos. Eles são altamente expressos em regiões do cérebro envolvidas na regulação do humor e ansiedade, tais como o córtex pré-frontal, hipocampo, e amígdala. Efeitos ansiolíticos e antidepressivos agudos dependem sobretudo da facilitação da neurotransmissão mediada por receptores 5-HT1A em áreas-chave do cérebro ligadas a respostas defensivas, incluindo substância cinzenta periaqueductal dorsal, núcleo do leito da estria terminal, e córtex medial pré-frontal. 
      A ativação de receptores 5-HT1A pelo CBD protege contra várias mudanças emocionais causados por estímulos estressantes através da facilitação de mecanismos envolvidos na capacidade de lidar com a situação estressante. Em relação aos seus efeitos antipsicóticos, a ativação de receptores 5-HT1A evita sintomas extrapiramidais induzidos pelo bloqueio de receptores D2 de dopamina, favorece a neurotransmissão dopaminérgica no córtex frontal, e combate os déficits de interação cognitiva e social induzidos pela hipofunção dos receptores NMDA.
      Glicina é um neurotransmissor inibitório no sistema nervoso central, especialmente na medula espinhal, tronco cerebral, e retina. Glicina atua como um neurotransmissor inibitório clássico nas sinapses glicinérgicas e como um modulador da excitação neuronal mediada por NMDA em sinapses glutamatérgicas. Mecanisticamente, a ligação de glicina ou D-serina influencia alostericamente o receptor de NMDA para aumentar a taxa de recuperação de dessensibilização do receptor durante a ativação sináptica.
      Assim, glicina e D-serina são talvez melhor vistos como definindo a tonalidade para a atividade do receptor NMDA, ao passo que o glutamato regula a atividade temporal e intensidade da resposta. Antagonistas e agonistas parciais do receptor de glicina inibem a função do complexo receptor de NMDA e evocam uma resposta ansiolítica/antidepressiva/antipsicótica. Receptores NMDA/Glicina-B da substância cinzenta periaquedutal dorsal medeiam ambos ansiedade e memórias aversivas, enquanto aqueles no colículo superior estão envolvidos com atenção e componentes visomotores do comportamento de avaliação de risco.
       
      12. "Sativas" Vs. "Indicas"
      As variedades cultivadas não são encontradas na natureza como subespécies reconhecidas. O que provoca a confusão pública é a classificação de "Sativa" e "Indica" pelos breeders/seedbanks, geralmente com base nas características morfológicas do híbrido. Coincidentemente certas variedades com características morfológicas "indicas" (relativamente baixas, densamente ramificadas, folhas largas e buds densos), oriundas da Asia Central (Afeganistão, Paquistão, e Turcomenistão) possuem um perfil terpenóico rico no monoterpeno ß-Mirceno, que quando presente em quantidades elevadas produz efeitos sedativos. E, como as variedades da Ásia Central sempre foram bastante utilizadas na criação de novos híbridos, acabou que uma coisa levou a outra e hoje "indica" é sinônimo de sedação e "sativa" é sinônimo de estimulação, embora ambas pertençam à mesma subespécie (c. sativa ssp. indica). Farmacologicamente, o que importa é o quimiotipo da planta. Estudos mostram que a proporção de THC para CBD pode ser atribuída a um de três quimiotipos e que alelos BT e BD codificam alozimas que catalisam a conversão de CBG para THC e CBD, respectivamente.
      BT/BT - Esse quimiotipo é contraindicado para o grupo de risco (pessoas com um histórico de psicose, depressão, ansiedade ou outros transtornos mentais, bem como pessoas com problemas cardiovasculares preexistente) uma vez que produz níveis baixos de CBD (<2%) e níveis elevados de THC.
      BT/BD - Esse quimiotipo não é aconselhado para casos mais severos. As evidências anedóticas apontam que esse quimiotipo ajuda na maioria dos casos. No entanto, alguns usuários relatam que ainda possuem suas patologias realçadas dependendo das condições e da dosagem utilizada.
      BD/BD - Esse quimiotipo é o mais seguro para o grupo de risco uma vez que produz níveis não muito elevados de THC (<4%) e níveis elevados de CBD. Vale ressaltar que esse quimiotipo basicamente não produz efeitos psicomiméticos, e, portanto, seu efeito é essencialmente de relaxamento através da ação do CBD em outros mecanismos que não os receptores canabinoides.  CBD continua sendo psicoativo uma vez que está afetando a sua mente, mas é ao mesmo tempo ausente dos efeitos psicomiméticos negativos associados ao THC, como ansiedade, medo, paranoia, pânico, despersonalização, dissociação, e etc.
      Quimitipos resultantes das sementes de variedades comercializadas:
      (BT/BT X BT/BT) = THC 1:0 CBD; 100% BT/BT; p.ex Serious Seeds AK-47
      (BT/BT X BD/BD) = THC 1:1 CBD; 100% BT/BD; p.ex CBD Crew Critical Mass
      (BT/BD X BT/BD) = THC 1:1 CBD; 50% BT/BD, 25% BT/BT, 25% BD/BD; p.ex Resin Seeds Cannatonic
      (BT/BT X BT/BD) = THC 3:1 CBD; 50% BT/BT, 50% BT/BD; p.ex ChemDawg Sour Diesel
      (BD/BD X BT/BD) = THC 1:3 CBD; 50% BD/BD, 50% BT/BD; p.ex CBD Crew Yummy
      (BD/BD X BD/BD) = THC 0:1 CBD; 100% BD/BD; p.ex CBD Crew Therapy
       
      13. O maléfico prensado 
      É praxe dos usuários do fórum culpar o prensado por "bad trips" causadas por estresses psicológicos e/ou superdosagem, mas tecnicamente seu único mal é ser um produto de qualidade notavelmente inferior (geralmente cultivado com herbicidas e pesticidas, cheio de contaminantes como mofo, sujeira, excrementos de insetos, etc., e em degradação acelerada devido a prensagem e armazenamento inadequado) a um bud colhido. Ademais, como prensados possuem quantidades irrisórias de CBD, eles não são necessariamente a melhor opção terapêutica para pessoas com um histórico de psicose, depressão, ansiedade ou outros transtornos mentais, ou com problemas cardiovasculares. 
      O medo que alguns usuários possuem de que seus prensados foram possivelmente batizados e que estão tentando viciá-los em crack é irracional. Mesclados de Cannabis e crack quando queimados exalam um cheiro de plástico queimado característico do crack.
       
      14. Considerações Finais
      O fato que a grande maioria dos usuário de Cannabis são adolescentes e jovens adultos não é nenhuma coincidência visto que há um aumento da vulnerabilidade para estresses ambientais durante esse período e o papel essencial do sistema endocanabinoide tanto na regulação de processos de desenvolvimento neurológico, quanto na responsividade do eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal ao estresse e comportamento emocional. Carência ou uma redução na sinalização endocanabinoide é provavelmente crucial para o desenvolvimento de desregulações afetivas e distorções da realidade. 
      O que pode ser feito para remediar os efeitos do estresse crônico, bem como os processos associados com adversidade no início da vida pelos quais experiências alteram a biologia e desenvolvimento humano? Em cada fase do desenvolvimento não há um "voltar a como era antes", e um novo conjunto de possibilidades emerge que oferece oportunidades para influências epigenéticas. Intervenções não irão, portanto, "reverter" eventos de desenvolvimento, mas sim produzir mecanismos compensatórios.
      De fato, o desenvolvimento não termina nunca e adolescentes, adultos jovens, adultos maduros, e indivíduos idosos continuam a apresentar os resultados de experiências, incluindo oportunidades de redirecionamento de tendências pouco saudáveis através de uma variedade de intervenções. Uma das intervenções mais interessantes em modelos animais é a utilização de um "ambiente enriquecido" para reverter efeitos de separação materna no início da vida em respostas hipotalâmica-pituitária-adrenal e comportamentais, indicando a potencial influência de intervenções psicossociais após traumas de vida precoce.
      Intervenções para promover mecanismos compensatórios podem envolver intervenções farmacológicas (incluindo o realçamento do sistema endocanabinoide por fitocanabinoides), bem como intervenções comportamentais (ou seja, as intervenções que envolvem atividade integrada do sistema nervoso central). Intervenções comportamentais incluem terapia cognitivo-comportamental, atividade física, programas que promovam o apoio social, integração social, e desenvolvimento de significado e propósito na vida. Deve-se notar que muitas dessas intervenções que se destinam a promover a plasticidade e desacelerar o declínio que vem com a idade, tais como atividade física e interações sociais positivas que dão significado e propósito, também são úteis para promover saúde e eudaimonia (felicidade e bem-estar) independentemente de qualquer distúrbio notável e dentro da gama de comportamento e fisiologia normais.
    • Por marcio.cott
      Salve galera, beleza? 

      Bom, eu quero tratar um assunto aqui, que já foi bem discutido no fórum, só que não entendi bem, logo, queria ajuda dos amigos que são especialistas em vaporizador para me dar umas dicas.

      Enfim, o que quero saber, é por faixa de temperatura, quais são os efeitos esperados, como por exemplo: "sono, euforizante, um efeito igual o do baseado normal e etc..."...

      Agradeço a paciência dos amiguinhos que puderem interagir comigo sob a questão.
    • Por CanhamoMAN
      Empresa quer fazer primeiro remédio brasileiro à base de maconha
        Felix Lima/Folhapress   Cultivador mostra flor seca da planta GABRIEL ALVES
      DE SÃO PAULO
      28/06/2016  02h00
      http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2016/06/1786355-empresa-quer-fazer-primeiro-remedio-brasileiro-a-base-de-maconha.shtml
       
      Uma start-up do ramo farmacêutico decidiu produzir o primeiro medicamento brasileiro à base de maconha. A ideia é fazer um extrato fitoterápico que trate casos de epilepsia nos quais outros remédios não funcionam.
      O anúncio da iniciativa será feito nesta terça (28) no 26º congresso anual da Sociedade Internacional de Pesquisa de Canabinoides, na Polônia.
      A start-up Entourage Phytolab busca desenvolver um medicamento fitoterápico à base de maconha desde que foi fundada, em 2015. A previsão dela é que a droga seja lançada em 2018.
      A vantagem de um medicamento brasileiro, desenvolvido e testado no país, seria a segurança e a garantia de fornecimento para quem necessita da droga –que não precisaria mais depender, como ocorre hoje, de autorizações para importá-la.
      Os principais componentes do extrato da erva são o tetra-hidrocanabinol (THC) e o canabidiol (CBD). O primeiro é psicotrópico; o segundo, não.
      Tanto o THC quanto o CBD têm propriedades farmacológicas que os fazem ser de interesse medicinal. O problema é o grande potencial de abuso, principalmente do THC –isso dificulta o licenciamento de medicamentos baseados no composto.
      A iniciativa da Entourage, no entanto, está direcionada para a produção de um extrato que seja rico em CBD e com pouquíssimo THC. Para isso, serão utilizadas flores de uma variedade de cannabis fornecida pela Bedrocan, multinacional especializada em produção para uso medicinal.
      Cultivo de maconha
      4 de 4    Felix Lima/Folhapress AnteriorPróxima Os demais componentes da erva não serão eliminados, de acordo com Caio Santos Abreu, diretor-executivo da start-up. O motivo é que a pequena fração de outras moléculas pode ajudar no efeito do CBD, reduzindo os efeitos colaterais e balizando os efeitos farmacológicos desejados.
      Esse efeito de várias moléculas ajudando a ação de uma outra é conhecido como "efeito entourage" e tem ganhado entusiastas no meio acadêmico, particularmente entre os que estudam o sistema de receptores canabinoides, presentes em vários tecidos do corpo humano.
      Isso transformaria, em tese, a desvantagem de ter um remédio "sujo", não puro, em uma vantagem –já que seria praticamente impossível repor artificialmente as inúmeras moléculas presentes no extrato da cannabis.
      Não se sabe exatamente qual é o mecanismo de ação do CBD para tratar a epilepsia, mas isso não inviabiliza o estudo de uma nova possibilidade de tratamento, diz Fabrício Pamplona, diretor-científico da Entourage.
      "Sabe-se que há um controle especialmente eficaz quando há excesso de excitabilidade neuronal característico de uma crise epiléptica", afirma o farmacêutico.
      Depois da padronização da obtenção do extrato candidato a medicamento, haverá testes em ratos para garantir a segurança do processo.
      É aí que entra em cena a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que deve supervisionar e chancelar todas as etapas de testes clínicos em pessoas e animais.
      Por se tratar de tecnologia desenvolvida no Brasil, em uma questão de saúde importante para a qual não há tratamento (epilepsias refratárias, como a síndrome de Dravet), Abreu espera que o projeto transite com celeridade.
      Da parte científica, não são esperadas dificuldades para se cumprir as etapas necessárias, dados que diversos estudos anteriores apontam na mesma direção para a qual a start-up está mirando.
      Um medicamento à base de CBD da farmacêutica GW chamado Epidiolex obteve bons resultados em estudos -54% de redução no número de crises. Em breve pode haver o registro nos EUA.