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Rituais Do Santo Daime: Uma Viagem Que Não É Para Todos


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Rituais do Santo Daime: uma viagem que não é para todos

21/03/2010 - 00h00 (Outros - A Gazeta)

Elaine Vieira

evieira@redegazeta.com.br

Utilizado há séculos pelos índios e transformado em religião pelos desbravadores da região amazônica, o chá de ayahuasca, mais conhecido como chá do Santo Daime, voltou a causar polêmica após o assassinato do cartunista Glauco Villas Boas e de seu filho, no último dia 12. O universitário Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, que confessou o crime, estaria numa espécie de surto psicótico, causado pelo uso de drogas. Ele era discípulo da seita da qual Glauco era dirigente, e já havia tomado o chá várias vezes.

Não há certeza, ainda, se o chá ajudou a desencadear a fúria do jovem. Mas os próprios adeptos reconhecem os riscos. No Daime, uma máxima diz que o chá é para todos, mas nem todos são para o chá. "Os riscos são mais psicológicos do que fisiológicos. Há casos de surtos psicóticos, principalmente em quem tem alguma predisposição", relata o especialista na farmacologia da ayahuasca Rafael Guimarães dos Santos, que já sentiu na pele os efeitos do chá. Ele, que desenvolve tese de doutorado sobre o tema, deixou a religião, mas continua a defender a liberdade de culto.

O uso do chá é autorizado pela legislação brasileira, em média, a cada 15 dias, desde que exclusivamente dentro dos rituais religiosos. As religiões ayahuasqueiras têm o aval do Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (Conad), que descartou a hipótese de dependência e prejuízos a longo prazo.

Triagem

Os dirigentes do culto garantem que não é fácil ser aceito nesses centros. "Fazemos uma triagem, com avaliação psicológica. Quem tem problemas mentais ou está sob efeito de drogas não pode tomar o chá. É uma questão de segurança", destaca Soter Lyra, advogado, 31 anos, adepto do chá desde os 13, e representante da União do Vegetal (UDV), a mais rígida das doutrinas ayahuasqueiras, que só no Estado tem 140 membros, chegando a 15 mil no país.

A orientação é que usuários evitem álcool e outras drogas pelo menos dois dias antes de uma sessão do chá. Mas muitos chegam a largar o vício depois de bebê-lo. Em 1993, um grupo formado por mais de 30 psiquiatras americanos realizou um estudo com sócios da UDV. Dos 15 usuários do chá analisados, 11 tinham problemas de alcoolismo antes da conversão, e todos eles se livraram do vício. Mas nada está totalmente provado.

Para os adeptos, o chá é um meio de entrar em contato com o divino, uma ponte para o autoconhecimento, não uma cura. "Assim como muitas igrejas evangélicas conseguem tirar as pessoas do vício, a UDV também consegue, e por um único motivo: a fé", destaca Soter.

Mas é preciso ter cuidado. Para o médico especialista em dependência química João Chequer, o chá é uma droga como outra qualquer. "Talvez o uso moderado, feito nos rituais, não seja capaz de criar problemas. Mas a composição representa, sim, um risco, principalmente se for tomado sem o devido acompanhamento e combinado com outras drogas", alerta.

Religião justifica liberação

Mesmo sendo uma substância considerada alucinógena pelos médicos, o uso da ayahuasca em rituais religiosos é legalizado no Brasil.

É a Constituição Federal que garante a liberdade de culto e religião.

"O uso do chá é religioso. E essa é uma prática que vem desde o início do século passado. Cabe ao Estado reconhecer e garantir sua existência", esclarece o secretário do Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (Conad), general Paulo Uchoa, em entrevista à Rádio CBN.

Segundo ele, outro ponto que favorece o chá é um parecer da ONU, que afirma que nem o cipó, nem a folha, contêm efeitos alucinógenos isoladamente. Uchoa destaca que o consumo é autorizado apenas nas cerimônias religiosas, sob responsabilidade social dos dirigentes das unidades.

A preocupação das autoridades é evitar a banalização do chá. "As curas ocasionais devem ser entendidas como ato de fé, como em todas as religiões", ressalta Uchoa.

Além da regulamentação, as religiões da ayahuasca também estão lutando pelo reconhecimento como Patrimônio Cultural Imaterial do país.

Drogas banidas do ritual

O uso de drogas é uma polêmica dentro e fora das religiões que usam a ayahuasca. Atualmente, o uso é oficialmente proibido tanto no Santo Daime quanto na União do Vegetal (UDV).

Mas a maconha já chegou a fazer parte dos rituais do Cefluris (Centro Eclético de Fluente Luz Universal Raimundo Irineu Serra), uma das vertentes do Santo Daime. A prática foi proibida para garantir a regulamentação como religião, destaca o especialista em farmacologia da ayahuasca Rafael Guimarães dos Santos.

O Cefluris foi criado por Sebastião Mota de Melo, que seguia o mestre Raimundo Irineu - criador do Santo Daime - na doutrina Alto Santo. Após a morte de Irineu, Sebastião criou o Cefluris, responsável por expandir a doutrina.

Em decorrência do uso anterior, a maconha é conhecida pelos adeptos do Daime como Santa Maria. Mas o uso de drogas é altamente condenado tanto pelo Daime quanto pela União do Vegetal (UDV). "Temos casos de sócios usuários ou ex-usuários, mas a recomendação é de que a pessoa não use nada, nem bebida alcóolica, pelo menos nos dois dias que antecedem os rituais, para ficar livre, para sentir os efeitos do chá", explica o representante da UDV no Estado, Soter Fernandes Lyra.

Homens e mulheres têm atividades diferentes

Homens e mulheres exercem papéis diferentes no ritual de produção do chá ayahuasca. As mulheres são responsáveis pela colheita e limpeza da folha da chacrona, chamada de Rainha pelos adeptos, e que seria responsável pela "luz" recebida por quem toma o chá. A "força" fica por conta dos homens, representada pelo cipó mariri.

O cipó é macerado e unido às folhas para depois ser cozido por várias horas, podendo chegar a 600°C. O chá é bebido em dois rituais: a concentração e a celebração ou bailado.

Na União do Vegetal (UDV), outra corrente, que produz seu próprio chá, a bebida é ingerida apenas uma vez por ritual.

O efeito do chá começa de 20 a 40 minutos após a ingestão e dura quatro horas. No ritual de bailado, os hinos são uma constante. Mestre Irineu, o fundador da religião, produziu 128 hinos, todos concebidos sob efeito do chá. (Com informações de Rodrigo Rezende)

Sob efeito

"Fiquei paranóico durante semanas"

Rafael Guimarães dos Santos. Especialista na farmacologia da ayahuasca

Em geral, usuários da ayahuasca se sentem mais tranquilos, confiantes, esperançosos, e pudemos observar isso em laboratório. Eu parei de usar. Depois de dois anos no Santo Daime, tive reações durante um ritual. Tomei o chá junto com maconha, como fazia eventualmente, fiquei paranóico, e o surto durou semanas. Cheguei a pensar em suicídio. "As pessoas vão me matar para fazer um sacrifício humano, vou me matar antes", era tudo o que eu conseguia pensar. Cheguei a me cortar durante uma cerimônia. Precisei de remédios para voltar ao normal. E depois, numa outra sessão, mesmo sem a maconha, voltei ao estado paranóico e enfrentei mais um ano de tratamento. Provavelmente foi uma predisposição minha. Pelos estudos que tenho feito, sei que casos como o meu são raros. Nem isso abala a importância da liberdade de culto."

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