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  1. Contra o conservadorismo Pedro Dória 08.01.2005 | Com a guinada conservadora dos EUA, é preciso um contrabalanço de influência cultural, não apenas no Brasil mas em todo o mundo. Obviamente não é saudável um planeta dominado por uma única potência, mas jamais isso esteve tão claro quanto agora. Do ponto de vista econômico, a China parece candidatar-se. Mas é uma ditadura e ditaduras não têm nada a dizer quando o assunto é liberdade. Nos sobra a Europa. Porque, se no debate econômico a turma liberal parece estar levando franca vantagem, no debate cultural a discussão está em aberto ainda. E é justamente neste tipo de assunto que é preciso, sim, fazer valer o credo liberal de mais e mais liberdade para o indivíduo. É onde questões como casamento homossexual, a legalização de drogas e aborto e permissão de pesquisa científica com células-tronco surgem. No fundo, é um debate entre religiosos e seculares. A Europa equilibra-se desigualmente do ponto de vista econômico mas, culturalmente, caminha junto no sentido oposto ao dos EUA. O casamento entre homossexuais, por exemplo, é legal na Holanda e na Bélgica e, agora em 2005, será legalizado na Espanha e Suécia. Na França, 64% da população é favorável à medida e o Partido Socialista, principal da oposição, diz que vai implantá-la tão logo torne ao poder. De qualquer forma, uniões civis entre parceiros do mesmo sexo, ou casamento sem o nome, já são legais na própria França, como o são na Dinamarca, Finlândia, Alemanha, Islândia, Noruega, Portugal, Reino Unido, Suécia e Suíça. Quando o assunto é drogas, vê-se a mesma sintonia. Em dezembro agora, o Parlamento Europeu reconheceu oficialmente que a guerra às drogas é um fracasso. O Relatório Catania, como é chamado o documento, não apenas recomenda penas alternativas à prisão como sugere que a Europa estude projetos-piloto de industrialização de maconha e cocaína. A posse para consumo recreativo de maconha é legal em países como Alemanha, Luxembugo, Holanda e Portugal, além de ser tolerada na Bélgica, Reino Unido e Suíça. O aborto é virtualmente legal em todos os países da UE e, quando há restrições, referem-se ao período da gravidez em que ele é permitido ou, em casos como o da Espanha, exigem que se declare o motivo previamente. O uso de células-tronco embrionárias para pesquisa é legal na Suíça, Finlândia, Grécia e Holanda. No Reino Unido, vão temerariamente além: lá, é permitido criar embriões humanos para estudo. É verdade que, para mostrar-se como potência alternativa, a Europa ainda precisa conseguir equilibrar-se. Este será um ano decisivo. É quando virá o plebiscito em vários países para homologação da Constituição da União Européia e teme-se uma derrota na França, o que atordoaria as negociações. A Igreja não gostou quando o documento tomou um viés laico, não declarando as raízes católicas do continente. Será uma boa idéia, também, que as negociações diplomáticas com o Irã para impedir o país de armar-se com ogivas nucleares dêem resultado. É mais difícil, claro, mas por outro lado é preciso apresentar ao Oriente Médio uma alternativa ao jeito Bush de resolução de problemas. O dilema maior será, eventualmente, a entrada da Turquia na União Européia – as conversas estão começando. Quando vier, em uma década, é capaz de vir como o país de maior população da União e também o mais marcadamente religioso e conservador. Nos próximos anos, haverá também um novo papa. João Paulo II foi um homem importante na promoção da queda do comunismo mas também forçou uma guinada conservadora do catolicismo. Quem estiver no Vaticano terá alguma influência nos destinos europeus – vai facilitar se for alguém disposto a reformas mínimas. Tolerar o uso de preservativos, por exemplo, é bom começo. Mas, independentemente disso, nada justifica que o Brasil abafe tais debates – com a honrosa exceção, recente, do aborto dos anencéfalos. Sim, claro: é característica pátria. A cordialidade que nunca discute. Veja-se, no entanto, a vizinha Argentina. A união civil entre pessoas do mesmo sexo é legal na província de Buenos Aires (onde vive metade da população do país). E um estudo realizado no país chegou à conclusão de que a cannabis pode ajudar no tratamento de tétano, cólicas, esterilidade, impotência, tuberculose e várias outras. Por conta disso, foi ao Congresso, em 2001, um projeto pela legalização de seu uso médico. Como empacou, 12.000 argentinos foram às ruas da capital cobrar mudança em 2003. Pode parecer pouco, mas foi a segunda maior manifestação pública pela maconha jamais feita. Essa mudança social tem motivos. Conforme a liberdade deixa de ser um anseio de gente que vive em ditaduras, é preciso mais dela. O Estado provavelmente não tem o direito de impedir que adultos capazes consumam o que bem quiserem, como não tem o direito de conceder garantias a um tipo de casal e negar a outro. E é preciso ter um coração de pedra para não possibilitar o uso de um punhado de células para pesquisas que possam combater doenças que afetam a mente dos velhos ou a capacidade de andar dos jovens. Mas, no fim, é também uma questão de pragmatismo. Nem o consumo de drogas nem o aborto, por exemplo, vão acabar. Torná-los ilegais, muitas vezes, pode ser uma condenação à morte. Não raro, em todos os casos, aqueles que saem mais prejudicados são os pobres. www.nominimo.com.br
  2. 09/12/2004 O preço da liberdade Hélio Schwartsman Da vasta correspondência que recebi por conta de minha coluna anterior (já publicada aqui na Grow), surgiu um apoio intrigante. Alguns leitores me escreveram para dizer que concordavam com a minha tese de que cabe ao indivíduo escolher seus próprios caminhos, exercendo a autonomia. Iam ainda mais longe e afirmavam que cada qual é livre para drogar-se, se for essa a sua opção, mas que os dependentes não deveriam ter direito de onerar o Estado com despesas médicas geradas pelo vício. Certos missivistas avançaram ainda mais e sugeriram que o poder público não deveria atender a alcoólatras, fumantes nem mesmo a pacientes de Aids. Reconheço que há lógica por trás dessa argumentação, mas não posso concordar com ela. Acredito que, se uma dada sociedade renuncia a todos os princípios de solidariedade, como parece fazer aquela que nega tratamento médico para quem precisa, ela perde sua razão de ser. Não vivemos em grupo apenas porque calhou de sermos vizinhos. O gregarismo é elemento constitutivo da própria humanidade. Foi por viver lado a lado com outros de sua espécie, ajudando-os e sendo por eles ajudado, que nossos ancestrais puderam dispor de uma dieta rica em proteínas animais que foi fundamental para que seu cérebro se desenvolvesse da forma que o fez, tornando-os mais espertos que outros grupos de primatas. Não estou, com isso, afirmando que o homem seja naturalmente bom, como o fez Rousseau, nem que a solidariedade seja a mais humana das virtudes. Muito pelo contrário, nossa espécie é violenta, agressiva e freqüentemente bastante estúpida. Mesmo assim, soube fazer alianças com base no altruísmo recíproco que a beneficiaram, levando-a assenhorar-se do planeta. Agora que vivemos num ambiente bem menos hostil do que o de nossos antepassados, temos ainda menos razões para abandonar o princípio da aliança de ajuda mútua. Voltando ao caso concreto, acho que o poder público deve prestar auxílio médico e previdenciário a quem dele necessite, independentemente das escolhas individuais que possam ter levado a pessoa ao estado de precisão. É verdade que a esmagadora maioria dos dependentes químicos fez em algum momento uma opção consciente não pelo vício, é claro, mas por correr o risco de tornar-se dependente. Não era um cálculo absurdo. A maior parte dos que tomam um copo de uísque, fumam um baseado ou cheiram uma carreira de cocaína não se viciam. Já a minoria que o faz padece de uma doença. A partir de um certo momento, instala-se a dependência. Aí as escolhas feitas pelo indivíduo já são "menos livres". Os centros de recompensa do cérebro se voltam inteiramente para a droga. Sem ela, nenhuma atividade proporciona prazer. O mundo se torna sombrio e sem graça. Para que volte a ser um lugar tolerável, é preciso conseguir uma dose da substância, pela qual o dependente fará quase tudo, inclusive roubar, prostituir-se e outros pecados burgueses. Romper esse ciclo não é de modo algum impossível, mas costuma ser difícil. É uma tarefa trabalhosa, que pode exigir acompanhamento médico. Não creio que devamos abandonar o dependente à própria sorte apenas porque, no passado, ele aceitou correr esse risco. Se levássemos esse argumento às últimas conseqüências, o Estado também não deveria prestar atendimento ao portador de câncer fumante ou ao cardiopata que abusava do churrasco. A sugestão de deixar de distribuir gratuitamente remédios para pacientes de Aids é ainda mais grotesca. Quem ainda acredita que essa moléstia é um castigo imposto por Deus aos de comportamento dissoluto e moral pecaminosa deveria lembrar que a via sexual não é a única forma de transmissão da doença. Esse, aliás, era um preconceito que eu em minha ingenuidade já imaginava extinto. A rigor, não faz sentido pensar num atendimento médico que não seja universal. Até as mais insuspeitas das doenças apresentam características genealógicas que podem ser ligadas a fatores ambientais relacionados a estilos de vida. Acredita-se, por exemplo, que a nuliparidade (jamais ter tido filhos) seja um fator que contribua para o surgimento do câncer de mama. Pelo raciocínio de meus missivistas, deveríamos deixar de tratar da mulher sem filhos e com câncer porque ela teria desenvolvido a moléstia ao escolher não tornar-se "uma boa mãe", nos padrões que a "natureza" nos impõe. Se as estéreis reclamarem da "injustiça", diremos que elas certamente não podem ter filhos como punição pelos erros cometidos em vidas passadas. Quem trabalhou bem a questão do peso de nossas escolhas foi o pensador francês Jean-Paul Sartre (1905-1980). O ponto de partida do filósofo, como bom materialista que foi, é o de que a existência humana precede a essência. Se uma casa foi uma idéia --uma essência-- na mente do arquiteto antes de ser construída, o mesmo não se dá com o homem. (Para Sartre, Deus não era uma opção). Nós apenas existimos, sem determinações. Vamos fabricando nossa essência por meio de nossas ações e decisões. A existência sartriana é um processo, uma projeção das inúmeras possibilidades que temos diante de nós e que realizamos ou rejeitamos mediante escolhas. E ela nos torna indesculpavelmente responsáveis pelo que fazemos ou deixamos de fazer. Só o que resta, para Sartre, é a liberdade, ainda que "situada", ou seja, sob condições externas não controladas pelo indivíduo. O usuário de drogas pode escolher consumi-las e acabar dependente, tendo assim diminuída sua capacidade de tomar decisões que não sejam mediadas pela química. Ainda assim sua condição presente será resultado de suas opções passadas. E até o dia de sua morte ele conservará o poder de tornar-se o que escolher ser dentro das circunstâncias que lhe são dadas externamente. Essa liberdade é muito mais uma tortura do que uma dádiva. Daí que Sartre dizia que estávamos "condenados à liberdade". Não escolhemos existir e muito menos no miserável, angustiante e nauseabundo mundo existencialista. Mas, uma vez lançados na vida ao nascer, somos responsáveis por tudo o que fazemos. É uma filosofia radical, admito. No limite, justifica-se o ato terrorista. O seqüestrador que explode uma escola cheia de crianças nos confins da Rússia não age contra inocentes porque não existem inocentes. A responsabilidade é tanta que todos seríamos culpados desde o nascimento. OK. Podemos rejeitar Sartre lembrando que ele era ateu e ainda por cima comunista. Mesmo assim, é difícil rechaçar certos elementos de seu pensamento. A negação da responsabilidade implica um mundo regido pelo acaso ou pelo destino. Se não sou eu o responsável pelo que me acontece, ou ninguém o é ou tudo é parte de um plano divino. Na primeira hipótese, matamos o Deus onisciente. Ora, foi justamente daí (da existência anterior à essência) que Sartre partiu para deduzir seu existencialismo radical. Na segunda hipótese, resgatamos o Deus onisciente, mas daí sacrificamos a noção de livre-arbítrio que é nuclear para o cristianismo (tudo já está escrito no livro do destino). "O homem tem livre-arbítrio. De outro modo, conselhos, exortações, ordens, proibições, recompensa e punição seriam vãos." O autor da frase é insuspeito: santo Tomás de Aquino ("Summa Theologica", Questão 83). Se eu fosse cínico, diria que precisamos legalizar as drogas para que o plano de Deus faça sentido. Como não o sou, afirmo apenas que, seja para o diabólico Sartre, seja para o Divino Doutor, somos --gostemos ou não-- os responsáveis por nossas ações. E o fato de os infortúnios que acometem uma pessoa muitas vezes decorrerem de escolhas feitas por ela não deve impedir-nos de ajudá-la quando ela precisa de auxílio e quer recebê-lo. Essa solidariedade não se justifica porque desejamos ser salvos e ir para o céu, mas tão-somente porque escolhemos, sartrianamente, ajudar. Hélio Schwartsman é editorialista da Folha. Escreve para a Folha Online às quintas http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata...lt510u174.shtml
  3. 5/12/2004 - 23h40 Secretaria da Justiça promove debate sobre o uso de drogas da Folha Online O Conen (Conselho Estadual de Entorpecentes), em parceria com a Secretaria da Justiça e Defesa da Cidadania, promove, nesta quarta-feira, um encontro estadual para o debate sobre o uso de drogas. No encontro, que acontecerá no Espaço da Cidadania, palestrantes e debatedores convidados irão tratar de temas como redução de danos, drogas na mídia e envolvimento de adolescentes com as drogas. O evento é aberto ao público em geral. O encontro acontecerá no Espaço da Cidadania, que fica na Secretaria da Justiça e Defesa da Cidadania, no Páteo do Colégio, 184, em São Paulo. O evento será das 8h30 às 17h30. http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidia...95u102687.shtml
  4. 15/07/2004 Drogas: o difícil é difícil Hélio Schwartsman Como era previsível, recebi mais de uma centena de e-mails por ocasião de minha coluna anterior, na qual sustentei que as proibições impostas pelo Estado a seus cidadãos devem ser no menor número possível, restringindo-se ao que é essencial para o funcionamento da sociedade. Ilustrei minha tese defendendo, de uma só vez, o direito ao aborto e à eutanásia, a legalização de todas as drogas, o casamento gay, o fim do voto e do serviço militar obrigatórios. Como é compreensível, não pude dar conta do volume de correspondência que tomou de assalto minha caixa de correspondência, pelo que peço desculpas. Para ser tão democrático quanto possível, optei por não responder a nenhum leitor individualmente. Ensaio agora uma réplica geral. Antes, porém, devo anunciar que a grande maioria das mensagens que recebi foi de pessoas que estão de acordo com minhas idéias. É, assim, com satisfação que constato que religiosos vão desistindo de tentar salvar minha alma imortal. Passemos agora às críticas. Alguns me acusaram de atirar para todos os lados e, ao fazê-lo, perder o alvo. Concordo em parte. Foi de fato temerário juntar --não sem algum espírito de provocação-- tantas proposições polêmicas num artigo relativamente curto. O resultado, em muitos aspectos, deixou a desejar. É por isso que eu agora retomo os pontos mais controversos cercando-me mais de argumentos e menos de paixão. A questão que mais mensagens suscitou foi a da legalização das drogas. Devo, outra vez, esclarecer que não sou a favor das drogas. Aliás, nem creio que elas possam ser objeto de juízos de valor como "contra" ou "a favor", assim como não podemos ser "contra" ou "a favor" de rosas --elas simplesmente existem! Que entorpecentes fazem mal, é mais do que evidente. Muitos chegam até a matar, aguda e/ou cronicamente. Num mundo ideal, eles nem existiriam. Mas nosso planeta tem pouco de ideal. A questão é que, como as rosas, drogas simplesmente existem. E nós não vamos conseguir acabar com elas, mesmo que torturemos e executemos traficantes e usuários. Reconhecer essa realidade é o primeiro passo para uma abordagem racional do problema. A verdade é que substâncias inebriantes costumam proporcionar bastante prazer para seus usuários, pelo menos nas primeiras utilizações. Também é verdade que a maioria das pessoas que experimenta drogas consegue sobreviver relativamente incólume a elas, abandonando-as depois de algumas vezes ou seguindo com um uso apenas eventual, sem conseqüências devastadoras para a saúde. Os mecanismos que levam alguém a tornar-se dependente ainda não estão muito claros, mas, ao que tudo indica, relacionam-se tanto com a substância utilizada como com as estruturas psíquicas do usuário. O álcool, por exemplo, vicia menos rapidamente do que a heroína, mas isso não faz dele um problema menor. Pelo contrário, o hábito de beber está tão disseminado que ele é uma ameaça incomensuravelmente maior à saúde pública do que as drogas ilícitas. A vantagem de manter substâncias como maconha, cocaína e heroína fora da lei é que reduzimos as chances de um dia elas virem a ser tão amplamente difundidas quanto o álcool, hipótese que se afigura como um pesadelo para sanitaristas. Já a principal desvantagem é a associação das drogas com o crime e a grande violência e corrupção gerada por traficantes. Não devemos, é claro, ser ingênuos a ponto de proclamar que a legalização resolveria o problema da barbárie urbana em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo. Delinqüentes que hoje vivem do comércio de drogas não se tornariam da noite para o dia respeitáveis homens de negócios. O mais provável é que migrassem para outras atividades criminosas. Ainda assim, é razoável esperar que parte da violência e da corrupção desaparecessem. O fim da famigerada Lei Seca nos EUA contribuiu para reduzir o poder dos gângsteres. Outro benefício potencial da legalização (ou pelo menos da descriminação) seria a maior facilidade para os serviços de saúde chegarem ao dependente, oferecendo-lhes programas de recuperação e permitindo traçar políticas de redução de danos, como a troca de seringas e a distribuição de camisinhas. Alguns dos que criticaram minha posição liberal disseram que não estavam dispostos a arcar com os custos de tratamento de dependentes. Bem, outra vantagem da legalização é que o Estado poderia definir uma carga tributária sobre as drogas que ao menos se aproximasse daquela necessária para cobrir as despesas em que elas acarretam. Nesse caso, seriam os usuários que estariam pagando conjuntamente pelos prejuízos, algo que, diga-se, também deveria ocorrer com as drogas legais, isto é, o álcool e o tabaco. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o montante de impostos que incide sobre esses produtos ainda é, na maioria dos países, bem inferior às despesas que eles geram. Outro argumento levantado contra as liberalização é que o dependente, para garantir seu quinhão diário de veneno, é capaz de roubar e matar. É verdade, mas, se não houvesse proibição, o próprio Estado poderia, nos casos mais graves de dependência, oferecer a droga a quem se dispusesse a participar de programas de redução de danos. Vale lembrar que, sem o que os economistas chamam de "imposto da ilegalidade", ou seja, o sobrepreço por conta de a substância ser ilícita, os custos de produção de sais como a cocaína ou a heroína não seriam muito maiores do que os de uma aspirina. Como eu já disse mais acima, a única razão que deveria nos fazer pensar duas vezes antes de legalizar tudo e criar a Narcobrás --pronta a conquistar novos mercados no exterior-- é o risco nada desprezível de tornarmos o padrão de consumo das substâncias ilícitas comparável ao das lícitas, isto é, transformarmos o menos de 1% de dependentes de cocaína em algo como os 10% ou 15% de alcoólatras. A correlação entre exposição e uso patológico parece inegável. Não creio, contudo, que devamos liberar tudo já. Essa tese talvez seja defensável em países mais ricos, com melhor sistema educacional e de saúde, onde as pessoas podem ser direta e insofismavelmente responsabilizadas pelas decisões que tomam. No Brasil, precisamos caminhar com mais calma. Mas a rota me parece inequívoca: descriminar o uso já e ir substituindo a política proibicionista pela redução de danos, dedicando especial atenção aos jovens, mostrando-lhes que suas escolhas têm conseqüências, por vezes fatais. É claro que isso é muito mais fácil de dizer do que fazer, mas, como afirmou recentemente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, "o difícil é difícil". PS - Pretendia também comentar a questão do aborto, mas o espaço que arbitrariamente atribui à tolerância do leitor, que é de 6 Kb, se esgotou. Deixo o tema para a próxima semana, se não houver intercorrências.
  5. doutor_freud

    Schwartsman e as drogas

    Galera.....estou publicando dois textos antigos do Hélio Schwartsman pois são a prova de que existe, sim, vida inteligente na grande imprensa. Este é um dos jornalistas que mais defende as liberdades individuais. Acompanho sempre suas colunas. Essas saíram no mês de julho e causaram muita polêmica entre os leitores da Folha OnLine. Para percebermos como as drogas são um tremendo tabú. Percebam que se trata de um jornalista importante, editorialista do maoir jornal do país, ou seja, uma das cabeças que decidem o que todos nós leremos toda manhã. Não é por acaso que a Folha de São Paulo tem se mostrado favorável a uma mudança radical na política de drogas no país. Eu realmente detesto esse jornal (tendencioso mas com pretensões de imparcialidade), mas nesse quesito tenho que tirar o chapéu. Um abraço Fred 08/07/2004 Liberou geral! Hélio Schwartsman Raramente perco a esportiva, mas uma coisa que me tira do sério são pessoas tentando determinar o que eu devo pensar ou fazer. É claro que não sou ingênuo a ponto de advogar pela abolição de todas as leis e regulamentações. Embora eu seja, em espírito, um advogado do "é proibido proibir", meu lado prático rejeita esse belo postulado. Não é preciso muita imaginação para perceber a confusão que seria se deixássemos, por exemplo, a critério de cada motorista decidir se ele vai trafegar pela direita ou pela esquerda da pista. Reconhecer que existem matérias sobre as quais um poder central precisa legislar não deve fazer com que abandonemos a idéia de que o Estado democrático deve dar aos cidadãos a maior liberdade possível. Se a proibição de todas as proibições é inviável, devemos ao menos zelar para que só seja proibido aquilo que definitivamente precisa sê-lo. Como o arguto leitor já deve ter percebido, estou a um passo de defender, de uma só vez, meia dúzia de teses bastante polêmicas, incluindo o direito ao aborto e à eutanásia e a legalização de todas as drogas, passando pelo fim do voto obrigatório, do serviço militar e a defesa do casamento gay. Se tivesse um pouco mais de juízo, sustentaria cada uma delas separadamente, para não me indispor com muita gente ao mesmo tempo. A irritação com aqueles que pretendem impor-me suas verdades, porém, fez com que eu perdesse os vestígios de ponderação que ainda pudesse conservar em relação a esse assunto. No mais, se estamos dispostos a abraçar os fundamentos da idéia de liberdade, não podemos temer suas conseqüências. Causou-me especial revolta ver um distinto senhor cujo nome omito por uma questão de elegância defendendo nas páginas da Folha da semana passada a idéia de que ele e a sociedade --seja ela quem for-- podem escolher os filmes que meus filhos assistirão. Não tenho dúvidas de que esse senhor está imbuído das melhores intenções, mas, assim como eu não pretendo definir e nem interferir sobre a cultura cinematográfica dos filhos que ele possa ter, sinto-me no direito de exigir tratamento idêntico. Antes que me tomem por um liberal individualista selvagem que reifica os próprios filhos e tenta transformá-los em propriedade privada, devo esclarecer que acredito, sim, que o Estado tem o dever de proteger crianças de seus pais, se for o caso. Se eu fosse juiz, não pestanejaria, por exemplo, antes de determinar que uma criança filha de testemunhas de Jeová em choque hemorrágico recebesse uma transfusão de sangue, embora os seguidores dessa religião rejeitem categoricamente esse procedimento médico. (Estou entre os que defendem o direito de testemunhas de Jeová recusarem as transfusões, mas não creio que o princípio se aplique a menores). Mas não há como comparar uma situação de vida e morte ou de maus-tratos com visões pedagógicas mais ou menos liberais. E, até onde sei, ninguém ainda demonstrou a correlação entre assistir filmes "impróprios" quando jovem e tornar-se um psicopata homicida na vida adulta. Antes de prosseguir, é preciso esclarecer que existe uma diferença lógica entre minhas posições liberais --que alguns leitores poderiam classificar como "as verdades do colunista"-- e as teses mais conservadoras --as "verdades dos outros". Enquanto o católico fervoroso pretende proibir todas as mulheres de abortar, eu quero apenas garantir que aquelas que não fazem objeções de consciência ao processo tenham o direito de fazê-lo. A mulher católica seguirá livre para jamais abortar, mantendo-se fiel ao que entende ser determinações divinas. Admitamos ainda, para fins de argumentação, que o aborto configure mesmo um homicídio. Nesse caso, deve-se lembrar que mesmo as mais conservadoras das legislações consideram certos homicídios justificáveis, como os praticados em legítima defesa ou no estrito cumprimento do dever. A própria Igreja Católica já usou e abusou da pena de morte e, até onde sei, jamais emitiu documento oficial condenando essa prática. Temos aqui que nem para o Vaticano a defesa da vida é um princípio tão inegociável assim. O que eu sustento, no fundo, é o célebre "viva e deixe viver". A idéia por trás dessa sentença é tão disseminada que fica difícil até encontrar-lhe um primeiro autor. A referência mais antiga que achei é a de Petrarca, que, no século 14, escreveu: "Vos vestros servate, meos mihi linquite mores" (Preservai os vossos costumes e deixai os meus para mim). Eu não consigo entender, por exemplo, como alguém pode ser contra o homossexualismo. Desde que não queiram tornar a prática obrigatória, o que duas pessoas do mesmo sexo fazem consensualmente numa cama é assunto que só diz respeito a elas. Acredito que o papel do Estado no que diz respeito a questões como uso de drogas é esclarecer ao máximo o cidadão das conseqüências possíveis de seus atos, mas as decisões propriamente ditas devem ser deixadas para o indivíduo. Se alguém, devidamente informado dos riscos da cocaína, insistir em utilizá-la deve poder fazê-lo. Não cabe à autoridade pública impedi-lo de fazer mal a si mesmo. É claro que precisamos de algumas leis para evitar que pessoas dopadas ou bêbadas conduzam automóveis ou operem máquinas, hipótese em que se tornam um risco real para a sociedade, mas tentar impedi-los de beber ou drogar-se é tarefa fadada ao fracasso que ainda consome preciosos recursos públicos. Admito, por certo, que o poder público procure induzir ao comportamento seguro. Campanhas publicitárias, aulas de redução de danos nas escolas e políticas fiscais punitivas são instrumentos mais do que legítimos. O ideal é que a carga de impostos que incide sobre esses venenos pelo menos cubra os custos do Estado com tratamento médico e aposentadorias precoces dos dependentes. No mais, drogas devem ser caras o bastante para manter os jovens tão longe delas quanto seja possível. Não defendo, é claro, que legalizemos todos os entorpecentes agora mesmo, hipótese em que criaríamos um sério problema de saúde pública, mas não vejo muito como fugir a esse norte para o qual se deve caminhar paulatinamente. O modelo proibicionista e repressivo já mostrou que não funciona. Insistir nele não faz muito sentido. O Estado democrático precisa começar a tratar as pessoas como sujeitos autônomos capazes de tomar suas decisões, por irracionais ou absurdas que pareçam a um observador externo. A tarefa nada tem de simples. Afinal, boa parte das religiões, que estão na base das tendências mais retrógradas da sociedade, segue afirmando uma suposta universalidade. Ministros religiosos não se contentam em tentar fazer com que seus fiéis cumpram com as exigências que lhes são propostas, mas ainda tentam impor suas verdades a todos, mesmo os que não acompanham seus axiomas. A posição liberal de admitir quase tudo tem, sobre as visões religiosas pretensamente universais, uma vantagem inesperada e até paradoxal: ao aceitar que todos possam pensar e agir mais livremente, acaba se tornando mais universal do que os que julgam que suas verdades são eternas. É que a posição liberal se coaduna com o célebre imperativo categórico fundamental de Kant: "Age de acordo com uma máxima tal que possas querer, ao mesmo tempo, que ela se torne lei universal". Esse imperativo não deve ser obedecido porque foi ordenado por Deus ou pela lei, mas simplesmente porque é uma conseqüência da razão. Devemos segui-lo porque é razoável que o façamos --e a razão deveria ser o traço comum a todos os homens. Infelizmente, não é, ou eu não teria de estar escrevendo aqui o que deveriam ser platitudes evidentes por si mesmas. Hélio Schwartsman é editorialista da Folha. Escreve para a Folha Online às quintas
  6. Eles não sabem o que fazem Hélio Schwartsman Até alguns minutos antes de eu traçar estas linhas, assaltava-me uma dúvida. Não sabia se escreveria sobre o caso do julgamento do São Caetano, time ameaçado de perder pontos por causa da morte do jogador Serginho, ou sobre as narco-salas --lugares onde dependentes de drogas injetáveis podem dedicar-se a seu vício com alguma supervisão médica-- que o governo brasileiro cogita de instituir. Resolvi meu dilema optando por fazer uma coluna que trate dos dois temas, que, afinal, dizem respeito a um e mesmo assunto fundamental: a autonomia do sujeito. Não surpreende que venha das hostes futebolísticas a idéia de punir um time por uma falta que não é dele. O pior é que até autoridades civis cometem o mesmo desatino ao indiciar o presidente e o médico do São Caetano pelo crime de homicídio e ainda em sua figura dolosa, isto é, com a intenção de matar. Antes de prosseguir, talvez seja melhor circunstanciar os fatos. No dia 27 de outubro, o zagueiro são-caetanense Paulo Sérgio de Oliveira da Silva caiu durante partida contra o São Paulo, em pleno estádio do Morumbi. Não era uma daquelas quedas comuns nem cera. Serginho sofrera uma parada cardíaca. Foi socorrido, mas não sobreviveu. Houve alguns problemas no primeiro atendimento. Foi marcante a ausência de um desfibrilador nas imediações. Os socorristas também se atrapalharam na hora de abrir a ambulância e nela colocar o jogador. Mas não são essas as questões mais importantes. A grande dúvida é saber se o atleta tinha condições de jogar futebol. Apesar de vaivéns nas declarações de médicos envolvidos, há informações críveis de que tanto o jogador como o departamento médico do São Caetano _e portanto também o clube_ sabiam que o atleta padecia de uma enfermidade conhecida como miocardiopatia hipertrófica, detectada em exames feitos no Incor no mês de fevereiro. Trata-se de uma doença congênita que provoca o espessamento da parede do ventrículo esquerdo do coração, causando arritmias, o problema mais comum dessa moléstia, que está entre as principais causas de morte súbita. A primeira recomendação que se faz a um portador de miocardiopatia hipertrófica é que não pratique esportes, especialmente não os competitivos e principalmente não de forma profissional. É que o esforço físico predispõe às arritmias. Deve-se, então, concluir que o zagueiro do São Caetano jamais poderia continuar a jogar futebol? A resposta é "não necessariamente". Supondo que ele tenha sido devidamente alertado a respeito da doença e estivesse ciente dos riscos que corria ao jogar, essa é uma decisão que compete ao atleta. Embora exercícios físicos sejam sempre contra-indicados nessa patologia, cabe ao paciente, exercendo a sua autonomia, escolher se vai ou não seguir as advertências médicas. Isso não significa que o clube precisaria manter em seus quadros profissionais um atleta portador de moléstia que em princípio inabilita para o esporte. Os danos que a imagem da agremiação vem sofrendo com o episódio são a prova de que, para o São Caetano, o afastamento teria sido a melhor opção. Ainda assim, recusar tratamento ou ignorar conselhos médicos é um direito --nem sempre respeitado-- de todo cidadão. Fumar comprovadamente mata, mas daí não decorre que cigarros devam ser proibidos nem que todos os fumantes sejam loucos. Cabe à medicina orientar, não coagir. Tentar responsabilizar o clube, seu presidente e seu médico pela morte do jogador é uma idéia consonante com a burocracia futebolística e com delegados de polícia. A injustiça de tirar pontos do São Caetano é auto-explicável. Pior mesmo só o indiciamento por homicídio por omissão (deixar de agir) e com dolo eventual (ainda que os autores não tivessem como objetivo primário a morte da vítima, assumiram o risco de produzi-la). Se a proposta do policial prosperar, o presidente e o médico do São Caetano ficam sujeitos a penas de seis a 20 anos de reclusão. Ora, como sabe qualquer um que já tenha aberto um livro de direito penal, o homicídio por omissão só se aplica quando o agente tinha o dever jurídico de evitar o óbito. O presidente do São Caetano, é óbvio, não está nessa condição. Em relação ao médico, a situação é mais complexa, mas é evidente que não se trata de um assassinato. Tipicamente, médicos que erram (se é que houve erro aqui) cometem no máximo o crime de homicídio culposo (não-voluntário). No mais, basta um elemento da ética médica para demonstrar que Serginho é o responsável por seu próprio infortúnio: se o jogador tivesse requisitado, os resultados de seus exames no Incor seriam sigilosos e não poderiam ter sido divulgados para ninguém, nem para o médico do clube. O caso nas narco-salas se inscreve nesse mesmo capítulo da autonomia do indivíduo. Não é função do Estado fazer as vezes de babá dos cidadãos. O poder público precisa informar e por vezes deve induzir comportamentos, mas não cabe a ele determinar que todos vivam de modo saudável, por exemplo. Cada indivíduo tem a faculdade --e deveria ter também o direito-- de escolher seus próprios caminhos. Só o que se deve exigir é que o faça munido da melhor informação disponível sobre os possíveis efeitos de suas decisões. Drogas estão entre os mais antigos problemas da humanidade, e nada indica que conseguiremos acabar com o fenômeno da dependência química. Reconhecido esse fato difícil de contestar, o que resta ao Estado nesse campo é aconselhar, com argumentos objetivos, as pessoas a nem experimentarem certas drogas, cuidar, através de políticas fiscais, que as substâncias mais nocivas tenham circulação restrita e oferecer tratamento aos que quiserem abandonar o vício. Nesse contexto, a política de redução de danos que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pensa em adotar é muito mais razoável e factível do que a linha proibicionista que sempre foi a do Brasil. Uma verdade nem sempre dita sobre as drogas é que elas proporcionam prazer (pelo menos no início) e que é possível utilizá-las de forma não muito patológica. Assim como nem todo mundo que toma uma dose de uísque é um alcoólatra, nem todos os que eventualmente fumem maconha ou cheirem cocaína são dependentes. As narco-salas, que se tornaram o símbolo da política de redução de danos, são uma pequena parte dessa abordagem. A redução de danos nada mais é do que o reconhecimento de nossa impotência sem o abandono dos elos de solidariedade e responsabilidade social. Se a pessoa vai beber, devemos convencê-la a não dirigir embriagada. Se vai cheirar cocaína ou tomar um comprimido de ecstasy, é fundamental que não saia por aí copulando sem proteger-se contra moléstias sexualmente transmissíveis. Se fuma muito crack, devemos tentar persuadi-la a trocar essa droga por outra menos prejudicial à saúde. Se já está se valendo de cocaína injetável ou de heroína, é preciso oferecer-lhe um espaço onde possa drogar-se sem correr outros riscos, isto é, as narco-salas que disponibilizam seringas descartáveis e alguma supervisão médica. Com isso, reduzem-se os índices de contaminação por doenças como Aids e hepatites. Mais, cria-se um canal de comunicação entre o dependente grave e equipes médicas, que poderá, no futuro, favorecer uma decisão de tratamento abstinente. É claro que, no contexto brasileiro, em que a heroína é muito rara e o advento do crack reduziu o número de viciados em cocaína injetável, as narco-salas não são uma prioridade. A rigor, as drogas ilícitas, cuja dependência afeta menos de 1% da população, são um problema pequeno diante do alcoolismo, por exemplo, que atinge entre 10% e 15% dos brasileiros adultos. Mesmo assim, devemos implantá-las em projetos-pilotos. Beneficiariam algumas pessoas que precisam de ajuda e nos dariam a "expertise" para atuar em escala maior caso ocorram mudanças no perfil epidemiológico da narcodependência. Voltando à discussão da autonomia, é estranho que que ela tenha se tornado uma bandeira da esquerda e não da direita. Enquanto a primeira passou várias décadas tentando se convencer de que o indivíduo era o produto de seu meio, os representantes da segunda corrente sempre enfatizaram o peso das escolhas individuais. Paradoxos e filiações políticas à parte, precisamos tornar cada um responsável pelas suas próprias decisões, ou conceitos tão fundamentais para a vida em sociedade como responsabilidade e culpa perdem todo o sentido. O estuprador não seria responsável por suas ações, que surgiriam como fruto de uma infância complicada. Até acredito que, em alguma medida, o meio determine o comportamento dos agentes, mas não podemos aceitar esse princípio como um absoluto. Os resultados poderiam até voltar-se contra o criminoso-vítima. O passado, ao contrário do presente, é imutável. Se as ações do estuprador são o resultado de uma combinação de fatores pretéritos e não de decisões atuais, a única forma de conter seus impulsos --e proteger a sociedade-- é a pena de morte ou a segregação perpétua, seja numa cadeia ou numa clínica. Felizmente, temos o dom do livre arbítrio, que prefiro, como Kant, chamar de autonomia. Não podemos, porém, querer ficar apenas com as conseqüências positivas desse princípio, como a noção de liberdade. Precisamos também aceitar suas implicações incômodas, como admitir que Serginho é o responsável por sua morte, que em princípio era evitável, e que pessoas possam caminhar voluntariamente para o abismo da narcodependência. Hélio Schwartsman é editorialista da Folha. Escreve para a Folha Online às quintas http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata...lt510u173.shtml
  7. Pois é galera. Não gosto de ser estraga prazeres, mas......... Parece que a coisa vai demorar um pouco até se consolidar. Não tive tempo de traduzir o texto. Se alguém se habilitar... a comunidade agradece! Paz Freud
  8. Where's Lula? The Decree that Hasn't Come By Al Giordano, Posted on Fri Nov 26th, 2004 at 12:05:19 PM EST According to Brazilian government records, President Lula da Silva's expected presidential decree authorizing decriminalization of drug users, the creation of safe-use rooms for injected drug users, and the change in the name of the lead agency from "National Anti-Drug Secretary" to "National Secretary about Drugs," was not issued on November 24th. As reported last week by the daily Folha de Sao Paulo (and translated by Narco News) the various drug policy agencies in Lula's administration had reportedly come to a "consensus" for a policy change that would be signed by Lula this past Wednesday. However, the national drug czar, General Paulo Uchoa, did give a media interview on Wednesday in which he said there will be safe-use houses for injected drug users established... but only in an "experimental" manner... Let's read the tea leaves of the information that is available today... A presidential decree had been promised making the new pro-Harm Reduction drug policies official this week, but Lula signed only two presidential decrees (#5,823 and #5,824) on Wednesday, neither of them having anything to do with Harm Reduction or drug policies. The agency known as SENAD (National Antidrug Secretary) has not changed its name as listed on it's website, but does have a new and apocryphal document titled "National Policy About Drugs" - the title (Politica Nacional sobre Drogas) is consistent with the promised name change. There is a link to download the document... but the document has been removed! Meanwhile, in an interview on the "Bom Dia Brasil" ("Good Morning Brazil") program on the Globo TV network, given by national drug czar Paulo Roberto Uchoa (considered to be one of the drug war "hawks" in the Lula administration who had been blocking the new consensus), the czar creates some clarity and also some confusion... Q. One project that is causing a lot of discussion inside and outside of the government is the project of creating safe use salons, where drug users will be able to use drugs with syringes provided by the Health Ministry. Do you, Sir, think this project is ready to go? Paulo Roberto Uchôa: We're not going to mix policies. The delivery of syringes is a very serious work that the Health Ministry is doing as it seeks to regulate the Harm Reduction situation in the country. As far as the safe-use salons go, this is not going to happen yet, because the Health Ministry has proposed it as an experimental work, at the university level, with very rigid controls by the Ministry - and only in extremely serious cases. At the same time, this is an idea that still hasn't been approved for launch in Brazil. That's why the safe-use rooms aren't beginning yet. So, how to read that? He says it's not happening but it is happening, only he calls the program of safe-use rooms "experimental." He did not speak to whether or not the "experimental" program would still include 250 safe-use houses or not. It seems that the "consensus" mentioned last week has hit a snag... Could it be (ya think?) that it is being blocked by a certain foreign Embassy? Developing...
  9. Já publiquei uma versão maior e mais completa aqui na Grow! É só clicar: http://www.growroom.net/phpBB2/viewtopic.php?t=13882
  10. Parabéns, Lula O governo federal está preparando um plano para disseminar, em todo o país, uma forma mais humana e eficiente no combate às drogas: a instalação de mais centros que trabalhem com o princípio de "redução de danos". Já existem experiências localizadas, que só não se multiplicam por falta de apoio oficial. "Redução de danos" significa, em poucas palavras, o seguinte: para muitos casos, não é possível tirar a droga radicalmente do viciado --a solução é ir diminuindo a dependência, aos poucos, fazendo com que o próprio poder público administre as drogas, amparado pelos médicos e psicólogos. É um projeto ousado, que tem de enfrentar preconceitos, afinal, o governo legaliza, de certo modo, o uso de drogas. Por outro lado, tem o extraordinário mérito de levar às últimas conseqüências o princípio básico de que viciado não é criminoso, mas um doente. Gilberto Dimenstein é colunista e membro do Conselho Editorial da Folha. Escreve para a Folha Online às terças http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata...lt508u218.shtml
  11. Aproveito para publicar também um ótimo texto de uma testemunha ocular da manifestação. Passeta Verde: balanço e perspectivas por Maria Joana A Passeata Verde de 2004 em São Paulo começou com uma concentração no vão do Masp a partir das 14 hs. do dia seis de novembro, um sábado nublado. Apesar da presença ostensiva de dezenas de policiais, uma grande parte deles de uma força tática com motos, foram se juntando algumas centenas de pessoas. A polícia agia de forma muito mais intimidativa do que no ano anterior, abordavam quase todos, verificavam e anotavam documentos e revistavam bolsas e bolsos. Alguns pequenos cartazes entre os manifestantes: “General Uchôa, fica numa boa”, um cartaz pela legalização vindo da cidade de Rio Claro, cartazes do grupo Édilei, que trabalha com redução de danos entre craqueiros, que também trouxe um megafone e puxou palavras de ordem como: “não quero pó, não quero crak, quero fumar o haxixe do Iraque” (sic). Lá pelas 16 hs o entusiasmo aumentou, além de muitos fotógrafos e gente filmando apareceu um câmera da Globo que tentou entrevistar um rapaz que falava como organizador, mas o grito de “o povo não é bobo, abaixo a rede Globo” não deixou ele falar direito. Os policiais continuavam a circular ostensivamente, algumas faixas de papel pintadas na hora com spray foram recolhidas por eles. Um grupo tentou levar uma faixa para mostrar aos carros na faixa de pedestres e também foi impedido e teve a faixa arrancada. No meio do bolo da multidão os dicursos continuavam, havia um advogado que havia vindo de avião naquela mesma manhã, de Santa Maria, RGS, e de chapéu, bagagem e guarda chuva falou umas palavras. Também havia um cearense de Fortaleza vendendo seu livro que parecia uma novela sobre maconha, inclusive com um glossário de gírias. O público tornava-se mais efusivo, com gritos de “Maconha!”, “Maconha!” e a musiquinha: “com muito orgulho, com muito amor, sou maconheiro!”. Acendeu-se a ponta de uma réplica gigante de um baseado e fazia fumaça como uma chaminé. Havia um clima bem de orgulho reprimido e desabafo de quem sempre teve que esconder o que faz e naquele momento assumia com alegria o seu orgulho maconheiro. Algo semelhante com o “gay pride”. Outros gritos: “ministro Gil, libera o plantio!”, “você aí polícia, maconha é uma delícia!”. O público era bem jovem e festivo, havia um setor claramente de classe média, com câmeras, etc, outros mais plebeus, havia muitos com camisetas ou símbolos canábicos, de sites como growroom, dos cultivadores, e uma moça do Psicotropicus, do RJ, distribuindo o panfleto colorido de apresentação deles. Os estudantes da História também distribuiram um panfletinho de uma ciclo de debates e filmes sobre drogas na USP. De repente, como de improviso, a multidão dirigiu-se para a Paulista, atravessou-a e na pista do lado do Trianon começou a marchar na direção da Brigadeiro (a idéia aparentemente era repetir o mesmo que o ano anterior, ir até o Ibirapuera). Mas dessa vez a polícia estava decidida a não permitir, na primeira esquina começaram a bloquear o caminho e empurrar pra calçada. Gritava-se “polícia é pra ladrão, pra maconheiro não”, e alguns preferiam “polícia é pra ninguém”. Criou-se um impasse durante uns dez minutos, muitos tentavam convencer a polícia a liberar apenas a pista do corredor de ônibus, quando num movimento meio inesperado resolveu-se atravessar de novo a Paulista quando o sinal fechou. Esses movimentos refletiam a natureza acéfala da manifestação, onde o setor organizador por ser aparentemente anarcojuvenil recusa-se a assumir uma liderança, promover votações, organizar a discussão, tudo segue um curso de quem gritar mais alto leva um bloco consigo, e os movimentos da massa lembram as aglutinações descoordenadas de liquídos espessos que mudam seu fluxo dependendo das ondas. Após atravessar de novo a Paulista, a marcha recomeçou a voltar na direção do Masp por uma das pistas. Muitas palavras de ordem, equivocadamente, escolhiam provocar a polícia: “você aí fardado, fuma um baseado”, quando não se gritavam simplesmente palavrões. Nesse momento a polícia se reuniu e rapidamente avançaram em formação de ataque, com alguns já segurando as bombas de gás. Mas nesse momento um grupo retornou dizendo: “não pro Masp não, vão nos cercar” e passou a dirigir-se pela Paulista no contrafluxo dos carros, que estavam parados, para o Gazeta, enquanto outros permaneciam no Masp ou observando ao redor. Foi então que a polícia atacou. Jogaram várias bombas de gás no meio dos carros, e passaram a correr e espancar com cassetetes indicriminadamente. Na calçada, as motos da polícia davam cavalos de pau, jogavam-se sobre as pessoas para atropelá-las levando ao pânico, com todos os camelôs fugindo e pessoas correndo. Na frente da Fiesp e em outros prédios vários manifestantes e simples passantes corriam para refugiar-se dentro dos edifícios reunindo-se a pessoas que estavam saindo e logo voltavam para trás quando viam o cenário das ruas. Várias bombas continuavam a explodir e grupos de policias passavam arrastando pessoas presas e algemadas. Um grupo conseguiu reagrupar-se no Masp onde permaneceu até quase 18:30 quando a polícia passou a prender qualquer pessoa que ficasse parada debaixo do vão livre encerrando os últimos momentos de uma tarde de lutas na avenida. Como avaliação é preciso ressaltar que embora tenha havido um pequeno número a mais de pessoas do que no ano anterior (cerca de 500), não houve realmente um salto. A atitude mais repressiva da polícia também foi facilitada pela ausência de uma avaliação mais realista que ou mantivesse a manifestação apenas no Masp (talvez a polícia não se dispusesse a reprimir se apenas se mantivesse no vão onde poderia ter se aglutinado mais gente que continuou chegando atrasado ou que preferiu afastar-se com medo da repressão) ou aceitasse caminhar pela calçada, na verdade poucas centenas de pessoas não apresentavam um correlação de forças que permitisse tentar ocupar a rua se a polícia estava disposta a impedir. A falta de um comando, por um lado representa uma forma de autodefesa do movimento que não apresenta faces públicas e divulga-se por internet e boca a boca, mas por outro impede uma deliberação organizada dos passos a seguir tanto antes do ato como durante, além de não intervir em outros fóruns com um debate de idéias mais amplo e uma ocupação inteligente da mídia (da oficial, é preciso disputar espaço nela, na mídia alternativa o movimento já tem presença em CMI, etc.). O exemplo do Psicotropicus do RJ precisa ser seguido: uma articulação mais profissional, com setores de profissionais liberais, debates jurídicos e universitários, visibilidade publicitária com outdoors, e também ações de rua. É preciso criar alguma coordenação nacional, parece que tb houve passeata em Fortaleza, e internacional (em Buenos Aires e Madri foram mais de dez mil pessoas em maio deste ano), aliás, por que em todo o mundo a data unificada é em maio e só aqui em SP se faz em novembro? Na discussão no CMI uma pessoa disse que não se importava que houvesse só 500, pois preferia quinhentos manifestantes conscientes a 100 mil gritando “legaliza Lula” ou querendo aparecer na TV. Acho esse raciocínio de uma completa estreiteza, eu prefiro cem mil. Aliás, acho que existe um potencial para isso, como ocorreu com o movimento gay, uma parcela oprimida da população, obrigada a manter uma vida cotidiana secreta e clandestina, alvo dos piores preconceitos, estigmatizações e intolerâncias, que de repente descobre que são milhões e que podem ir para a rua juntos e demonstrar o seu orgulho da sua condição e a sua vontade de serem respeitados e terem reconhecidos os seus direitos. Isso é uma força poderosa, é preciso despertá-la. A passeata verde de 6 de novembro de 2004 foi um pequeno ensaio de um movimento social que ainda não conseguiu se levantar plenamente mas já dá mostras, num âmbito internacional, que o antiproibicionismo vem crescendo apesar da política imperialista de Bush e que cada vez mais deve ganhar espaço na agenda dos direitos sociais e das lutas populares altermundistas. Maria Joana 07-11-2004
  12. Oi pessoal... Como prometi, aí vai a versão especial da foto-reportagem que fiz sobre a Passeata Verde 2004 (SP). Um abraço....Freud. foto 01 1- Logo na concentração a polícia já intimidou os manifestantes, executando severas revistas. foto 02 foto 03 foto 04 foto 05 foto 06 2/3/4/5/6 – Mesmo com a forte presença da polícia, os manifestantes expressaram suas idéias sem medo. Representantes de diversas cidades e até de outros Estados estavam presentes. foto 07 foto 08 7 e 8 – Por meio de um megafone diversas pessoas fizeram uso da palavra, chamando os jovens para engrossar o movimento. foto 09 9 – Um baseadão simbólico foi aceso e tragado por alguns manifestantes. foto 10 foto 11 foto 12 10/11/12 – Quando o número de manifestantes já era expressivo, decidiu-se pela Marcha na Av Paulista. foto 13 foto 14 13/14 – A polícia não gostou da idéia, impedindo que a marcha continuasse. O comandante da PM “sugeriu” que a Marcha seguisse pela calçada. foto 15 15 – Muitos tentavam persuadi-lo da legitimidade do movimento. Tudo em vão! foto 16 16 – Veja aqui a bolsa do policial repleta de singelos artefatos, tais como bombas de gás e spray de pimenta. foto 17 17 – Diante do impasse a “massa” optou por dar um drible na PM, atravessando a Av Paulista pela faixa de pedestre. Isso irritou bastante os policiais, que tiveram que parar os dois lados da avenida, uma vez que as motos e viaturas já estavam mobilizadas para acompanhar os manifestantes do lado oposto. foto 18 18 – Mais uma tentativa de ocupar a Paulista. Agora do outro lado. Enquanto isso a PM se mobilizava. foto 19 foto 20 19 e 20 – A reação da PM não tardou: bombas, spray de pimenta e muita porrada. foto 21 foto 22 foto 23 foto 24 foto 25 foto 26 21/22/23/24/25 e 26 – Triste saldo: diversos manifestantes presos. Foram levados para a 4ª e 78ª DPs e liberados horas depois. foto 27 27 – Alguns manifestantes foram encurralados em um posto de gasolina. foto 28 28 – Após a pancadaria, os manifestantes restantes se reuniram novamente nas proximidades do MASP.
  13. Valeu pessoal! Alguém sabe se já foi publicado algum vídeo sobre a Passeata?
  14. Olha aí pessoal Publiquei uma foto-reportagem no CMI sobre a Passeata Verde. Clique aqui para ler Já estou preparando uma versão maior e mais completa para publicar aqui na Growroom Um abraço do Freud ps.: quem não viu a foto-reportagem do ano passado pode clicar aqui
  15. Salve Red Baron Eu vi exatamente a hora em que os "homens da lei" botaram as mãos em você! Revoltante. Eu vi o ódio em seus olhos. Até onde pode chegar a incompreensão humana! Bom saber que você foi liberado! A luta continua! Paz Freud
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