Bate-cabeça: polícia prende e solta cultivador em Goiânia

Denúncia anônima. Um cultivador preso, com 16 mudas e três plantas maiores. Vai para a delegacia algemado, posa para a “imprensa” policial folgada e gozadora. Usuário, óbvio. Depois do bate-cabeça clássico entre a Polícia Civil e a Polícia Militar, o cidadão é liberado pela lei de drogas – que impede penas privativas a usuários de maconha. Foi basicamente isso o que aconteceu em Goiânia, nesta segunda-feira, 15 de agosto.

O espetáculo circense montado pela reportagem da TV Goiânia se divide basicamente em três atos. No primeiro, o militar conta a abordagem (entraram na casa do acusado, depois que um amigo correu ao ver a viatura) e tenta qualificar o homem como um cultivador experiente, que entende técnicas e tudo o mais. Depois, o repórter escovinha ainda tira uma onda com ele, perguntando, em tom de deboche, como é o processo de cultivo e quanto tempo demoraria até a colheita.  Ao contrário de todo o traquejo afirmado pelo militar, percebe-se que nem grower ele é – só rega as plantas com leite, não sabe colher.

Daí, surge a figura do delegado, afirmando que  o rapaz seria liberado, pois claramente o caso não se tratava de tráfico. O acusado era apenas um usuário – obviedade que, pelo visto, os policiais militares não conseguiram entender. Mas, no final, o delegado alivia, e fala que Civil e PM estão trabalhando juntas, “no encalço dessas pessoas aqui na região”.

Como assim? Continuarão “no encalço” de mais usuários plantando o que eles próprios vão consumir? Uma matéria bizarra, que expõe como o Estado fica conturbado, sem saber que atitude tomar, quando se depara com situações relacionadas ao uso e cultivo da cannabis. Exibem o homem detido como um prêmio, algemado e assustado, sendo interrogado por um mal-intencionado repórter, que quer emplacar mais um vídeo comédia no YouTube.

Apesar de tentar levar para o lado do jornalismo-policial-humorístico que fazem esses programas, a matéria só conseguiu mostrar, com veemência, o quanto a confusa lei atual de drogas gera injustiça, danos sociais diversos, perda de tempo e dinheiro – e, de brinde, alimenta, com vigor, a urubuzada de plantão. Um exemplo didático do quão urgente é a necessidade de mudanças na legislação e na conduta policial com relação à questão da maconha no Brasil. Pelo menos, valeu o bom senso e o cultivador goiano foi liberado.