A maconha no tratamento da dor

O tratamento da dor é uma das principais razões para pacientes buscarem a cannabis para fins medicinais. Já está estabelecida na medicina a eficácia da maconha no tratamento da dor crônica, com fortes evidências em amplos estudos clínicos.

É possível, contudo, que os benefícios da maconha quando se trata da dor crônica estejam além do alívio em si. Ela pode salvar vidas. A seguir, entenda como a erva pode ajudar no tratamento da dor e diminuir o número de mortes causadas por analgésicos.

Dor neuropática

Existem diferentes tipos de dor, sintoma que pode estar presente em uma série de enfermidades. A dor neuropática, por exemplo, pode aparecer em pacientes com câncer e AIDS. Trata-se da dor causada por uma inflamação dos nervos. O efeito anti-inflamatório da cannabis pode, portanto, aliviar esses sintomas.

Saiba mais sobre o efeito anti-inflamatório da cannabis.

Via ascendente e descendente

A dor pode ser estimulada de duas formas: ascendente e descendente. Imagine uma topada no dedão. Esse estímulo, a topada, faz com que os nervos, espalhados por todo o corpo, transmitam a mensagem ao cérebro de que há algo errado. O cérebro então avalia a situação e dá o alerta de dor ao local afetado. O caminho da mensagem de dor do dedão ao cérebro é a via ascendente, enquanto o caminho oposto, do cérebro ao local da dor, é a via descendente. A maconha parece afetar ambas as vias.

No caso de doenças como a fibromialgia, a dor ocorre de forma descendente. Ou seja, sem nenhum estímulo inicial, o cérebro envia o alerta de dor para diversas partes do corpo, causando dor sem haver um ferimento. Por a maconha afetar também a via descendente, é possível que ela seja eficaz no tratamento da fibromialgia e outras doenças com sintomas similares. São necessárias mais pesquisas, contudo, para comprovar sua eficácia.

Dor crônica

A dor crônica costuma ser causada por danos no sistema nervoso. Esses danos podem ocorrer devido a um ferimento à espinha dorsal causado por um acidente, por exemplo, ou alguma enfermidade que afete o sistema nervoso central ou periférico. Em estados americanos onde o uso medicinal da cannabis foi aprovado, pacientes com dores crônicas estão entre os que mais pedem a prescrição da erva.

Conforme mencionado anteriormente, há forte evidência da eficácia da cannabis no tratamento da dor crônica. A forma como a erva age, contudo, ainda não está absolutamente clara. Pacientes declaram que uma dosagem mais baixa do cannabinoide THC, o principal componente da cannabis, responsável por seus efeitos psicoativos, é eficaz no tratamento da dor. Uma dosagem alta, contudo, parece aumentar a sensação de dor.

No caso da maconha fumada, pacientes experientes não encontram muito problema em ajustar a dosagem conforme a necessidade. Alguns pacientes, contudo, preferem ingerir a cannabis na forma de cápsulas ou comestíveis. O spray Sativex, da GW Pharmaceuticals, tem sido usado no tratamento da dor em mais de vinte países.

O cannabinoide CBD, quando usado sozinho, não é eficaz no tratamento da dor. A maconha com baixo teor de THC, portanto, não é a melhor escolha para esses pacientes. O CBD em conjunto com o THC, no entanto, é um analgésico superior ao THC isolado. É possível que o efeito sedativo do CBD colabore com o efeito analgésico do THC.

Salvando vidas

A maconha possui um efeito diferente dos outros analgésicos. Diferente dos opiáceos, por exemplo, ela não bloqueia a dor. A cannabis parece ajudar o paciente a suportar a dor em vez de eliminá-la. Outra diferença importante entre a maconha e opiáceos, é a de que, apesar de criarmos resistência aos efeitos psicoativos da erva, o mesmo não ocorre com seus efeitos analgésico.

Um dos principais problemas dos opiáceos está nessa crescente resistência do organismo aos seus efeitos. Quanto mais o medicamento é utilizado, maior a resistência, levando a um aumento continuo da dosagem. Como a dor crônica não costuma ser curada, apenas tratada, muitos pacientes acabam usando altas dosagens de opiáceos e não sentindo mais alívio da dor. Como se tratam de medicamentos altamente viciantes e que podem levar a uma overdose ou efeitos colaterais graves, há milhares de mortes associadas a analgésicos.

De fato, estudos apontam que mais de 46 pacientes morrem por dia nos Estados Unidos devido a uma overdose acidental de analgésicos opiáceos. A aspirina está associada a cerca de 3000 mortes por ano; já o Tylenol leva mais de 78000 americanos a salas de emergência todos os anos.

Apesar de o número de mortes por analgésicos, sobretudo opiáceos, estar aumentando nos Estados Unidos como um todo, estados onde a maconha foi legalizada para uso medicinal viram uma redução de 25% no número de mortes associadas a analgésicos. É possível que pacientes estejam trocando opiáceos por maconha, ou até complementando o tratamento com a erva para controlar a dosagem dos outros analgésicos. A prática pode salvar a vida de milhares de pacientes.

Referências: