O que sabemos sobre o potencial terapêutico da cannabis

Uma ampla revisão dos estudos e pesquisas sobre a cannabis foi feita por 16 especialistas para concluir de fato os potenciais terapêuticos da cannabis

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Cannabis buds and laboratory glass

Uma ampla revisão dos mais recentes estudos e revisões sistemáticas sobre a cannabis, seus efeitos à saúde e potencial terapêutico, foi realizada por 16 especialistas e pré-publicada online. O documento traz uma série de conclusões sobre onde estamos no momento em relação ao conhecimento sobre a cannabis: o que sabemos e quão fortes são as evidências.

Com o uso da cannabis aumentando nos Estados Unidos, o uso medicinal sendo estabelecido e as recentes mudanças na política de drogas de diversos estados americanos, o relatório pretende determinar quais informações já temos e o que ainda precisamos estudar (muita coisa!).

Em relação ao potencial terapêutico da cannabis, estas são as conclusões presentes na revisão:

Efeitos Terapêuticos

Há evidências conclusivas ou substanciais de que a cannabis e canabinoides são eficazes:

  • No tratamento de dor crônica em adultos (cannabis in natura);
  • No tratamento de náusea e vômito induzidos por quimioterapia (canabinoides orais);
  • No tratamento de espasmos em pacientes com esclerose múltipla (canabinoides orais);

Há evidências moderadas de que a cannabis e canabinoides são eficazes:

  • No tratamento a curto prazo de distúrbios do sono presentes em pacientes com apneia do sono obstrutiva, fibromialgia, dor crônica e esclerose múltipla (canabinoides, principalmente nabiximols).

Há evidências limitadas de que a cannabis e canabinoides são eficazes:

  • No aumento de apetite e diminuição da perda de peso para pacientes com HIV/AIDS (cannabis e canabinoides orais);
  • Na melhora dos espasmos musculares (medidos por médicos) em pacientes com esclerose múltipla (canabinoides orais);
  • Na melhora dos sintomas da síndrome de Taurette (cápsulas de THC);
  • Melhora em sintomas de ansiedade (CBD);
  • Melhora nos sintomas de stress pós-traumático (nabilone)

Há evidências limitadas de uma associação estatística entre o uso de canabinoides e:

  • Melhores resultados (incluindo mortalidade e deficiência) após danos cerebrais (por traumatismos) ou hemorragias cerebrais.

Há evidências limitadas de que a cannabis e canabinoides são ineficazes:

  • Em melhorar sintomas de demência (canabinoides);
  • Em melhorar pressão intraocular causada por glaucoma (canabinoides);
  • Em reduzir sintomas depressivos em pacientes com dor crônica ou esclerose múltipla (nabiximol, dronabinol e nabilone).

Não há evidência (ou suficiente evidência) de que a cannabis ou canabinoides são eficazes:

  • No tratamento de câncer, incluindo glioma (canabinoides);
  • No tratamento de anorexia nervosa ou anorexia caquexia relacionada ao câncer (canabinoides).
  • Na melhora de sintomas de síndrome do intestino irritável (dronabinol);
  • Epilepsia (canabinoides);
  • No tratamento de espasmos em pacientes com fraturas na espinha dorsal (canabinoides);
  • Na melhora de sintomas associados à esclerose lateral amiotrófica (canabinoides);
  • No tratamento de coreia e certos sintomas neuropsiquiátricos associados ao mal de Huntington (canabinoides orais);
  • No tratamento de sintomas do mal de Parkinson (canabinoides);
  • No tratamento de distonia (nabilone e dronabinol)
  • Em atingir abstinência de substâncias viciantes (canabinoides);
  • Melhora na saúde mental de pacientes com esquizofrenia e psicose esquizofreniforme (CBD).

Compreendendo os resultados

Ficou claro que a grande maioria dos estudos realizados utilizam canabinoides isolados ou sintéticos. Sendo a planta cannabis proibida na maioria dos países, inclusive nos Estados Unidos em âmbito federal, ainda há muitos obstáculos para a aprovação de estudos utilizando maconha in natura. Além disso, há muito mais incentivo financeiro para medicamentos à base de canabinoides isolados ou sintetizados, levando a mais investimentos e lobby por parte da indústria [saiba mais].

O grande problema disso tudo é que a maioria dos pacientes hoje em dia utiliza a maconha natural e não os isolados. Muitos dos casos onde os pesquisadores apontam que “não há evidências”, é porque os estudos realizados são muito pequenos, possuem falhas de design e baixa qualidade, ou porque não existem estudos em humanos.

A revisão, portanto, faz uma série de recomendações para a realização de pesquisas, entre elas:

  • Para desenvolver uma base de evidências abrangente sobre os efeitos à saúde (tanto benéficos quanto prejudiciais) a curto e longo prazo do uso da cannabis, instituições públicas, organizações filantrópicas e profissionais, companhias privadas, e grupos de pesquisa clínica e de saúde pública devem financiar e apoiar pesquisas sobre a cannabis que foquem em áreas pouco estudadas.
  • Para promover o desenvolvimento de evidências conclusivas sobre os efeitos à saúde (tanto benéficos quanto prejudiciais) a curto e longo prazo do uso da cannabis, agências nacionais de saúde pública e serviços humanos, devem unir forças para financiar um workshop para desenvolver padrões de pesquisa e referenciais que guiem e garantam a produção de pesquisas de alta qualidade sobre cannabis.
  • Agências públicas (sobretudo de saúde pública) e de pesquisa devem tornar dados disponíveis para que pesquisadores tenham acesso a informações sobre os efeitos da cannabis. Investimentos devem ser feitos para melhorar e incentivar a coleta de dados sobre saúde.
  • Agências nacionais, empresas privadas e ONGs devem financiar um comitê de experts para produzir um relatório objetivo e factual que caracterize o impacto de obstruções regulatórias para a pesquisa da cannabis, e que proponha estratégias de apoio ao desenvolvimento de recursos e infraestrutura necessários para o desenvolvimento de pesquisas abrangentes sobre a cannabis.

Os pesquisadores reconhecem, portanto, a necessidade de mais investimento e menos obstruções em pesquisas, desenvolvimento de padrões para pesquisas de alta qualidade, etc. Eles colocam essas recomendações como uma prioridade e ressaltam a urgência com que esse assunto deve ser tratado.

Cannabis in natura

Uma importante conclusão nessa revisão é o primeiro tópico dos resultados: há evidências conclusivas de que a cannabis é um tratamento eficaz para a dor crônica. Se trata da planta em si, não seus canabinoides isolados. O fato demonstra que a maconha tem valor terapêutico comprovado e deve ser considerada também em sua forma in natura caso o paciente escolha esse tratamento.

É um direito humano poder se tratar com o medicamento que for mais eficaz disponível e, considerando que muitos pacientes não têm acesso a caros medicamentos para a dor e dependem do governo para que eles sejam providenciados, a cannabis oferece uma alternativa barata que pode ser produzida de forma caseira. Esse é um argumento que deve ser utilizado em corte para permitir que pacientes tenham acesso legal à planta cannabis e obtenham o direito de cultivá-la para não depender de caros medicamentos importados.

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