Fronteiras: a história de Leandro Raggi

0
2223

Leandro Raggi tinha treze anos de idade quando provou o primeiro baseado, na cidade de Mozambinho, Minas Gerais, mas não se lembra da sensação. Ele e um grupo de amigos tomavam pinga com refrigerante de maçã em uma praça, a caminho de uma festa, quando um deles tirou um quadradinho verde do bolso e começou a despedaça-lo na mão. Leandro não sabia do que se tratava, mas o observou pegar o conteúdo dichavado e colocá-lo em um pedacinho fino de papel, a seda. Enrolou, lambeu, fechou uma ponta e pegou o isqueiro.

– Você puxa e prende que nem o cigarro, mas não solta – disse o garoto, passando o baseado para Leandro.

A partir de então, tudo era um borrão. Já havia bebido dois copos cheios de pinga, a mistura não tivera um bom resultado. Não se lembra da festa; se afastou das pessoas e foi para a rua vomitar. Depois de colocar tudo para fora, colocou o celular para despertar às três da manhã, encostou-se a um fusca e dormiu até ouvir o alarme. Voltou para casa, ouviu bronca da mãe e tentou dormir até a ressaca passar.

Uma vida sem constantes

A péssima primeira experiência não impediu que Leandro voltasse a provar a droga. A partir de então, sempre que aparecia um baseado, Leandro fumava. Ele já fumava cigarros e bebia por influência dos pais; ambos fumantes, ambos alcóolatras. A maconha foi o único aspecto de sua vida que se manteve estável, sempre presente; mais nada durou. Essa falta de constantes causou uma certa dificuldade para que Leandro montasse uma narrativa linear de si mesmo. Sua memória é composta de fragmentos soltos. Tentarei organizá-los a seguir.

Quando Leandro tinha dezesseis anos, o alcoolismo de sua mãe se tornou insuportável e ele foi morar com o pai, que havia parado de beber. Foram dois anos de sobriedade.

– Quando ele tinha parado, – diz Leandro – ele tinha emagrecido, tal. Nossa! É muito nítido quando você bebe e quando você não bebe. Ele parou e virou outra pessoa.

O pai tinha algumas lojas de móveis e o negócio ia bem. Até que um dia Leandro o viu ir até o bar ao lado de casa, comprar uma cerveja sem álcool e tomá-la em uma só golada.

– Aí não passou uma semana ele já estava tomando cerveja. Ele voltou a beber e foi à falência total.

Na mesma época, a mãe de Leandro faleceu. Sem a mãe e com a falência e o alcoolismo do pai, Leandro foi morar com um tio na cidade vizinha de Guaxupé. O pai, mais tarde, faria o mesmo, indo morar de favor na mesma casa que Leandro. O garoto de 18 anos, tentando se distrair da perda repentina da mãe, arrumou um emprego em uma fábrica, trabalhando onze horas por dia em esteira de produção.

O irmão mais velho, filho do primeiro casamento da mãe, convidou Leandro para morar com ele e trabalhar como promotor de vendas da Vivo. Ele aceitou, mas não demorou muito para que o irmão sentisse que estava substituindo a figura paterna de Leandro e o mandasse embora, com medo de que isso se tornasse uma responsabilidade com a qual não queria arcar.

Um tio de Leandro, que morava em São Paulo, o chamou para morar com ele, oferecendo uma opção: ele poderia escolher entre morar em São Paulo com o irmão de seu pai ou morar em Brasília com o marido dele. O casal havia sido separado por uma transferência da empresa, mas se viam duas vezes ao mês. Leandro decidiu ir para Brasília.

Os tios proporcionaram uma vida que Leandro não tivera até então. Ele fez cursinho; estudava o dia todo, compensando a falha educação que tivera em Minas Gerais. Ainda assim, Leandro se sentia perdido. Não conseguia construir uma identidade, não conseguia decidir o que queria para si. Os tios o inscreveram em um teste vocacional.

– Deu agronomia – diz ele – eu queria trabalhar com a terra.

Leandro estudou dia e noite para entrar no curso de agronomia da UNB (Universidade de Brasília), mas falhou. A sala de aula não era seu habitat natural, se sentia ansioso sentado na mesma cadeira o dia todo. Desde criança, Leandro era um garoto hiperativo:

– Quando eu era criança eu fiz karatê, judô, jiu-jitsu, luta-livre, patinação artística, basquete, andava de skate, andava de bicicleta no meio do mato, jogava handball, jogava vôlei, eu fazia tudo. Eu fiz todos os tipos de esporte possíveis que eu podia fazer. Caminhada no meio da montanha, cachoeira…

A hiperatividade se tornaria uma ansiedade crônica. Até hoje, vez ou outra, ele tem pequenos ataques de pânico em salas de cinema e outros ambientes fechados.

O fracasso de Leandro não agradou os tios e ele entrou em mais uma crise existencial.

– Aí eu desisti, não ia ficar fazendo aquilo. Fui trabalhar. Eu fiz um monte de coisa; trabalhei com um amigo do meu tio que abriu uma agência em Ceilândia e eu foi lá ajudar ele. Nessa época eu já estava namorando e minha namorada falou: “Por que você não tenta gastronomia?”.

Fazia sentido, se havia um lugar em que Leandro se sentia à vontade era na cozinha. Os flashes mais marcantes em sua memória eram do forno à lenha da avó, familiares cozinhando, conversas de cozinha. O avô, filho de italianos, havia montado um armazém e Leandro passou a infância cercado por comida. Conseguiu desconto em uma faculdade particular e ingressou no curso de gastronomia. Arrumou emprego como assistente de cozinha, chegando a trabalhar em três bons restaurantes; entre eles, uma filial em Brasília do grupo Fasano.

– Eu continuava fumando maconha. Você está na cozinha, depois que você sai é uma delícia fumar um baseado. Eu entrava na faculdade, saía uma da tarde, entrava no trabalho às 15h e saía duas da manhã.

Após quase um ano de curso, no entanto, Leandro perdeu o desconto e a mensalidade da faculdade chegou perto de dois mil reais. Para quem ganha 800 reais trabalhando na cozinha de um restaurante, o valor é muito para o bolso. Para contribuir com sua entrada em mais uma crise, o pai havia falecido.

– Ir lá ficar do lado do corpo é foda. É muito traumático. Mas você não tem o que fazer, não tem como segurar, é mais forte do que qualquer coisa.

Apesar de já estar acostumado ao desapego, Leandro entrou em um estado depressivo. Engordou e chegou a pesar mais de 90 kg. Os tios, preocupados com sua situação, tentaram pressioná-lo a tomar uma decisão.

– O relacionamento com a minha ex-namorada já tinha acabado faz tempo e eu estava prolongando, não sabia por quê. E morar com o meu tio tinha sido muito bom, eu tinha aprendido muito, ele me deu muita possibilidade de vida, mas uma hora não deu. Meu pai morreu e no mês seguinte eles esculacharam. Sentaram na minha frente e começaram a me criticar, sei lá, falar um monte de coisas que eles achavam errado em mim.

Leandro largou tudo, voltou para Minas e lá ficou por alguns meses na casa de uma tia. Recebeu então a notícia de que havia recebido uma bolsa de estudos na Unila (Universidade Latino-americana) e se mudou para Foz do Iguaçu para estudar Desenvolvimento Rural e Segurança Alimentar. A grade unia tudo aquilo que gostava: a terra, o cultivo, a alimentação… as coisas finalmente começavam a fazer sentido.

A tríplice fronteira

A cidade de Foz do Iguaçu, no estado do Paraná, faz fronteira com o Paraguai e a Argentina. Na Unila, Leandro convive com estudantes de diferentes cantos da América Latina e de diferentes regiões do Brasil; um ambiente de saudável mistura cultural.

Como recebe bolsa, não precisa trabalhar todos os dias, podendo se dedicar aos estudos. Para não ter saudades da cozinha, contudo, Leandro trabalha em eventos, cozinhando aqui e ali. Leandro também tem fácil acesso à maconha, que sai bem mais barata próximo à fronteira com o Paraguai. Ele passou a explorar outras atividades com a cannabis e percebeu que ela o ajudava a se focar em uma coisa de cada vez.

– Por exemplo, fumar para ir na aula; fumar e conversar com o seu tio; fumar e fazer esporte; fumar e cozinhar; fumar e ver TV.

Leandro fumava antes de correr e andar de bicicleta, centrando-se nessas atividades e atingindo bons resultados: perdeu 20 kg. Ele estava mais saudável, mais equilibrado, menos ansioso. Parou de fumar cigarro e beber álcool. Aos poucos, entretanto, passou a conhecer o lado obscuro da cidade.

– É uma cidade-fronteira, acontece muita coisa. A gente perdeu uma amiga não faz nem seis meses. A polícia daqui é meio escrota, a saúde pública é uma merda. Você tem o tráfico de tudo quanto é jeito. Tem tráfico de pessoa; tem tráfico de órgão; tem tráfico de droga; tem tráfico de objetos, tem tráfico de tudo. Tiro você escuta o tempo inteiro, direto.

Frente a tantos problemas, a população local não vê qualquer uso de drogas ilícitas com bons olhos. Qualquer coisa que incentive ou contribua para o crime é rigidamente censurada.

Depois que o pai de Leandro faleceu, ele herdou o armazém do avô, que se encontrava vazio em Mozambinho. Um grupo de vândalos locais invadiu o local e pôs fogo na casa, destruindo-a por completo. Chateado com a notícia, Leandro, que adora conversar, contava a uma cozinheira com quem trabalhava em um evento sobre o ocorrido. A reação da moça deixou Leandro sem palavras:

– Só pode ter sido maconheiro que fez isso aí.

Leandro e as outras duas pessoas próximas, que também trabalhavam na cozinha, pararam de repente e se entreolharam. Os três haviam acabado de fumar. O momento passou rapidamente, no entanto, quando todos perceberam que ninguém falaria nada.

– É como as pessoas pensam. Eu não consigo não me sentir mal. Eu queria ter falado alguma coisa pra ela, mas eu não sei o que seria. Falar: “Isso daí é coisa da sua cabeça; isso daí o povo fala à toa, só para confundir”. Não falei. Ela não ia entender.

Para comprar a erva, Leandro vai até uma boca de fumo dentro de uma favela à beira do Rio Paraná, que separa o Brasil do Paraguai.

– Eu vou de bicicleta, porque é rápido, fácil, não chama atenção. Mas, é difícil. Você entra dentro da boca, pode acontecer qualquer coisa. O cara me deixou esperando uma vez na curva depois da boca; na hora que eu olhei pra baixo, eu nunca tinha passado daquele ponto, era uma ribanceira mesmo. Eu falei: “Nossa! Se a polícia virar aqui, eu estou sem documento…” – eu tinha esquecido de colocar na mochila – “e estou com droga, os caras podem fazer qualquer coisa”. Eu ia desaparecer naquele barranco e ninguém ia saber. Estava na beira do rio. Você fica meio cansado de passar por esse tipo de ansiedade toda hora. E dessa ansiedade ninguém fala.

Uma vez, quando pegava o prensado com o traficante, a polícia passou rapidamente de carro. Leandro observou o camburão dando a volta na esquina e sabia que os policiais viriam por outra rua e o pegariam com a droga. Olhou para o traficante e perguntou:

– O que eu faço?

– Corre.

Ele não teve tempo de guardar a droga, fechou-a na mão e saiu pedalando apressado pelas ruelas da favela, até chegar na entrada da cidade. Viu o carro da polícia virando a esquina conforme previra, mas um caminhão começou a manobrar no mesmo instante, bloqueando a passagem dos policiais. Leandro pedalou como nunca até o centro da cidade onde finalmente estava a salvo.

Entre o medicinal e o recreativo – entre os riscos e os benefícios

No decorrer de sua vida, Leandro provou de tudo um pouco, mas nada se tornou permanente, com uma exceção:

– Eu usei tudo quanto é tipo de droga, usei quase todos. Quase todos porque eu não injetei, não estou a fim de fazer isso, mas… Eu já fumei pedra, já cheirei cocaína, já tomei doce. Eu cheirei muita cocaína. Eu já era mais velho, era mais fácil chegar até ela. Tinha lugares que a gente chegava e a galera oferecia, muito fácil. Mas, me deu “bad”, aí eu parei. Eu parei de fazer um monte de coisas, mas eu nunca parei de fumar maconha.

Ele sente que a maconha o tem ajudado a lidar com sua ansiedade, mas ainda não tem certeza se seu uso da maconha é medicinal ou recreativo. Diante de tantos outros casos mais graves, ele sente receio em afirmar que faz uso medicinal.

O professor de história da USP, Henrique Carneiro, no entanto, defende que:

– Ao fim do dia, você fumar um baseado, para ficar tranquilo… Não é a toa que tem esta tradição do 4:20, ligada ao horário do Happy Hour, aquele momento de relaxamento, no final de uma jornada extenuante, em que as pessoas precisam ter um relaxamento. Então, aí, é uma função de relaxamento, de ansiolítico. Então, eu diria que uma boa parte do uso é terapêutico, no sentido cotidiano. Uma espécie de autoterapia fitoterápica do cotidiano. Assim como você busca um chá para se acalmar, ou um café para ficar estimulado. Então, mais do que nos casos agudos, há um potencial de uso – digamos, com funções terapêuticas – muito maior do que estes casos agudos que têm sido identificados claramente.

Sendo medicinal ou recreativa, a cannabis parece ter ajudado Leandro.

– Em muitas coisas, hoje, eu sou muito focado. Por exemplo, se eu estou cozinhando, eu perco totalmente noção do que está acontecendo fora. Se as pessoas falam comigo, eu entendo, mas demoro para responder. Porque eu estou muito concentrado, estou pensando em um monte de coisas, mas relacionadas àquilo. Eu já passei dezessete horas cozinhando e não percebi, não senti que eram dezessete. Então, eu foquei. Eu fumava maconha e ia andar de bicicleta, passava três horas na bike e relaxava.

Isso não significa que ele esteja livre de riscos. Leandro afirma não sentir que a maconha lhe faça algum mal, mas admite ser um vício. A dependência atinge cerca de 9% dos usuários em algum momento de suas vidas; mas se trata de uma dependência psicológica e não física. Outras drogas, mais pesadas, causam dependência física, ou seja, o organismo do usuário para de funcionar normalmente sem a droga. Esse é o caso, por exemplo, do álcool (incidência de vício de 15%), da cocaína (17%) e da heroína (23%). O cigarro ainda é campeão em número de dependentes, cerca de 32% usuários.

Enquanto a abstinência do cigarro pode se tornar insuportável para os usuários, a do álcool e da heroína são potencialmente fatais. A abstinência da maconha, entretanto, que atinge cerca de 22% dos usuários, é considerada tipicamente curta e leve. A duração do período de abstinência é de até duas semanas, podendo começar 24 horas após o último consumo. Os sintomas mais comuns são: nervosismo e agressividade, ansiedade, depressão, irritabilidade, inquietude, dificuldades para dormir, diminuição do apetite e perda de peso.

Outro risco está no fato de, por alguns anos, Leandro ter fumado tanto cannabis quanto cigarros. A combinação dos dois pode agravar os danos pulmonares causados pelo cigarro, aumentando o risco de câncer no pulmão. Usuários que fazem uso da maconha apenas, ainda que fumada, podem sofrer irritações no pulmão, mas nunca foi registrado qualquer caso de câncer e outros problemas graves. Isso se deve, provavelmente, aos efeitos anticancerígenos da cannabis, protegendo o pulmão das toxinas presentes na fumaça.

A ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria) afirmou, em sua página no Facebook, ser contra a liberação da cannabis, pois ela “piora todos os quadros psiquiátricos, que já atingem 25% da população”. Em entrevista para o programa Roda Viva, da TV Cultura, o psiquiatra Valentim Gentil Filho alegou que a liberação da cannabis ocasionaria “uma epidemia de esquizofrenia”.

Centenas de pacientes e especialistas, entretanto, discordam dessas afirmações. A psiquiatra americana Julie Holland defende que a cannabis pode ser útil no tratamento de diferentes distúrbios psiquiátricos, entre eles: stress pós-traumático, depressão, ansiedade, depressão neurótica, desordem bipolar, esquizofrenia, déficit de atenção, distúrbio obsessivo-compulsivo e síndrome do pânico. Uma pesquisa feita na Califórnia revelou que, dos 2480 pacientes entrevistados, 660 usavam a cannabis para tratar distúrbios psiquiátricos, inclusive a esquizofrenia.

Lucas Maia, em sua tese de mestrado, demonstrou que o tratamento de depressão com THC e CBD depende da dosagem. Uma dosagem muito alta de THC agravava o quadro, enquanto uma dosagem moderada o tratava.

O sistema endocanabinoide e os efeitos da cannabis no cérebro são complexos e os cientistas ainda tentam compreendê-los. Enquanto isso, a maioria dos usuários parece ser capaz de dosar seu consumo de cannabis e não apresentam um quadro problemático ou abusivo. Será que estamos exagerando os riscos por medo do desconhecido?

leandro-raggi-gr-growroom-20161205-018
Leandro Raggi, 28 anos

LEAVE A REPLY