#GrowroomnasEleições: Profeta Verde

Quem fecha a série de entrevistas #GrowroomnasEleições é o Profeta Verde (PSOL-SP), entidade canábica incorporada pelo advogado Fernando da Silva, que quer levar o debate da maconha à Câmara de São Paulo

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Quem é o Profeta Verde?  E o Fernando da Silva? O Profeta é um personagem que surgiu na Marcha da Maconha de São Paulo, em 2011, com o objetivo de disseminar a profecia de que a maconha não só será legalizada, mas que é uma planta mágica, sagrada, que vai salvar a humanidade do colapso ambiental. Tem uma forma mais lúdica de comunicar, para vencer o estigma da maconha. O Fernando da Silva é um advogado e comunicador que está por trás dessa ideia e traz carne ao Profeta Verde.  Faço parte de uma associação cultural canábica, a ACUCA, que foi fundada em 2012 para congregar usuários e simpatizantes. Mas, embora exista o Fernando, o Profeta é uma entidade para a militância canábica, que pode ser incorporada por outras pessoas. O objetivo é que haja outros profetas, de outras cores e cidades. O Profeta é o candidato, e não o Fernando, exatamente para despersonalizar, brincar com a coisa coletiva.

Como e quando conheceu a maconha? A maconha está aí desde sempre. Tentaram proibir, não deu certo. Ela é tão especial que mesmo com a proibição as pessoas continuaram usando. Conheci a maconha antes do Profeta. Foi numa roda de amigos, na praia, alguém me ofereceu e não deu certo. Eu tinha 15 anos. Depois, tentei de novo, gostei muito e não parei mais de usar. São 16 anos de relação, quase diária, com a canábis, que é muito importante para mim. Com ela, parei de usar outras drogas para aliviar a pressão, praticamente não bebo mais.

Como e quando se envolveu com a luta pela legalização? Começou por volta de 2008, quando eu estava na faculdade de Direito. Tive um insight de que era importante retribuir à maconha tudo o que ela me deu. Como eu estava estudando Direito, vi que seria importante usar as técnicas que eu aprendia em favor da liberdade da planta. Então, comecei a estudar a política de drogas, conheci o antiproibicionismo, a Marcha da Maconha. E desde então estou nessa. É a minha causa política, a que eu decidi focar como luta, porque é muito complexo e importante. As pessoas acham que é ‘oba oba’ de quem quer ficar doidão, mas é uma política muito complexa. Envolve saúde, segurança pública, cultura, arte, educação, família. É prioritária porque, ao mexer nela, podemos melhorar muitas coisas. Por exemplo, o encareramento de pessoas vulneráveis. Tem, ainda, a questão medicinal. Muita gente precisa dessa planta para viver bem. O Profeta quer legalizar a cura e a paz. A cura da maconha medicinal e a paz da maconha nas relações sociais.

Acredita que avanços ainda podem vir do STF, que está com o RE 635.659 travado com o ministro Teori Zavascki? Acho que o STF vai descriminalizar. A questão é o tempo que isso vai demorar. É uma corte política, que faz julgamentos em momentos políticos. Têm ministros que atuam em favor do governo para atrasar julgamentos e esse processo, com certeza, vai ser segurado. Teori já segurou por um ano. Aí vai soltar, outro pega e segura de novo. Acho que esse processo ainda leva uns três anos. Mas, cada vez que fazem uma sessão, se alimenta o debate. O STF já está mostrando que não é crime. O que é bom, mas não resolve o problema. Descriminalizar resolve o uso, mas não o consumo. Os traficantes continuarão sendo presos, a guerra entre traficantes e policiais vai persistir, vamos ter mais cultivadores perseguidos e presos. Acho que a saída é mais embaixo. Nas ruas, marchas, associações, coletivos.

Como observa a importância do cultivo caseiro? Acredito que o cultivo é, sim, uma grande revolução no âmbito pessoal do indivíduo. Com ele, você para de alimentar o tráfico, usa uma maconha de infinita melhor qualidade e passa a ter outra relação com o processo de produção, de criar o que precisa. Eu, por exemplo, aprendi a tomar gosto por cultivar outras plantas também, para não depender tanto do mercado. É difícil, mas não é impossível. E, com a maconha, é possível para muitos usuários. Posso dizer que pude desenvolver uma consciência sobre o ciclo da natureza, crescimento, floração, momento de colher, querer a chuva, querer o sol. Além disso, o cultivo caseiro é uma forma de minimizar a chegada da indústria do consumo, quando a planta, enfim, for legalizada. Com as cooperativas de cultivo a gente conseguiria minimizar esse impacto.

Outro importante pilar da luta antiproibicionista é o medicinal. Como você percebe essa questão? Houve um pequeno avanço com relação aos derivados do CBD e do THC, mas ainda é pouco. Quem consegue um médico de confiança e autorização judicial sofre grande problema para obter o remédio por causa da burocracia e dos altos custos de importação. Não é a toa que tem muita gente produzindo clandestinamente. Por isso, é importante que o usuário possa plantar seu remédio ou que alguma cooperativa plante para ele. Esse seria um passo importante. A principal pressão tem que ser o cultivo, tanto medicinal como para uso pessoal. A gente tem que cultivar legalmente para conhecer a planta. Tem gente se arriscando para isso, e penso que são heróis. Mas, quando a gente puder fazer isso legalmente, a coisa vai avançar muito. Vai ser muito bom para os pacientes.

Como um vereador pode apoiar a causa antiproibicionista em âmbito municipal? Fale sobre algumas propostas. Precisamos ter representantes atuando na política de drogas e falando de maconha em todas as esferas de governo. A experiência do Renato Cinco ajuda bastante. Como vereador, se pode atuar na segurança pública, regulando a forma como a Guarda Municipal atua com usuários, apresentar métodos de abordagem que, ainda que dentro da proibição, respeitem os direitos humanos. E tem a questão da saúde municipal, principalmente com o tratamento de usuários que estão em situação vulnerável. Uma política de saúde que zele pela redução de danos, como o programa Braços Abertos, da prefeitura de São Paulo, que a gente pode se inspirar.  Também é possível fortalecer uma central de apoio ao usuário medicinal, ajudando esses usuários a entrarem na justiça, a comprarem lotes, a garantirem seus remédios. A terceira vertente é a da educação e da cultura. É preciso um trabalho de normalização da maconha, de passar a tratá-la como uma coisa normal, como o café, o açúcar ou o tabaco. Como outras drogas que a gente sabe que têm malefícios e benefícios, mas que são regulamentadas. E vale lembrar que a vereança é um processo aberto. É necessária a participação das pessoas, com novas ideias e projetos chegarmos a outros caminhos. São Paulo é uma cidade gigantesca, têm muitos usuários, de vários níveis sociais e territórios. Também devemos fortalecer o que já está sendo feito. Um vereador pode fortalecer os coletivos para promover a cultura e a afirmação canábica.

O que o levou a se candidatar levantando a bandeira da legalização da maconha? Parece pequeno, mas só a maconha já dá trabalho para uns 10 vereadores. Por isso me candidatei, pela planta, pelos usuários, por quem sofre com a proibição. É uma pauta urgentíssima. A maconha é uma nação, somos mais de 200 milhões de usuários no mundo. No Brasil, são oito milhões de pessoas que usam pelo menos uma vez por um ano. Essa nação precisa ter voz política.

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