Doce analogia

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Brigadeiro de Maconha

Foto: Rafael Wainberg/Revista semSemente
Texto: Cassady

Existe um universo paralelo entre o space cake de Nova York e uma brigadonha carioca.

Na mesma semana que as editorias de Internacional dos jornais e sites divulgaram a iniciativa da Weed World Candy, de vender doces de maconha em vans por toda a cidade de Nova York, a parte policial dos mesmos veículos registrou a prisão de três pessoas que vendiam brigadeiros de maconha nas ruas da Lapa (RJ).

A diferença é que, na primeira reportagem, a iniciativa de venda nas vans foi elogiada por ser uma novidade no setor, já que, geralmente, maconha e derivados são comercializados em locais fixos nas regiões legalizadas dos EUA. No caso da “brigadonha” carioca, o fato foi registrado como uma ação policial, dentro de numa atmosfera criminosa, onde a moral da história era de que aqueles doces feitos de Nescau, prensado e Leite Moça ofereciam um risco significativo à nossa sociedade.

Não pensem vocês que as brigadonhas eram vendidas por noias armados em uma das esquinas da Rua Riachuelo. Eram jovens bem informados sobre a causa da legalização, e, inclusive, bem como a versão estadunidense, também tinham uma estratégia de marketing: chamavam suas iguarias de “Brigadeiros Mágicos”. Também tinham uma página no Facebook, onde anunciavam os eventos onde estariam.

Na mesma página, os jovens também defendiam a legalização da cannabis, por motivos mais do que óbvios (faz menos mal que álcool, pode ser usado medicinalmente, etc.), mas isso não ofuscou as diretrizes do Artigo 33 da nossa Lei de Drogas, aplicadas pelos agentes da Lei numa das barulhentas madrugadas da Lapa. Na ação, não foi apreendida qualquer arma, apenas os doces e alguns cigarros da erva.

O resumo da questão é: lá fora, onde é legalizado, as pessoas podem comprar e vender doces, salgados e até a própria maconha em si sem problemas, pois NÃO OFERECE RISCO ALGUM À SOCIEDADE, e ainda gera tributos aos governos e empregos à população. E, aqui, qualquer coisa ligada à erva pode ser um caminho asfaltados para uma cela superlotada.

Mais do que óbvio que ia dar merda para estes utópicos jovens. Mas, na moral, de que vivem os cultivadores e ativistas senão de utopias, de sonhos? Numa sociedade cravada por verdades científicas, e não religiosas ou culturais, estes jovens poderiam ter sua “Kombi do Brigadeiro”, pagariam seus impostos e. quem sabe, até poderiam contratar mais pessoas para o seu empreendimento. Algo conhecido como “prosperar” nos países desenvolvidos, como o que tem acontecido com as vans da WWC.

Vence sempre, no Brasil, o provincianismo de nossas leis e a vontade de fazer justiça à custa de inocentes (sim, inocentes). Enquanto a sociedade bater palma para projetos de Lei aprovados nas madrugadas da Câmara dos Deputados, continuaremos a ver os direitos sociais (em geral) entrarem no obscurantismo de prioridades governamentais.

Polêmicas à parte, fica a vontade de ter provado um destes brigadeiros numa noite boêmia no centro do Rio. Antes de um show no Circo, na Fundição… um dia, quem sabe.