Maconha e a dramaturgia policial

0
1084

Por Cassady

Pés de maconha plantados em casa se tornaram o novo tema das operações policiais do RJ, ou melhor, das “peças teatrais” da polícia fluminense. Nesta quinta (21), o ativista e advogado Ricardo Nemer foi a bola da vez.

Há alguns anos, conversava em off com um agente da Coordenadoria de Operações Especiais (Core) do RJ sobre a então nova tática da Secretaria de Segurança, de anunciar as operações policiais um dia antes da ação. O objetivo, neste caso, não era prender os traficantes, mas sim expulsá-los das comunidades a fim de evitar confrontos. O policial, em um canto da delegacia, me explicou que tudo aquilo não passava de um mero “teatro”: “Os personagens já estão definidos, o cenário geralmente é o mesmo, e o que oferecemos é o que o público quer, que é ver bandido fugindo. Mas, em termos de eficácia, isso não gera nada, já que os traficantes acabam indo para comunidades amigas, e, de lá, continuam controlando todos os pontos de venda de drogas. É um verdadeiro teatro, que tem público, mas não tem eficácia”, me explicou o indignado agente.

Aquela definição de “teatro” ficou marcada na minha memória, e comecei a observar que, a cada ano, novos temas passaram a protagonizar estas peças policiais. Este ano, indiscutivelmente, as autoridades descobriram um novo assunto: prender cultivadores caseiros de cannabis. As plantas exóticas, aliadas à tecnologia usada para a sua produção, criam um cenário quase futurista para aqueles conservadores que desconhecem totalmente o universo da maconha. Os antagonistas desta peça também são exóticos, pois se diferem daqueles presos nas operações em comunidades. Geralmente, têm curso superior, não possuem armas, e nunca oferecem resistência. Em suma, são ativistas, mas seus discursos pró-legalização não entram no roteiro das peças, somente o tom de justiça proferido pelos “heróis” (?) da trama.

Mas, novamente, voltamos a questão da eficiência da ação, que, neste caso, é nenhuma. Os presos nestas operações se sustentam graças ao seu trabalho, não traficam o que plantam, pagam seus impostos e lutam por uma sociedade melhor a cada bud colhido em suas estufas. Ou seja, não oferecem qualquer risco à sociedade. Quem lucra com a prisão destes é somente a polícia, ou melhor, a imagem da corporação, que consegue transmitir uma eficiência somente àqueles que assistem os telejornais. “Uma imagem vale mais que mil palavras”, diria aquele professor da faculdade.

No entanto, nesta quinta-feira (21), a polícia pode ter dado um passo maior que suas pernas. Prenderam o cultivador talvez mais “escrachado” do ativismo nacional, o advogado Ricardo Nemer, que nunca escondeu de ninguém que cultivava sua própria maconha, claro, para uso próprio. Tenho certeza de que foi totalmente desnecessária qualquer investigação. Bastaria alguém da delegacia telefonar para ele, que o próprio o conduziria até sua casa e mostraria suas plantas. E, com seu poder de persuasão (como todo bom advogado), o policial corria o risco de ser convencido a plantar sua própria maconha para produzir o famoso óleo medicinal, que é usado para diversas patologias.

Mas isso não daria audiência. Novamente, e covardemente, a policia realizou a operação quando o próprio não estava em sua residência, mas sim seus familiares. Ricardo retornou o mais rápido possível, mas a catarse já estava acontecendo, ao vivo e a cores, e registradas em HD pelas mídias locais. Ao fim do espetáculo, todos retornaram para os seus lares, inclusive Ricardo, que vai responder em liberdade.

Ricardo é usuário medicinal de maconha e um dos maiores nomes do ativismo no Brasil. Luta, com recursos próprios, pela liberdade de diversos cultivadores presos erroneamente como traficantes. Tem orientado e fundado diversas associações que lutam pelos direitos dos usuários, medicinais ou não. Conversa constantemente com mães de crianças portadoras de epilepsia, explicando os milagres do hemp oil. Ensina e convence seus colegas de profissão a defender usuários presos pela ignorância. Escreve artigos para jornais, e participa de debates públicos sobre legalização. Enfim, é um ativista ativo, daqueles que colocam a cara à tapa quando veem qualquer tipo de injustiça. Quem duvida, basta procurar no Google que vai se surpreender.

Ricardo também é aquele amigo para todas as horas, e uma pessoa “beligerantemente divertida”, porque, para ele, não existe “meio ladrão”. Ou você é justo ou não é. Ou luta pela liberação total da maconha, ou é um proibicionista. Não existe meio termo para ele. E, nesta polaridade, conquistou fãs e muitos amigos, que se espelham nele para continuarem com seus cultivos caseiros, como forma de não financiar o tráfico de drogas.

No final das contas, Ricardo Nemer é um bom exemplo de cidadão e chefe de família. E, na ação desta quinta, a polícia ajudou a dar força às suas convicções durante sua dramaturgia cotidiana. A “classe” está mobilizada como nunca, principalmente, com as Marchas da Maconha que já estão acontecendo em várias cidades brasileiras este ano. Com isso, esta peça policial pode ter um final diferente. Pelo menos, é nisto que acreditamos. Se um foi por todos, todos serão por um.