Brasil: O CBD, a Indústria e a Mídia

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Uma análise na edição #338 da revista Super Interessante. Saiba qual o real interesse e entenda a atuação da indústria farmacêutica na divulgação de informações sobre a maconha e seus “únicos” derivados: o salvador CBD e o maldito THC

Fabrício de Lima*

São Paulo, 3 de outubro de 2014. Nossa mídia não está tão interessada na maconha. Mesmo com a overdose no uso da palavra, o interesse vai além. É financeiro. O domínio de um mercado promi$$or está em jogo. Quem pensa que a enxurrada de reportagens sobre crianças tratadas com CBD importado foi sugerida de forma espontânea por jornalistas engajados pelo Brasil está por fora. Jornalismo não é coisa divina.

A revista Super Interessante [i.e., editora Abril] meia dúzia de vezes estampou o assunto Maconha em sua capa. No número #338 [out/2014], ela se repetiu no formato. Mas mudou o conteúdo. As primeiras reportagens usaram na capa a folha da planta, aquela estigmatizada como o terror da juventude. Sempre igual. Mas agora em outubro ela se superou.

Com o lançamento do filme “Ilegal”, que narra a história da menina Anny e a luta de sua mãe Katiele para conseguir o direito de importar o CBD, a revista teve de novo de tocar no assunto. Sobretudo porque é ela quem assina o filme com um “Super Interessante apresenta: Ilegal”. Primeira vez que a revista coloca seu nome à frente de uma produção cinematográfica. Seguiu a Folha.

Dessa vez, mudou a abordagem. Antes, o tema era uma novidade na luta pela legalização da maconha, sempre contextualizado na história, com infográficos descolados e informativos. Agora, empurrados pelo papo do CBD, comovidos com a história das crianças, e de olho no mercado da maconha legal que tem gerado milhões nos EUA, o barco ideológico aparenta ter mudado de rumo.

Pasmem! Fizeram uma capa com uma folha de maconha feita com comprimidos e pílulas.

Um grafismo inoportuno que mistura natureza com laboratório. É o pleonasmo da estigmação. Após a mídia ter passado anos contando que a folha da canábis era o ícone do mal, da polêmica, do revolucionário [o que já era contraditório] conseguiram ainda associar esse equívoco histórico à indústria farmacêutica. E todo mundo sabe que onde existe remédio, tem doença, e vice-versa. E tudo isso gera dinheiro, publicidade, anúncio na mídia.

No texto da revista, atualiza-se a história da Anny, conta-se em que pé está a luta da guerreira Katiele, as evoluções no bem-estar e saúde da menina. Depois, vem o verdadeiro intuito da matéria. Um grande parágrafo, talvez 30 linhas, sobre o jornalista e diretor do Ilegal, Tarso Araújo, contando, sobre o filme que fez com dois amigos, o projeto Repense. Normal.

Depois disso, o texto descamba para uma chatice burocrática, já encarando a maconha como um remédio, um produto que precisa ser lançado um dia, mas antes é necessário o debate. Explicam-se os caminhos para importar o CBD no Brasil, fala-se um pouco sobre os pacientes, sobre o uso da maconha pelos antigos, mas no todo defende mesmo um remédio, um produto da indústria.

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Esqueça a Maconha, a planta, o cultivo, a possibilidade de fazer esse remédio em casa, por custos baixos. Esqueça isso. Não interessa para a indústria. Esse assunto não será abordado. “Foi mal, não vai rolar”, como a revista explica em um gráfico estilo organograma daqueles. Pra não dizer que não apareceu a palavra cultivo, uma médica do Uruguai cita em sua frase bem por cima. No pé do texto.

Mas o que a mídia tem a ver com isso?

Os impérios de comunicação no Brasil estão desmoronando. Por isso, dependem extremamente da publicidade para continuarem vivos. E a indústria [farmacêutica, automobilística, de fofocas, entre outras] gera anúncios, seja em páginas de revistas e jornais, ou na televisão, rádio e internet. Antes, eles abocanhavam as verbas públicas quase que toda. Hoje, a democracia é maior nessa área.

E eles estão desesperados.

A mídia busca vender publicidade e a indústria usa isso para emplacar matérias e reportagens com pautas e abordagens favoráveis aos seus negócios. Mas, como? As matérias não saem das cabeças pensantes dos nobres jornalistas? A resposta é: a maioria das vezes, não! Os assuntos são oferecidos aos chefes de reportagem por empresas de Relações Públicas, os chamados PR (leia-se pí ar).

Abraça quem quer. E eles quase sempre abraçam. A preguiça dos jornalistas brasileiros é imensa.

De olho no mercado brasileiro, empresas norte-americanas de CBD já estão atuando no Brasil. Por meio de pessoas que poderiam ser chamadas de lobistas, por defenderem os interesses dessas empresas em nosso País. O discurso delas, geralmente, é aquele de que “temos de começar liberando a maconha medicinal, é uma isca para os proibicionistas, depois o cultivo fica mais fácil”.

Por exemplo. A HempMeds, que já tem domínio .BR e oferece descaradamente o extrato de CBD, contratou a In Press Porter Novelli, uma das maiores empresas de comunicação do País [confira aqui seus clientes]. Desde abril vem emplacando matérias na mídia brasileira. Basta olhar o clipping das reportagens conquistadas pela empresa no Brasil e no mundo.

São muitos os exemplos expostos como troféus pelas empresas de relações públicas em seus sites e dos clientes. Dêem uma olhada aqui, tem até o filme “Ilegal” com link para o canal do youtube da campanha Repense, feita com “recursos doados por 362 pessoas através (sic) do site Catarse.” Do jeito que aparece no site da empresa americana, é tudo a mesma divulgação, todos envolvidos.

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Ah, mas a Super Interessante escreveu que “o caso Anny e o uso medicinal da maconha ganharam espaço em jornais, revistas e programas de televisão em 2014.” Entenderam? Na verdade, a In Press trabalhou pesado para gerar “mídia espontânea” ao principal produto da empresa: o CBD. O caso da Anny virou pauta, o personagem ideal para uma indústria sedenta pelo mercado brasileiro.

Talvez pouca gente tenha percebido como o maconha foi tratada no Fantástico, por exemplo? Como o terreno foi preparado antes para que o CBD chegasse depois com força total. No início, era maconha recreativa, era o papo careta sobre maconha, o estigma maconheiro, os mesmos clichês. Em pouco tempo, o assunto foi sendo direcionado. Um belo trabalho de planejamento midiático.

Talvez por isso seja tão difícil falar em cultivo. Em plantar sua própria maconha, em não precisar recorrer ao mercado dos EUA para importar um remédio que é só uma planta. Com a desculpa que “temos primeiro de pensar no CBD para salvar vidas”, estão entregando o mercado novamente para a indústria farmacêutica. Anti-proibicionistas carregam o mesmo discurso errado muitas vezes.

Não faz sentido ensinar primeiro a comer o peixe e só depois pescar. Parem, reflitam sobre o papel da mídia. Infelizmente, muita gente honesta e idealista acaba trabalhando para os interesses maiores achando que está fazendo o bem, quando o trabalho parece mais o de confundir. Não atacam o ponto principal:

Plante sua própria maconha!

E sobre o que disse uma desesperada mãe, que se o CBD “desse na folha do abacaxi, a gente usava o abacaxi, mas não dá”, a conclusão só pode ser uma: Sorte do abacaxi que não dá CBD. Seria uma planta odiada pela indústria e perseguida pela mídia e seus interesses. Quem duvida?

 

* Fabrício de Lima é jornalista, fotógrafo, já atuou como assessor de imprensa, e membro do Growroom desde sua fundação em 2002.

 

 

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